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Amália Rodrigues – “Apresentada Fotobiografia De Amália Rodrigues – Imagens De Um Mito Que Sorri”

Cultura >> Sábado, 23.05.1992


Apresentada Fotobiografia De Amália Rodrigues
Imagens De Um Mito Que Sorri



“AMÁLIA – Uma Estranha Forma De Vida”, fotobiografia de Amália Rodrigues, foi apresentada quinta-feira à tarde na adega Machado, ao Bairro Alto, uma casa de fado das antigas, do tempo “em que as pessoas vinham para se encontrarem todas, para ouvir a música de que gostavam”, como a fadista lembrou. O álbum, editado na Verbo, foi compilado por Vítor Pavão dos Santos, director do Museu Nacional do Teatro, prefaciado por David Mourão-Ferreira e reúne fotografias de Augusto Cabrita e do arquivo daquele museu. Imagens de um mito que sorri, de histórias e viagens, registados em sessões onde o pitoresco esteve presente. Numa delas Amália “ia ficando afogada no cais de Alcântara” e noutra “esteve para ser presa”, recordou Fernando Guedes, editor da Verbo, para quem este foi um projecto há muito idealizado e só agora amadurecido.
David Mourão-Ferreira chamou à obra “um prazer para os olhos” e improvisou sobre o tema perante o sorriso de Amália”: “Isto é o livro dos sorrisos de Amália”, afirmou. Foi-se entusiasmando: “Podia-se fazer um estudo sobre o sosrriso de Amália, sobre o que o sorriso de Amália exprime, simultaneamente do que em nós há de sorridente e de triste”. David Mourão-Ferreira foi mais longe: “Mesmo por debaixo do não-sorriso de Amália, descobrimoes sempre o sorriso que tem sido um dos grandes segredos do mito que á Amália, do milagre que é Amália”. Amália, a seu lado, sorriu.
Quando o escritor e actual director do serviço de bibliotecas itinerantes e fixas da Gulbenkian se referiu à fadista como “um heterónimo de Portugal, mais, O Heterónimo de Portugal, Portugal no feminino”, Amália não resistiu e respondeu: “Bem feito!”. Aliás, ao longo da tarde, Amália teve sempre o comentário certo e bem-humorado, corrosivo mesmo, com que a cada instante conseguiu romper o amplexo asfixiante da solenidade característico desta espécie de homenagens. Na altura em que Vítor Pavão dos Santos referiu que “em Portugalo sabe-se muito pouco de Amália”, Amália, a desconhecida, limitou-se a comentar: “Só querem saber quando é que me retiro”.
Por fim, Amália falou de retalhos da sua vida e do livro, da “estranha forma de vida” que continua a ser a sua, da estranheza a “tudo” o que lhe tem “acontecido” e de uma incompreensível vontade de chorar: “Sou uma pessoa estranha. Choro muito”. Quanto à fotobiografia afirmou dar-lhe “sempre vontade de a folhear”. Nela encontrou imagens que a fazem encontrar-se a si própria “aqui e ali” e de “sítios esquecidos mas que ficaram no ar”.
Diz a letra do fado “que estranha forma de vida tem este meu coração / vive dela perdida / quem lhe dará o condão / que estranha forma de vida”. Quem lhe deu este condão? Não sabe bem. Para ela “foi Deus”. Amália vê-se nas fotos, “gosta de se ver”. Tem o contentamento de “saber que não era feia” e “gosto de olhar para trás”. É difícil, isto que Amália faz – olhar o passado e sorrir.

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Amália Rodrigues – “Coimbra Homenageia Lisboa, No Casino Estoril – Amália, Doutora Do Fado”

Secção Cultura Segunda-Feira, 07.10.1991


Coimbra Homenageia Lisboa, No Casino Estoril
Amália, Doutora Do Fado


Coimbra homenageou Amália, nomeando-a doutora “honoris fadus”. A serenata de homenagem deu para tudo: espetada de lagosta, Mozart, “topless” e fado. O fado é que induca, a lagosta é que instrói, lá diz o povo. Amália soube, como sempre, ser rainha, na noite em que trocou o xaile pela capa estudantil.



Noite de gala, anteontem à noite, no Casino Estoril. Noite do “doutoramento” de Amália Rodrigues, distinção que lhe foi concedida pelos estudantes de Coimbra, mais concretamente pela Associação Académica desta cidade. O fado de Coimbra prestava assim tributo ao seu congénere lisboeta, na voz e na pessoa da sua pitonisa. A festa incluía jantar, meninas em “topless” a dar vivas a Mozart, e fado, como não podia deixar de ser.
Animaram-se os espíritos, logo à entrada do auditório do casino, ao depararem com um grupo de gentis meninas de Coimbra que, de saia negra e curta, distribuía simpatia e os convidados pelos respectivos lugares. Coimbra dos amores, diz a canção. Caso para dizer: amores platónicos, os quais, como tónicos que são, servem para abrir o apetite.
Satisfeitos os olhos, foi com uma enorme dose de curiosidade que nos preparámos para enfrentar o segundo ponto do programa: “jantar” (o primeiro tinha sido uma “bebida de boas vindas”). O dito consistiu num prato de lagosta mais outro de carne de vaca. Durante a refrega com os comestíveis, um agrupamento de música de câmara, primeiro, e a orquestra privativa do casino, depois, fizeram-se ouvir suficientemente alto para disfarçar o ruído da mastigação. Faça-se-lhes justiça: tinham menos nervo que a carne. O contraponto líquido cumpriu o que geralmente se lhe pede nestas ocasiões: alegrar os espíritos e avermelhar as bochechas. A propósito, o Presidente da República era suposto estar presente. Se estava, não deu de si. Pelo contrário, foi notada a presença de outro presidente, da Federação Portuguesa de Futebol, o dr. João Rodrigues, aparentemente sem problemas de regressar a Lisboa a tempo de votar.
Seguiu-se o show “Viva Mozart”. Muita luz, excelente coreografia, o assassínio sistemático e bem-humorado da música daquele compositor e, sobretudo, muitas maminhas ao léu, ao nível das melhores exposições artístico-anatómicas que o “Moulin Rouge” ou as “Follies Bergères” têm para oferecer. A maminha nacional é, de resto, como o resto do país – abana, mas não cai. Destaque para dois quadros realmente fora-de-série: um em que um corpo de mulher se metamorfoseia em diversos instrumentos musicais, manuseados pelo seu parceiro masculino. Outro, composto por um ser monstruoso que se contorce sobre o palco, assumindo formas grotescas entre o fálico, o intestinal e o cano de esgoto.

“Quem Me Dera Estar Contente”

Terminada a paródia passou-se ao lado sério do espectáculo, justificativo da designação “Serenata a Amália”. Altura para se cantar o fado de Coimbra. Feito silêncio, gemeram as guitarras e as violas, a acompanhar as vozes de Almeida Santos, Luís Góis, Camacho Vieira e Costa Brás, entre outros, vestidas de negro, trespassadas de saudade. Abriu-se o espaço em outro espaço, num beijo furtivo, na serenata à silhueta recortada contra a janela da noite.
Dona Amália subiu por fim ao palco, no momento por todos ansiado. Cheia de medo, como é seu hábito – “dá-me vontade de chorar, não posso continuar”. Mas continuou, agradeceu, balbuciou e cantou o fado, o seu fado. Cantou primeiro um fado de Coimbra, receosa – “vocês têm todos melhor voz” – com a letra a ser-lhe segredada no próprio instante ao ouvido. Depois um fado lisboeta, da cidade que lhe é alma e destino.
Antes foram as cerimónias e a praxe académica. Amália, nomeada doutora “honoris fadus”, “punida” em seguida, na condição de “caloira estrangeira”, com as palmadas de uma colher de pau, por não ter vestido a capa segundo as regras e por ter sorrido ao venerável presidente da Associação. Por dentro dos sorrisos, invisíveis aos olhos ofuscados pela euforia e pelo ritual dos gestos, sentimentos mais profundos, que as palavras de Almeida Santos inscritas no programa sintetizam: “Nesta homenagem à grande Amália há, implícita, uma homenagem a tudo o que Amália simboliza: as almas sensíveis, os corações generosos, a Lisboa e o Portugal que nela se revêem”. Amália, em noite de serenata, acabou a cantar em conjunto com estudantes e doutores a “balada da despedida”: “Quem me dera estar contente, enganar a minha dor”.

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Brindes Ao Passado – artigo de opinião

Pop Rock

28 de Dezembro de 1994

Balanço Português 94

BRINDES AO PASSADO


fm

lagrimas


Com algum tempo de atraso, como é vulgar e de bom tom acontecer neste cantinho lusitano, a moda das homenagens chegou a Portugal. É verdade que por cá não abundam nomes de peso, vivos ou não, que justifiquem tais iniciativas, nem o necessário conhecimento de causa da parte de muitos dos celebrantes. Era preciso procurar mitos, artistas que povoassem o imaginário musical português, capazes de reunir o consenso e atrair tanto os jovens leões como os veteranos. Mas não foi preciso procurar muito. Assim, a jeito e com a estatura mínima pretendida, dois nomes se destacavam à partida, um deles já falecido, o outro ainda vivo e alvo de adoração do povo português: José Afonso e Amália Rodrigues.
O primeiro teve honras de grande acontecimento, através da edição do duplo contendo versões de canções suas, pelos Filhos da Madrugada, designação genérica que englobou praticamente todos os grupos mais conhecidos da pop nacional, mas deixou de fora pessoas que conviveram de perto e tocaram com o autor de “Coro dos Tribunais”. Amália foi, para já, objecto de homenagem mais modesta, por parte de Dulce Pontes, que lhe repescou uma série de fados e adoptou o título de um deles para o seu próprio álbum, “Lágrimas”. Por sinal, também José Afonso foi arrastado na corrente, aproveitando Dulce Pontes para homenagear de uma penada dois artistas cuja obra, ideologia e personalidade não poderiam ser mais opostos.
Enquanto isso, no Seixal, por ocasião das festas de Corroios, alguém se lembrou de editar um “Especial José Afonso”, disco que, curiosamente, não teve o mesmo sucesso de vendas que o dos Filhos da Madrugada. É que não se percebe muito bem o que têm grupos como os Oboé, Nível de Vida, Dixit, Últimos Suspeitos, Quatro+1, Tropa de Choque, Irmãos de Sangue e O Incesto a menos que os GNR, UHF, Sétima Legião, Resistência, Delfins, Madredeus, Peste & Sida, Mão Morta ou Sitiados!
O terceiro homenageado do ano foi outro falecido, António Variações, personagem controversa, ao contrário das outras duas, e, em vida, incómoda para muitos. Foi logo nos primeiros meses de 1994 que os nomes do costume decidiram juntar-se para umas “Variações” em torna deste artista, que adorava Amália, afirmava estar “entre o Minho e Nova Iorque” e misturava nas suas canções preocupações existenciais com uma vertente sonora electropop que, até hoje, permanece como uma das propostas m ais originais da música popular feita em Portugal. Assim, aos especialistas nas homenagens, Delfins (Miguel Ângelo foi dos primeiros a compreender e a “apropriar-se” da música do cantor-barbeiro), Ritual Tejo, Madredeus, Resistência, Sitiados e Mão Morta, juntaram-se Sérgio Godinho, Isabel Silvestre, Santos e Pecadores (bela designação para uma hipotética banda do homenageado…) e Três Tristes Tigres, num álbum que recupera temas dos álbuns “Anjo da Guarda” (1983) e “Dar e Receber” (1984), os únicos que Variações editou em vida.
Foi pois no fundo do baú que muita gente andou a remexer nas raízes perdidas. Num tempo de vacas gordas em termos de vendas (para o qual contribuiu em grande parte a aposta – ganha – na exportação, por algumas multinacionais) para a música portuguesa, a que correspondeu um tempo de crise, em termos de aparecimento de novos valores (exceptuando a saudável investida nas editoras independentes que apresentaram propostas de grande valor como as dos Bizarra Locomotiva, U-Nu ou Tina & The Top Tem, entre outras), investiu-se na bolsa dos valores seguros e na celebração de um classicismo que, inspirado nos tempos áureos da MPP ao longo das décadas de 60 e 70, ganhou novo eco na facção pop. Nesta corrida ao passado encontrou muita gente o fôlego providencial para o relançamento de carreiras em risco de estagnação. Para outros, terá sido verdadeiramente uma sentida homenagem. Para outros ainda, o mero oportunismo e o embarque à última da hora no comboio da jogada comercial. Fossem quais fossem as intenções de cada um, ninguém pode negar, porém, a este fenómeno, das homenagens, uma virtude: a de trazer a música dos mestres para o convívio das gerações mais novas, provocando nelas, como já aconteceu nalguns casos (Paulo Bragança ou a própria Dulce Pontes, por exemplo) o desejo de retomar e actualizar a tradição.

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