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Altan – “Altan No Festival Intercéltico Do Porto” (concertos / festivais)

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sexta-feira,14 Março 2003


Altan no Festival Intercéltico do Porto

Certame realiza-se de 3 a 5 de Abril no Coliseu



Porto sem Festival Intercéltico é menos Porto. Depois dos problemas logísticos que, há dois anos, ameaçaram a continuidade do festival, a edição deste ano destaca-se pelo regresso em força às programações de qualidade. Serão três dias da melhor música de raiz céltica, condimentados por um ambiente único de convívio e de festa no Coliseu portuense.
Com início a 3 de Abril, o programa abre com os escoceses Shantalla, promovidos à primeira divisão dos grupos britânicos, assinalando-se deste modo a reentrada no Porto pela porta grande, após uma anterior e inesquecível passagem pelo festival como banda de animação. Na primeira parte, a banda portuguesa Brigada Victor Jara fará a apresentação do seu novo álbum.
Dois outros regressos estão marcados para o dia 4: o dos Gaiteiros de Lisboa, com a música sem fronteiras do novo álbum “Macaréu”, e o dos irlandeses Four Men & A Dog, os tais do gordo, bonacheirão e “virtuose” do “bodhran” Gino Lupari, elemento determinante na “performance” musical e visual do grupo cuja música, em álbuns como “Barking Mad” ou o novo “Maybe Tonight”, apela sem apelo nem agravo à dança.
A fechar, dia 5, a cantora galega Mercedes Péon fará o teste ao vivo da veia inovadora que caracteriza o álbum “Isué”, antecedendo o regresso apoteótico ao Intercéltico dos irlandeses Altan, hoje em dia um dos grupos clássicos da folk europeia, tendo na primeira linha a voz e presença fabulosas da cantora Mairéad Ní Mhaonaigh. O álbum mais recente tem por título “The Blue Idol”.
A novidade do festival deste ano é que as “noites intercélticas” se vão estender a outras localidades do país. Assim, os Altan e os Four Men & A Dog tocam no dia 3, numa Grande Noite Celta, em Lisboa e, a 4 e 5, em Montemor-o-Novo, enquanto a Brigada Victor Jara e os Shantalla se apresentam, dias 4 e 5, em Arcos de Valdevez.



Gaiteiros De Lisboa + Four Men And A Dog + Mercedes Péon + Altan – “Bólides Irlandeses Ultrapassaram Mercedes” (XIII Festival Intercéltico) (concertos / festivais)

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Segunda-feira, 7 Abril 2003


Bólides irlandeses ultrapassaram Marcedes

XIII FESTIVAL INTERCÉLTICO
Gaiteiros de Lisboa + Four Men and a Dog
4 de Abril, sala praticamente cheia
Mercedes Péon + Altan
5 de Abril, sala cheia
PORTO Coliseu



Terminou o 13.º Festival Intercéltico do Porto. Em apoteose. É quase sempre assim, quando a Irlanda desce ao Porto, com festa rija, toda a gente a dançar e um ar de felicidade estampado nos rostos e nos corpos. Os Altan cumpriram com brilho, sábado, no Coliseu, a tarefa de que foram incumbidos, divulgando a mensagem renovada de uma Irlanda definitivamente enraizada nos hábitos culturais do Intercéltico. Grande concerto, em crescendo, sem concessões. É assim que deve ser, atrair o público até à música, levá-lo a compreendê-la, senti-la e aceitá-la, ao invés de apelar aos desejos mais básicos de quem ouve. Os Altan começaram devagar, com o canto “a capella” de Mairead Ní Mhaonaigh (na foto). Os “jigs” e “reels” apareceram naturalmente, sem tiranizar a beleza de baladas como “Roaring water” ou “A tune for Frankie” (dedicado ao malogrado flautista e fundador dos Altan, Frankie Kennedy). Aos poucos os corpos soltaram-se. Vieram as danças, a imparável vontade de participar.
Mairead, além da voz que se conhece, mostrou ser uma exímia violinista, entrando em diálogos vertiginosos com Ciaran Tourish, sem o apoio de quaisquer percussões. A assistência mostrou estar à altura dos acontecimentos, sabendo dosear a folia com o silêncio, como quando cantou, sem uma desafinação, uma melodia a quatro tempos ensinada por Mairead. Com os Altan a Irlanda profunda esteve presente no Porto e deixou marcas.
Na véspera foi uma outra Irlanda que passou pelo Intercéltico. Ao contrário dos Altan, os Four Men and a Dog praticam uma música mais universal e tecnicista. Ausente Gino Lupari (para grande desapontamento de muitos), trocado pelo competente e amplificado Jimmy Higgins, no “bodhran”, o quarteto selou uma atuação tecnicamente irrepreensível de onde sobressaíram as acrobacias violinísticas de Cathal Hayden e Gerry O’Connor. A forma como transformaram “Music for a Found Harmonium”, dos Penguin Cafe Orchestra, num tema com uma complexidade harmónica que o original não possui foi exemplar da atual abordagem estilística dos Four Men and a Dog, um grupo que, sem Gino Lupari, manifestamente se tornou mais musical, ganhando em rigor o que perdeu em teatralidade e “verve” humorística. Mesmo assim, um “boogie” saído da cartola mostrou que ainda anda por ali à solta um cão vadio…
Desiludiram as duas bandas chamadas a fazer as primeiras partes. Na sexta-feira, os Gaiteiros de Lisboa esticaram demasiado a corda. Inegável continua a ser a originalidade de uma música única no panorama da “folk” europeia. Polifonias intrincadas, uma tensão instrumental feita da polaridade entre a música antiga e a modernidade mais radical, um humor inteligente e “nonsense” mordazes, a força de percussões arrancadas ao cancioneiro
português mais genuíno, tudo isto esteve presente na atuação dos Gaiteiros na noite portuense. Faltou a unidade, a sustentação prática de um edifício cuja complexidade não cessa de aumentar. Se o motor rítmico funcionou e as vozes compensaram com a beleza do labirinto um ou outro défice de colocação, o mesmo não se poderá dizer das gaitas-de-foles numa noite em que andaram manifestamente perdidas. Nem sempre é possível acompanhar a força das marés, e a onda gigante, o macaréu, dos Gaiteiros é força da Natureza, umas vezes doce, outras tempestade difícil de domar.
Mercedes Peón, na abertura de sábado, não esteve melhor. Não que o público não tivesse gostado. Adorou. Mas porque a cantora galega lhes ofereceu prato de fácil digestão: batidas rock de baixo elétrico e bateria, cânticos fortes servidos por um vozeirão que se deve ter feito ouvir na outra margem do Douro, gaitadas meia-bola-e-força e canções dignas de uma “Operação Triunfo” não tiveram dificuldade em impor-se. Mas Mercedes foi mais veículo de carga do que automóvel de luxo. No “stand” do Intercéltico, os bólides irlandeses continuam a ser os mais viáveis.

EM RESUMO
Duas Irlandas, a profunda dos Altan e a universalista dos Four Men and a Dog, “arrasaram” o Coliseu do Porto.
Gaiteiros e Mercedes foram a arranjar para a oficina