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Adiafa – “Grupo Adiafa Soma E Segue” (artigo de opinião)

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sexta-feira, 28 Fevereiro 2003


Grupo Adiafa soma e segue



Revelação. Flash. Os Adiafa viram a luz. E a música pop feita em Portugal descobriu no Alentejo um riquíssimo filão. “Adiafa”, álbum de estreia deste grupo de Beja, há já algumas semanas que circula pelas rádios e discotecas do país, onde o tema “As meninas da Ribeira do Sado” vai fazendo furor. Disco de prata, prepara-se para conquistar o ouro. Mas só ontem se fez o lançamento oficial, em pleno Alentejo, no Monte Diabrória, Beringel. Bem acamados por uma sopa de peixe, migas e uma feijoada de lebre, os Adiafa apresentaram no local os dois “vídeos” de promoção do álbum, interpretando a seguir alguns temas ao vivo. A boa disposição e a qualidade da música foram de tal ordem que um raio de luz divina irrompeu pela sala, abençoando estas polifonias modernas com raiz na tradição. Os deuses, lá no alto, já todos decoraram os versos: “Estrala a bomba, o foguete vai no ar/ Arrebenta, fica todo queimado/ não há ninguém que baile mais bem/ Que as meninas da Ribeira do Sado”. Com sotaque, é claro.



Adiafa – “Pop Alentejana” (artigo de opinião)

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domingo, 26 Janeiro 2003


POP ALENTEJANA

Beja assiste a um fenómeno inédito. Nas suas discotecas dança-se música alentejana. “As meninas da Ribeira do Sado”, dos Adiafa, é o tema que está a fazer furor.


Nunca se viu nada assim. A música alentejana saiu do monte, desceu à cidade e introduziu-se nas discotecas. O “escândalo” rebentou quando um dos temas do álbum de estreia do grupo Adiafa, de Beja, “As meninas da Ribeira do Sado”, começou a passar nas discotecas da cidade.
Passou e pegou. Hoje torna-se difícil encontar na cidade quem não conheça o tema de cor. Dos estudantes universitários, que nos últimos anos fizeram crescer a população da cidade, à criançada da escola que, para gáudio dos pais, tem na ponta da língua os versos e a melodia não só da versão electrificada mas também da ortodoxa, em toda a pureza do “cante”, de “As meninas da Ribeira do Sado”, que também faz parte do álbum.
Fomos conhecer de perto a loucura do que se poderá chamar “pop à alentejana”, rótulo, de resto, também aplicável ao álbum de estreia de outro filho da cidade, Paulo Ribeiro, antigo elemento do grupo Anonimato. Há algo de excitante no ar. Correm rumores de que “As meninas da Ribeira do Sado” avançaram já para Norte e estão a agitar algumas pistas de dança de Lisboa. Rui Veloso e Vitorino expressaram já publicamente a sua admiração pelos Adiafa.
Curiosamente ninguém na cidade se refere a “As meninas da Ribeira do Sado” por este nome mas por “Estrala a bomba”, aproveitando o início da letra: “Estrala a bomba e o foguete vai no ar”. Os músicos do grupo são reconhecidos na rua e apanham com o mesmo epíteto. “Olha os ‘Estrala a bomba’!” exclamam, apontando, velhos e novos. Os Estrala a Bomba, perdão, Adiafa, não escondem o seu contentamento, ainda algo incrédulos com o sucesso alcançado pela sua música. “Sentimo-nos felizes por, graças a nós, as pessoas darem mais atenção à música alenteja.”
Ao almoço (afinal “adiafa” é sinónimo de “banquete”), no restaurante Os Infantes, edifício com cerca de 600 anos, antiga discoteca e antes disso sede do extinto partido político MES (Movimento da Esquerda Socialista), na lambança sem pecado proporcionada por divinais feijoada de lebre, migas com carne de porco e perdiz estufada, bem regados por um Vidigueira tinto monocasta “aragonês”, a conversa fluiu com a mesma facilidade com que à noite se dança nas discotecas “As meninas da Ribeira do Sado”.
Cada um dos sete elementos do grupo, com idades entre os 26 e os 52 anos, acrescenta a sua parte a uma história que parece ser de fadas.
António Santos, “Toy”, o idealista anarquista, admirador de Bakunine, para quem a liberdade dos homens é possível; Emídio Zarcos, aspeto “hippie” mas respeitável professor de Educação Física; João Santos, “o encarnado”, sócia de Mick Hucknall, dos Simply Red; José Emídio, apaixonado pelos “blues” e outras músicas (“sempre que posso, canto ‘blues’, mas por que raio é que não consigo cantar flamenco?”); Luís Espinho, incondicional do jazzrock (“um dia hei-de ouvir o Joe Zawinul ao vivo!”); Paulo Colaço, o homem da “house” e do “drum‘n’bass” que usou o programa Cubas” para fabricar em casa os beats da versão remisturada de “As meninas da Ribeira do Sado”; e Joaquim Simões, executante de fagote que passou uma noite em claro subjugado por uma partitura de Beethoven. Todos diferentes mas unidos por um sonho: levar a música alentejana cada vez mais longe e a mais pessoas.
A discoteca UFO’s, antigo bar “underground” onde os músicos do grupo Revisão se juntavam para fazer “jam sessions” (“bom rock e bom ‘blues’”, que ainda hoje continuam a ser tocados num recanto do recinto que Carlos Lopes, gerente da casa, considera “carismático”), faz parte dos locais de diversão de Beja onde “As meninas da Ribeira do Sado” é tocada todas as noites, inclusive na versão tradicional. “A primeira vez que me pediram para tocar a música dos Adiafa achei um bocado esquisito, mas toda a gente aderiu. Até já estamos a pensar em fazer uma sessão de karaoke… as pessoas cantam por cima”, diz Carlos Lopes.
Ninguém se recorda muito bem da origem do nome UFO’s, embora Carlos Lopes se lembre de ouvir então falar em discos voadores. Já Emídio Zarcos acha que tem a ver com “o estado da cabeça de algumas pessoas” que frequentavam o estabelecimento. O que já bate mais certo com a semelhança entre este nome e o do mítico clube inglês UFO onde, em 1967, os Pink Floyd e os Soft Machine inventaram a pop psicadélica.
É quinta-feira e faltam poucas horas para o UFO’s se encher de jovens universitários com a cabeça mais ou menos fora do lugar, desejosos de divertimento. Quinta é a noite de loucura de Beja. “3000 mulheres para cada homem”, segundo avaliação, pouco científica, dos Adiafa. “Estrala a bomba” tornou-se parte integrante dessa diversão.
A Biblioteca Municipal José Saramago, considerada modelar e uma das melhores do país, entrou nos hábitos da população mais jovem da cidade. Aberta até às onze da noite, com um espaço infantil, café e ambiente informal, além de revistas e livros, permite levar CD para casa. O dos Adiafa “está sempre fora”.
Sentados às mesas do café, os jovens voltam as cabeças para os sete Adiafa enquanto estes antecipam a folia que daí a poucas horas se instalará um pouco por todos os locais noturnos da cidade. Cristina tem 25 anos e estuda na Universidade Moderna. Investigação Social Aplicada. Vem todos os dias assistir às aulas. As discotecas Caras e Lanterna Azul contam-se entre as suas eleitas. Para dançar “As meninas da Ribeira do Sado”. “Já o fiz muitas vezes, aqui e noutros locais do Sul”. Lídia, 22 anos, a estudar no mesmo curso, já dançou a “remix” em Reguengos de Monsaraz, de onde é natural. Com a mesma idade, Ângela veio do Montijo para estudar “Animação Sócio-Cultural”. O tema dos Adiafa é dos que mais a animam. “Vi-os no outro dia num programa da televisão e achei curioso ter como base uma recolha do cancioneiro popular, uma coisa que estava esquecida.”
A partir de agora deixou de haver razões para que a música alentejana continue esquecida. Os Adiafa tiraram-na do beco do “cante” e da viola campaniça, criando a partir da tradição novos modelos. Está em curso a invasão da pop alentejana.

Vitorino e companhia

A música do Alentejo, em parte pelas suas especificidades, próprias de uma tradição que tem mais a ver com o Mediterrâneo (o canto corso, por exemplo) e o espólio polifónico medieval do que com as heranças etnográficas de todo o território situado a Norte do Tejo, em parte pelo ostracismo político a que durante décadas foi votado, conservou durante largos anos o estatuto de bolsa marginal. A sua ligação à música urbana, processo agora encetado pelos Adiafa ou por Paulo Ribeiro, tem, no entanto, antecedentes. Deixando de lado o espólio discográfico tradicional fixado nas recolhas de Giacometti, na “Viola Campaniça”, organizado por José Alberto Sardinha ou grupos corais como os das Camponesas de Castro Verde, Camponeses de Pias ou os Ganhões, também de Castro Verde, o selo alentejano está bem marcado na família Salomé, de Vitorino e Janita, ainda que num registo que começou por estar conotado com uma atitude revolucionária que era timbre da primeira geração de músicos da chamada Música Popular Portuguesa. Álbuns de Vitorino como “Semear Salsa ao Reguinho” (1975), “Os Malteses” (1977), “Não há Terra…” (1979), “Romances” (1980) e “Flor de la Mar” (1983), são exemplares dessa conjunção entre folclore, dignidade e ideologia. Após um período mais literário e “lisboeta” encetado com “Leitaria Garrett” (1984), realça-se o recente “Alentejanas e Amorosas”, de 2001, que o autor define como recuperação de um “romantismo mediterrânico e peninsular”. Janita Salomé, numa perspetiva mais “world music” e assumidamente arabizante, assinou trabalhos como “Melro” (1980), o clássico “A Cantar ao Sol” (1983), “Lavrar em teu Peito” (1985) e, numa perspetiva mais abrangente e fusionista, “Raiano” (1994) e o excelente e recentemente premiado “Vozes do Sul” (2001). Ele e Vitorino, mais o irmão Carlos e Filipa Pais (autora de “L’Amar”, 1994, com o delicioso e alentejano “Vox omnes”), encetaram a aventura, tão curta como cintilante, dos Lua Extravagante.



Adiafa – “O Alentejo Tem Ritmo” (entrevista)

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domingo, 26 Janeiro 2003

“O Alentejo tem ritmo”

Têm o “cante” na voz e na alma
mas não descuram a irreverência.
Ao vivo põem as pessoas a rir.
À noite, a sua música é para se
dançar ao lado de Shakira
ou das Las Ketchup. As novas
“adiafas” fazem-se nas discotecas


Os Adiafa: “Sempre cantámos à alentejana. É inato. Está-nos na alma”


PÚBLICO — Como apareceram os Adiafa e o álbum de estreia?
ADIAFA — A ideia é do Emídio Palma e do Paulo Colaço que há uns anos começaram a pensar na música da nossa terra e de uma maneira nova de a apresentar. O grupo nasceu há três anos. Fruto da necessidade de termos um cartão-de-visita. Fomos nós que custeámos tudo.
Mas depois de uma primeira edição caseira, o CD vai ter lançamento oficial da Sony…
Sim, mas o processo desencadeou-se todo no Alentejo. Foi no Alentejo que começámos a ter sucesso. O disco passa nas discotecas, nas rádios locais… Só a partir daí é que a editora veio ter connosco.
“Adiafa” significa apenas “banquete” ou algo mais?
Também é “festa”. No Alentejo, antigamente, o trabalho agrícola era todo feito por pessoas. Não havia máquinas. Vinham do Algarve, das Beiras, do Norte, inclusive de Espanha. No final desse trabalho, o senhor dono das terras dava uma festa. Comia-se, bebia-se, dançavase e cantava-se. Era a “adiafa”, uma palavra de origem árabe.
Por norma as pessoas associam a música alentejana ao “cante” e aos grupos corais. Provavelmente, não há mais nenhuma formação como a vossa…
Não quisemos abandonar o “cante” mas recuperar o tempo perdido. Fez-se a promoção do “cante” mas não por opção do Alentejo, na época das recolhas. Houve coisas proibidas e outras não. A viola campaniça, por exemplo, que é o que nos liga mais à tradição, foi deixada ao esquecimento. A história tem destas coisas tristes… Nós somos o futuro.
Viola campaniça que esteve em risco de extinção. A situação continua a ser grave?
Menos do que era. Há já alguns jovens a construir e a tocar. A nossa foi construída por um rapaz de 25 anos, o Pedro Mestre. E bom tocador… A viola campaniça representa, no aspecto rítmico, a nossa ligação ao mundo árabe. No “cante” a ênfase é posta na riqueza harmónica e melódica. A verdade é que havia bailes nas aldeias todas as semanas e as pessoas não dançavam modas lentas mas coisas rítmicas. O Alentejo tem ritmo.
Fizeram recolhas?
Não andámos de gravador ao ombro. Ouvimos, fomos a “adiafas”, que ainda se realizam. Vimos velhotes, um trio de violas campaniças, tocar e cantar. Também tirámos dos discos. Mas o tema mais conhecido, “As meninas da Ribeira do Sado” aprendêmo-lo por via da tradição oral.
Mas não se considerem puristas, o que nos leva à “remix” de música de dança de “As meninas da Ribeira do Sado”…
Somos puristas na maneira de cantar quando estamos num grupo de cantares alentejanos. Se se reparar, a traça da nossa música continua a ser a do “cante”. Damos-lhe é uma roupagem diferente… O Fernando Lopes-Graça escreveu um livro chamado “Problemas da Música Portuguesa”. Uma das coisas que ele dizia era precisamente que nas recolhas a que teve acesso se percebe que o povo não está estático, as pessoas evoluem. Por exemplo, há uma moda da Dulce Pontes com um grupo coral que ninguém conhecia e que hoje se canta nas tabernas.
Sim, mas a “remix”…
Foi ideia do Paulo. Fazer uma moda alentejana ser dançada nas discotecas. Antigamente dançavam-se nos bailaricos. Hoje as “adiafas” são feitas nas discotecas. Passam “As meninas da Ribeira do Sado” ao lado da Shakira e das Las Ketchup.
Todas as pessoas reagiram bem à vossa música?
Havia um bocado a ideia de que o “cante” tem que ser sempre lento, pouco apelativo à vista. Nós, nos espectáculos ao vivo, que é o nosso forte, somos extraordinariamente bem dispostos, brincamos uns com os outros e com o público. Contamos histórias, anedotas, pomos as pessoas a rir.
Além de música alentejana o que é que ouvem em casa?
Cada um de nós tem gostos diferentes. Herbie Hancock, Joe Zawinul, Wes Montgomery, “blues”, música de dança… Antes dos Adiafa tocávamos jazz mas as pessoas não queriam saber disso. Aplicamos os nossos gostos e os nossos conhecimentos técnicos à música alentejana. Sempre cantámos à alentejana. É inato. Está-nos na alma.
Fazem parte da mesma linhagem do Vitorino ou do Janita Salomé? Ou representam uma ruptura?
Ruptura nunca. Embora o Vitorino cante com cubanos, é uma opção dele… A verdade é que quando ele nos ouviu pela primeira vez, ainda não éramos conhecidos, torceu um bocado o nariz. Mas no outro dia, ouviu-nos cantar “à alentejana”, seis ou sete modas, veio ter connosco a pedir para cantarmos mais. Convidou-nos para participar no próximo disco.
Existe mesmo uma pop alentejana?
Além de nós, há o Paulo Ribeiro, o fadista António Zambujo, o Francisco Sobral, fizeram os dois parte do musical “Amália”, todos de Beja, todos da mesma geração. Não sei se será coincidência. É como se estivesse algo a cozinhar e de repente se decidisse deixar de ser politicamente correto.