Sérgio Godinho, Os Tubarões, Rádio Macau – “Comemorações Do 25 De Abril Em Concerto Ao Ar Livre Em Belém – Qual Revolução?”

Cultura >> Domingo, 26.04.1992

Comemorações Do 25 De Abril Em Concerto Ao Ar Livre Em Belém
Qual Revolução?

Eram jovens, na maioria rondando os quinze, vinte anos de idade. A Revolução e o 25 de Abril dizem-lhes tanto como a nós a guerra dos Cem Anos. Para eles, não faz sentido falar de um “antes” e de um “depois”. Foram a Belém ouvir música e beber cerveja. Os mais velhos esperaram para ouvir Sérgio Godinho e pela festa que não houve.



Para os mais jovens a revolução resume-se a uma data nos compêndios de História. Quando muito, sabem que os pais faltaram às aulas nesse dia. Ou que houve cravos vermelhos na ponta de espingardas, uma canção na rádio e um tal Marcelo que foi recambiado para o Brasil. Aos 15 anos, não se quer saber de cravos nem do Brasil e muito menos do Marcelo. Aos 15 anos, é preciso guardar todas as energias para as revoluções que assomam no coração em cada cinco minutos. Vai-se a Belém para estar com ela ou com ele, ouvir música e curtir.
Na noite de sexta para sábado, no relvado imenso em frente à torre de Belém, dava ideia de que ninguém queria ouvir falar do 25 de Abril. Anunciavam-se festejos, uma celebração, enfim, esperava-se qualquer coisa que tivesse a ver com “liberdade” e “democracia”, que nos lembrasse que o “povo unido jamais será vencido”. Nada disso aconteceu. Pelo palco, feericamente iluminado, passaram os Tubarões de Cabo Verde, os Rádio Macau e Sérgio Godinho. Sem uma referência à data, uma palavra de ordem, nada. Não se gritou contra o fascismo. O rio mesmo ali ao lado e nenhuma gaivota voava, voava… A reacção não passará? Já passou. E em 18 anos de democracia, “o pior sistema de todos com excepção de todos os outros”, como diz a canção de Sérgio Godinho, os portugueses passaram-se.

“Quero Lá Saber!”

Os Tubarões deram tudo por tudo para animar e “avisar a malta”. Sem grandes resultados, diga-se. Catadupas de ritmos africanos, uma iluminação de palco eficaz e uma som que dava todas as hipóteses aos músicos não foram suficientes para entusiasmar os milhares de pessoas espalhadas pelo relvado que preferiram passear ao longo do Tejo ou então – alternativa muito do agrado dos mais novos – a renovação periódica e sistemática das provisões alcoólicas. Os basbaques optaram por especar diante da Torre e abrir a boca de espanto diante dos bonecos de Vasco da Gama, Camões ou da Cruz de Cristo projectados em feixes “laser” contra as paredes do monumento.
Xana e os Rádio Macau vieram a seguir. A cantora surgiu de “top” e calças negras por baixo de um casaco vermelho, numa das poucas alusões à cor de Abril. Os Rádio Macau também não entusiasmaram. Poucos minutos depois da meia-noite aconteceu o inesperado, quando acabados de entrar na data histórica, público e banda entoaram o refrão “quero lá saber”.
Esperava-se que Sérgio Godinho pudesse salvar a noite, mas tal não aconteceu. O único dos músicos presentes com um passado de luta contra a censura e de clandestinidade passou cheio de pressa pelo palco de Belém. Disse “olá”, um “hoje é 25 de Abril” sem outros comentários e “boa noite, obrigado”. Quem quisesse “mensagem”, que procurasse nas letras das canções: “Salão de Festas”, “Arranja-me um emprego”, “Aos amores”, “Coro das velhas”, “Alice no país dos matraquilhos”, “Etelvina”, “Os demónios de Alcácer-Quibir”, servidos a preceito pelo cantor e pela banda num registo popular que não logrou o efeito de festa pretendido. À distância todo esse passado, já pouco mais consegue provocar que um “brilhozinho nos olhos”.
Para a semana é o 1º de Maio e, com sorte, talvez Torres Couto disserte sobre os Descobrimentos. E assim “cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas”.

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