Georges Moustaki – Georges Moustaki Actua Hoje À Noite Em Lisboa – ‘Não Sou Um Militante'”

Secção Cultura Terça-Feira, 26.11.1991


Georges Moustaki Actua Hoje À Noite Em Lisboa
“Não Sou Um Militante”


Passados mais de vinte anos sobre “Le Métèque”, o cantor afastou-se da política, ouve Ravel e afirma não compreender os ventos que sacoem o Leste. Canções antigas, nunca mais. A revolução agora é outra, confessou na conferência de imprensa que deu ontem em Lisboa, antes do espectáculo de hoje, às 21h30, no Teatro Tivoli.



Vagabundo das canções, Georges Moustaki – aliás Joseph Mustacchi -, grego de nascimento mas francês de coração, personifica os ideais de toda uma geração “engagée” que se viu retratada na boémia e libertinagem poética da “chanson française”. Ao lado de grandes vultos como Piaf, Gréco, Montand (“soube da sua morte pela televisão. Senti uma tristeza incontrolável”), Barbara, Brassens, Forestier ou Reggiani, fez frente ao conservadorismo, pugnando pela afirmação de uma música genuinamente francesa.
“La Marche de Sacco et Vanzetti” ou “Il est Trop Tard” são canções que agitaram consciências, provocaram, abalaram convicções. Hoje será talvez “trop tard” para alterar o estado de coisas: “Em França, o Estado preocupa-se mais com a máquina da indústria musical do que com os verdadeiros criadores.” Antes sobrava espaço para os músicos como ele, capazes de lutar contra o “rock ‘n’ rol”, essa “reciclagem da música negra, inventada para provocar a histeria das ‘petites filles’”.

“Ir Ao Encontro De Uma Ideia”

Georges Moustaki fez da vida uma viagem permanente, de encontro com os outros, com novas ideias, com a utopia. O seu novo disco, com edição prevista para o final da próxima Primavera, tem por título “Chansons de Recontre et de Voyage” e conta com a colaboração do compositor Angelo Branduardi.
Para trás ficaram velhos êxitos como “Milord”, “Sarah” e “Ma Liberté” e a vontade de as cantar – uma “fuga em frente para escapar ao peso da idade, da rotina, da carreira…”, embora não saiba “quando começa ou acaba a juventude”.
Entre as recordações de viagem e o apelo do futuro, nesse precário equilíbrio entre a memória e a vontade de avançar, Georges Moustaki recolhe ao porto de abrigo e ao apartamento da Île-St. Louis, em Paris, onde habita há mais de vinte anos, para reflectir sobre tantas peregrinações pelo mundo e pelo interior de si próprio. Lugar onde cabe o desejo de “escutar certos sons, de comer certos frutos, de amar certas mulheres” e de fruir a música de Debussy, Fauré e sobretudo Ravel, cujo Segundo Concerto considera a obra “mais perfeita deste século”, para ouvir “a comer, a dormir ou a fazer amor”.
Amigo de Georges Brassens, Boris Vian, Jorge Amado e Otelo Saraiva de Carvalho, cantou a revolução dos cravos e das mentalidades. Revolução, ontem, como hoje, na ordem do dia. Algo mudou entretanto.
Da política, que antes lhe proporcionava “emoções fortes”, procura afastar-se cada vez mais: “Não sou um militante, nem um especialista da política, apenas gosto de escrever canções de crítica”. Hoje, ser revolucionário é “ir ao encontro de uma ideia” e lutar contra a “rotina, a burocracia e a esclerose” que minaram esse conceito de revolução.
Os recentes acontecimentos do Leste europeu suscitam-lhe uma enorme perplexidade: “não consigo perceber o que aconteceu num país onde sempre prevaleceram os valores da dignidade humana, se súbito abalado por uma onda de selvajaria”. Viagens cumpridas. Viagens por cumprir.

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