Richard Thompson – Mock Tudor

10.09.1999
Quadros De Um Rapaz Dos Subúrbios
Richard Thompson
Mock Tudor (8)
EMI, distri. EMI-VC

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“Pode tirar-se o rapaz dos subúrbios, mas não se pode tirar os subúrbios do rapaz.” A frase, que um dia alguém aplicou a David Bowie, natural de Brixton, nos arredores de Londres, assenta como uma luva a Richard Thompson, outro nativo dos subúrbios londrinos, temática que este músico já havia abordado com a sua então mulher, Linda Thompson, em “Sunnyvista”, e que agora retoma neste seu mais recente capítulo a solo, depois do duplo “You? Me? Us?”, de 1996. Com produção de Tom Rothrock e Rob Schnapf (trabalhou com Elliot Smith), “Mock Tudor” está dividido em três “capítulos”, correspondentes aos períodos cronológicos que marcaram a relação de Richard Thompson com Londres, mais concretamente, a zona norte da cidade: “Metroland” (1953-1968), “Heroes in the suburbs” (1969-1974) e “Street Cries and Stage Whispers” (1974 até hoje).
Está ao nível dos melhores trabalhos deste músico cuja carreira se iniciou nos Fairport Convention até se tornar nome de referência para gente como os REM, Bruce Springsteen, David Byrne, Nancy Griffith, Elvis Costello, Shawn Colvin, Evand Dando e Bob Mould. Sem atingir o estatuto de obra-prima de “I Want to See the Bright Lights Tonight” (com Linda Thompson) nem explodir no delírio de excentricidade de “In Strict Tempo”, “Mock Tudor” ilustra, no entanto, o que de mais consistente – folk-rock personalizado ao mais alto nível – existe na sua veia criativa, num álbum que carrega com menos força do que é habitual na tecla do sarcasmo e da miséria.
Do rock ‘n’ roll de coração adolescente do tema de abertura, “Cooksferry queen”, ao pungente tema final, “Hope you like the new me” (evocativo da tristeza que se infiltrava no âmago da música de três grandes nomes, entretanto desaparecidos, da folk contemporânea, e aos quais o álbum é dedicado: Nick Drake, Sandy Denny e Lal Waterson), “Mock Tudor” traça o quadro subjectivo dos subúrbios da capital ingelsa na última metade deste século, com o cinzento do cimento polido pela chuva e a vida aprisionada nos reflexos das poças de água das ruas. Há grandes canções neste tríptico, como “Uninhabited man” (com Thompson na sanfona), “Sibella” ou “Hope you like the new me”, uma “pastische” dos Police, em “Crawl back (under my stone)”, apontamentos “country” (“Walking the long miles home”) e sequências de folk-rock evocativas dos Fairport de “Liege & Lief” e “Full House”, (“Two Faced Love”. Richard Thompson não é um compositor simpatico e a sua obra adquire, por vezes, uma irritante opacidade. Por isso a relação de “Mock Tudor” com o auditor poderá ser semelhante à do músico com a sua cidade natal – de “amor-ódio”, como ele próprio diz. E a sua música, como Londres, “um lugar idealizado para se viver”.

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