Peter Brötzmann – “Live At Nefertiti” + Peter Brötzmann – “Aoyama Crows” + Anthony Braxton – “This Time…” + Anthony Braxton – “Four Compositions (GTM) 2000”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 5 Julho 2003

Peter Brötzmann lança chamas. Anthony Braxton usa régua e compasso. Qualquer deles representa o lado mais incandescente da “free music” atual.


Quando eles tocam as pessoas ouvem

Peter Brötzmann
Live at Nefertiti
Ayler, distri. Multidisc
8 | 10

Peter Brötzmann
Aoyama Crows
FMP, distri. Multidisc
9 | 10

Anthony Braxton
This Time…
Sunspots, distri. Trem Azul
8 | 10

Anthony Braxton
Four Compositions (GTM) 2000
Delmark, distri. Multidisc
8 | 10



Imagine o leitor/auditor que o sentam confortavelmente numa poltrona instalada na penumbra de um túnel, para ouvir jazz, com um cachimbo ao lado pronto para umas baforadas e umas pantufas fofas para calçar. De súbito sente uma ventania varrer-lhe o corpo e o espírito, cai da poltrona e verifica que o túnel é, afinal, o interior de uma turbina. O vendaval é de som e provém de um saxofone. No redemoinho de ar ainda apanha com uma aresta de cartão na testa (o contacto com o jazz pode ser doloroso). Apenas tem tempo de agarrar na capa do digipak e de ler um nome: Peter Brötzmann. Assim avisado, sorri e compreende. Amarra a poltrona ao chão, senta-se de novo e absorve com prazer a torrente sonora que brota do tenor deste músico alemão que levou a linguagem do “free” ao paroxismo da respiração e do fogo.
Com mais calma lê o título: “Live at Nefertiti”. Foi gravado no clube sueco com este nome, em 1999, em improvisação total com o baixo elétrico do dinamarquês Peter Friis Nielsen e a bateria do sueco Peeter Uuskyla (ex-sideman de Cecil Taylor), ambos pertencentes ao grupo Biigi Vinkeloe Trio, repetindo a formação de “Noise of Wings”. O jorro do saxofone, do clarinete e do taragato é imparável, o timbre do tenor emana centelhas de Albert Ayler (“Nidhog 4” é absolutamente ayleriano) e, a suportar a onda, o baixo do dinamarquês revela-se surpreendentemente fluido e macio, a par de uma bateria em constante trabalho solista. Assim, leitor, não oponha resistência, deleite-se na corrente, soletre as notas e entre em sintonia com o fôlego de modo a sentir a adrenalina de conduzir um Fórmula 1.
“Ayoama Crows”, com os Die Like Dog Quartet – William Parker (contrabaixo), Toshinori Kondo (trompete, eletrónica) e Hamid Drake (bateria) – em bora igualmente abrasivo da parte do autor de “Machine Gun”, revela porém uma abordagem diferente do coletivo, com o trompetista japonês a entrar em diálogos contrapontísticos de alta velocidade e Parker e Drake a dominarem e a dividirem o tempo com outra complexidade. Kondo confere mesmo ao som do “ensemble”, registado ao vivo também em 1999, no “Total Music Meeting” de Berlim, as tonalidades “funk” que lhe são características, evocando por vezes uma outra banda de Brötzmann, os Last Exit. A evocação de Albert Ayler encontra-se uma vez mais patente neste trabalho de extensas composições, verdadeiro mural de jazz cubista representativo do melhor que a “free music” atual tem para oferecer.
Anthony Braxton oferece outro tipo de violência. A do desconhecido. Em mais um pacote de miniaturas da Sunspots, o saxofonista ressurge numa gravação de 1970, “This Time…”, com Leo Smith (trompete, sirenes, buzinas, etc), Leroy Jenkins (violino, viola, flauta, órgão, etc) – os três tocam juntos, mais a eletrónica de Richard Teitelbaum, no fabuloso “Silence/Time Zones” – e Steve McCall (bateria, darbouka, percussões). Braxton toca a habitual parafernália de sopros mas também uma “sound machine” e sinos. Entre a música concreta e o ritual xamânico dos Art Ensemble of Chicago (tudo o que emite som provoca música), “Composition nº1” é uma demonstração do “free” na sua vertente mais multidirecional, criando uma infinidade de espaços e arquiteturas, etnografias urbanas desenhadas com tubos, fios, ferragens, ventoinhas, cornetas, martelo e pregos, agulhas e tintas de todas as cores, umas vezes bem, outras mal misturadas. Já as “Small Compositions”, numeradas de 1 a 5, mostram o lado mais conceptual, “extático” e “geométrico” do músico de Chicago.
Um salto de 33 anos leva-nos até “Four Compositions (GTM) 2000”, números 242 a 245, versão em quarteto do original de 1969, “For Alto”, para saxofone alto solo, com Kevin Uehlinger (piano, melódica), Keith Witty (baixo com arco) e Noam Scahtaz (percussão), enquanto Braxton se socorre da gama de saxofones que vai do soprano ao contrabaixo. Fria, em comparação com “This Time…” ou com a combustão de Peter Brötzmann, esta “Ghost Trance Music”, como o compositor lhe chama, está próxima de algum jazz de câmara representado pela editora Recommended, indo facilmente ao encontro do gosto dos que apreciam bandas como os Henry Cow (de “Western Culture”), Univers Zero ou Motor Totemist Guild. Em qualquer caso confirmando, como dizia o outro, que “quando Anthony Braxton toca, as pessoas ouvem”.

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