King Crimson – “In the Court of the Crimson King”

15 de Outubro 1999
REEDIÇÕES


Esquizóide aos 30 anos

King Crimson
In the Court of the Crimson King (10)
EG, distri. EMI – VC


kc

No 30º aniversário da data original do seu lançamento, o álbum de estreia dos King Crimson renasce com uma nova remasterização (som glorioso) e uma capa cartonada que é uma deliciosa miniatura da capa de abrir da velhinha edição em vinilo da Island. “In the Court of the Crimson King” permanece como um dos poucos ícones do movimento progressivo sobre o qual não recaiu a ira posterior de certa crítica que nunca soube verdadeiramente lidar com uma corrente estética que, quer se queira quer não, ultrapassou duas décadas de maus tratos para finalmente se mostrar de cara lavada neste final de milénio. “In the Court of the Crimson King” constitui o primeiro manifesto das doutrinas demonistas (o rei carmesim não é outro senão o diabo) do seu líder de sempre, Robert Fripp, apesar de suavizadas pela visão romântica do letrista Peter Sinfield, polo humanista dos KC, situação que se manteria até “Islands”, de 1971, com o qual se encerraria a primeira fase do grupo. Não era ainda o tantrismo das “frippertronics” nem as doutrinas de J. G. Bennett – que marcariam todo o trabalho do guitarrista a partir de “Lark’s Tongues in Aspic” e dos dois álbuns em colaboração com Brian Eno, “No Pussyfootin’” e “Evening Star” – mas um mundo de personagens mitológicas, de diabos, bruxas e princesas aos quais o esoterismo literário de Sinfield emprestava a inocência de uma fábula sedutoramente assustadora. Dos poucos álbuns em que o termo “sinfónico” não tem conotações pejorativas, “In the Court of the Crimson King” vive assombrado pela majestosidade de um instrumento então rodeado de mistério, o mellotron, autêntica orquestra sintetizada capaz de transformar temas como “Epitaph” “Moonchild” e “The court of the crimson king” em palácios de som. Peter Sinfield faz passar a pouca luz que ainda restava nos KC na balada “I talk to the wind” mas o tema que verdadeiramente atraiu as atenções, enquanto profecia dos tempos modernos, é a abertura, “21st century schizoid man”, violenta descarga de fúria da guitarra eléctrica-sirene-de-alarme de Fripp, em solo contínuo, o vómito vocal de Greg Lake e o fabuloso riff de saxofone de Ian McDonald a darem forma ao apocalipse que a capa ilustra de forma exemplar: o indivíduo invadido pelo cosmos. Aos 30 anos o homem-esquizóide do séc. XXI sorri.



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