Robert Wyatt – “Shleep”

Sons

10 de Outubro 1997
DISCOS – POP ROCK


Robert Wyatt
Shleep (10)
Hannibal, distr. MVM


shleep

Autor com um ritmo e um tempo muito próprios, Robert Wyatt demorou cinco anos até voltar a entrar em estúdio para a gravação de um novo álbum, após a edição, em 1991, de “Dondestan”. Valeu a pena a espera. “Shleep” (aglutinação de “Sleep” com “Sheep”) é o seu melhor trabalho desde o mítico “Rock Bottom”, uma daquelas obras que figuram por direito próprio na lista dos melhores de sempre da música popular.
Deixando para trás a sua veia mais politizada, presente em álbuns como “Nothing Can Stop Us” e “Old Rottenhat” ou em canções como “Shipbuilding” (com Elvis Costello) e “Biko”, Wyatt volta a mergulhar num universo onírico marcado, mais do que pelas suas preocupações sociais, por um estado de angústia quase crónico. Canções nascidas de noites e noites de insónia, outras assoladas pelo sonho e pelo voo das aves que habitam nas imediações da casa onde o músico e a sua mulher, Alfreda Benge (autora dos textos e da capa de “Shleep”), vivem actualmente, junto a um estuário, outras voando ainda mais para longe e para cima, numa fuga para outro mundo, como no tema “Alien”: “Durmo numa asa/sobre as nuvens de chuva/soprada pelo vento/ (sem raízes na terra)/nenhum solo por baixo (…)/Será que venho de Vénus? (alto, cada vez mais alto).”
Robert Wyatt esteve sempre fora. Quando os Soft Machine faziam furiosamente jazz (noutra obra-prima, o duplo “Third”), ele revolucionava a canção pop com um lado inteiro de “The moon in June”. Nos Matching Mole mostrou que estava fora do progressivo e muito à frente dele. Acabou mesmo por cair para fora de uma janela, se nos é permitido fazer um pouco de humor negro. “Rock Bottom”, gravado pouco tempo depois desse acidente, que o tornaria paraplégico, estava fora de tudo. Era um mundo de dor redimida pela fuga em direcção à infância e ao “nonsense”. “Shleep” é ainda a permanência nesse mundo infantil (a capa é um portento) de sonhos, lugar paralelo de criação, mas agora repartido com amigos como Brian Eno, Phil Manzanera e Hugh Hopper e enriquecido pela experiência, senão pela falência dos ideais políticos desde sempre perfilhados pelo músico.
Em termos sonoros, são óbvias algumas influências. De Eno, logo no tema inicial (numa curiosa inflexão pelas suas aventuras com os Cluster…), ou de Charles Hayward (ex-This Heat e Camberwell Now, outro radical de esquerda, que, ainda nos anos 70, fez parte de uma das bandas da cena de Canterbury, os Quiet Sun, ao lado de Phil Manzanera, justamente…), em “Was a friend”. As nuvens de sopros (com Annie Whitehead e Evan parker como dignos sucessores de Mongezi Fesa e Gary Windo), mostrando o quanto aprenderam com as lições de Carla Bley, as vocalizações fragmentadas, o piano martelado, num paroxismo emocional em reverência a Cecil Taylor, remetem para ambiências muito próximas de “Rock Bottom”. “Alien”, com o seu fundo aquático de sintetizadores, é semelhante ao utilizado em temas de “Old Rottenhat”. Com a diferença de que agora Robert Wyatt vê as coisas e a si mesmo através de um novo ângulo, do alto, com a distância permitida pelo sonho.
Permanecem e renovam-se um sentido inapto de experimentação, aliado a um lado “naїf”, e uma intuição melódica única (a forma de cantar de Robert Wyatt já fez mais do que uma pessoa chorar), num conjunto de dez canções absolutamente admiráveis. “Há liberdade em não ser?/Há liberdade em vir a ser?/Estar no ar/mas não ser o ar (…)/Sem ter nascido nem ser deixado para morrer/ (…) Se tivesse sido livre, poderia ter escolhido não ser eu”, canta em “Free will and testament”, um dos temas mais tocantes de “Shleep”. Obviamente, um dos álbuns do ano.



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