Dervish – “At the End of the Day”

POP ROCK

26 Fevereiro 1997
world

A felicidade ao fim do dia

DERVISH
At the End of the Day (10)
Whirling Discs, distri. MC – Mundo da Canção


dervish

Tudo bate certo no novo álbum dos Dervish, o quarto, depois de “Boys of Sligo”, “Harmony Hill” e “Playing with Fire”. O “set” inicial de “reels” instala, desde logo, o clima de calorosa intimidade que as várias imagens da capa sugerem. Em tons de ouro e fogo, os músicos da banda misturam-se com o cidadão vulgar, na mesma comunhão que, ao cair do dia, faz do “pub” o templo de convívio entre os homens e as gerações, numa ligação de velhos hábitos que se perpetua na música e nas libações. A sensação de partilha acentua-se ainda mais quando a voz de Cathy Jordan surge na primeira das canções. Mais do que nunca fazendo lembrar, pela semelhança do timbre e das entoações, quase infantis, Triona Ní Dhomnhail, evidenciando uma técnica e controlo talvez ainda mais apurados que os da antiga vocalista dos Bothy Band. A musicalidade que Cathy extrai do gaélico, numa canção como “Peata beag”, representa a depuração e compreensão máximas da quintessência dos ritmos e acentuações mais íntimos desta língua ancestral.
O esquema de alternância entre as “tunes” instrumentais e as canções vocalizadas mantém-se até final, conferindo a “At the End of the Day” um equilíbrio e diversidade de registos cuidadosamente geridos. Na mazurka e “reel” de “Jim Coleman’s set” o espírito dos Bothy Band volta a bailar, sendo verdadeiramente espantosas as prestações de Liam Kelly, na flauta, e Shane McAleer, na rabeca, firmemente apoiados pela batida poderosíssima de Cathy Jordan, no “bodrhan” e “bonés”. De resto, somos esmagados, tema após tema, pelos níveis de execução e sensibilidade atingidos pelos seis músicos que compõem actualmente o grupo. Como curiosidade, registe-se que em “Josefin’s waltz” os Dervish convidaram, para os acompanhar, o grupo sueco Väsen.
Música tradicional irlandesa em estado de completa maturação mas segurando com firmeza a flama do entusiasmo de quem sente ter ainda mais e melhor para lhe dar. Música que estabelece a comunicação com os deuses e os homens, possuída, do princípio ao fim, pelos rasgos de génio que são timbre exclusivo dos eleitos. Música feliz, que sabe não serem necessárias operações de maquilhagem para tocar no coração de quem verdadeiramente a ama. Na contracapa, consumada a alegria pagã do “pub”, com a silhueta recortada em contraluz, os Dervish olham o reflexo do crepúsculo nas águas esmeraldinas de um lago da Irlanda. A mesma tónica de nostálgica contemplação posta nos sons de despedida de “Eileen McMahon”. Uma vocalização “a capella” de Cathy Jordan gravada entre as paredes e a reverberação de uma velha igreja em Laragh, no condado de Wicklow, onde se conta a história de uma “rapariga maravilhosa que aparece num sonho a lamentar a situação triste da velha Irlanda”.
Há nesta luz e nestes sons qualquer coisa de sagrado. É o melhor disco dos Dervish e um dos melhores de sempre da música tradicional irlandesa. No panteão, junte-se aos nomes dos Chieftains, Planxty, Bothy Band, De Dannan, Patrick Street, Altan e Skylark o dos Dervish.



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