Leon Rosselson – “Intruders”

POP ROCK

5 Fevereiro 1997
world

“Sabemos quem devemos acusar”

LEON ROSSELSON
Intruders (8)
Fuse, distri. MC – Mundo da Canção


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“Para alguns, falar em canção é falar em mensagem, em argumentos, em abstracções, numa procura interior, em garatujas de introspecção, em fazer dinheiro. Para mim, uma canção torna-se mais importante do que tudo isto quando procura inventar personagens e histórias. A canção como teatro”. Há nesta declaração de intenções de Leon Rosselson um aparente paradoxo, na medida em que este músico se insere na vertente mais interventiva da “folk” urbana, campo no qual se pode equiparar a Christy Moore, na Irlanda, ou ao seu compatriota Martin Carthy que, aliás, o acompanha neste álbum, em guitarra acústica. As dúvidas desfazem-se, porém, de imediato, quando, a propósito do tema de abertura, “The heartening tale of John Pratt”, uma história sobre “um ‘tory’ dos dias de hoje”, garante que “qualquer semelhança entre o herói desta história e alguma pessoa viva, morta ou num estado intermédio, não passa de uma maravilhosa coincidência”.
Escudado nesta ironia, Leon Rosselson passa a disparar com pontaria certeira sobre a política, acontecimentos sociais ou o quotidiano sem chá nem poesia do cidadão inglês das classes menos favorecidas. Como na obra-prima “Guess what they’re Selling at the Happiness Counter” – colectânea revista e corrigida pelo autor, aqui já recenseada com nota máxima, disponível pela MC, bem como a reedição de “Wo Sind die Elefanten?” – “Intruders” justapõe a acutilância das palavras à força melódica de melodias que, em contraponto aos arranjos mais sofisticados daquele álbum, sendo estruturalmente simples, jamais se confundem com simplismo. Além do suporte básico das guitarras de Rosselson e Carthy, a instrumentação conta ainda com os teclados de Fiz Shapur e a voz de Lisa Mansfield, em dois temas. No último, Leon desaparece, dando lugar ao registo mais tradicional das vozes, guitarra e violino de Chris Foster e Sianed Jones.
Se compararmos, de novo, com Christy Moore, é curioso notar, nestes dois trovadores dos tempos modernos, a existência de um contraste entre a violência, ideológica ou emocional, dos textos, e a suavidade das vozes. A válvula de escape apenas deixa escapar a pressão através de voz de Lisa Mansfield, cujo registo de opereta enfatiza a teatralidade defendida, de início, por Rosselson.
Dividido em três actos – “Manter o controlo”, “Está a habituar-se a isto?” e “Sabemos quem devemos acusar” –, “Intruders” termina com uma nova nota de ironia, com uma “coda” “para aqueles que preferem um final feliz”, extrapolada de um poema de William Blake, em “All that is different is part of the dance”: “Porque toda a vida é sagrada, disse certa vez o poeta/E tudo o que é diferente faz parte da dança/A teia de cores da vida necessita do mínimo filamento/Para que a dança continue sem quebrar”.



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