Depeche Mode – “Ultra”

Pop Rock

4 Abril 1997

DEPECHE MODE
Ultra (7)
Mute, distri. BMG


dm

Da onda “electropop” que assolou as Ilhas Britânicas nos anos 80, composta por grupos como os Human League, Tubeway Army, Berlin Blondes, Yazoo, Blancmange, Soft Cell, Depeche Mode e Orchestral Manoeuvres in the Dark, sobreviveram apenas os dois últimos, à custa de uma sucessão de reciclagens inteligentes, ainda que, nalguns casos, oportunistas.
Na prática, tanto os OMD como os Depeche Mode andaram, quase sempre, a reboque das diversas tendências da música de dança que foram emergindo ao longo da última década. Curiosamente, porém, assiste-se hoje a um revisionismo do “electropop”, revalorizando-se uma estética que, na primeira encruzilhada com que se deparou, na sua geração original, derivou para dois extremos que não poderiam ser mais divergentes: a pop sintética e plastificada para consumo adolescente e a música industrial, que por sua vez se desmultiplicou em vários movimentos.
Esta valorização está na base do retorno a algumas das premissas estéticas originais do movimento, por parte dos OMD e dos Depeche. Os primeiros recuperaram o seu lado mais espacial e psicadélico no álbum do ano passado, “Universal”, os Depeche Mode, neste seu novo trabalho, incorporando de forma perfeitamente coerente as melodias pop que sempre os caracterizaram, num formato heterogéneo que desloca subtilmente a rítmica do “trip hop” para os domínios mais adocicados do grupo.
No capítulo dos efeitos especiais, “Ultra” está saturado de pequenos e grandes achados, nomeadamente nas introduções dos 11 temas, onde David Gahan, Andrew Fletcher e Martin Gore ensaiam, com gozo óbvio, novas combinações da tecnologia computorizada com a estrutura da canção pop. Afirmado este gosto experimentalista – assumido sem rodeios no belíssimo e sombrio instrumental “Jazz thieves” –, que, de resto, nunca abandonou os Depeche Mode e, ainda hoje, mantém toda a sua premência em álbuns como “Construction Time Again” e “Black Celebration”, sínteses do “electropop” com o industrial, o trio desfaz-se em vacalizações de uma simplicidade desarmante.
Próximos da claustrofobia Trickyana no tema de abertura, “Barrel of a gun”, próximos do pós-rock em “The Bottom Line” (com a participação do baterista dos Can, Jaki Liebezeit) ou na descompressão, talvez excessiva, do último, “Insight”, um aceno aos Tears for Fears de “Shout”, os Depeche Mode alargam a sua mensagem de estetas divertidos que pretendem fazer drama, trocando o seu papel de bebés Kraftwerk pelo de adultos armados de ironia, adeptos do “glamour” eléctrico do final do século.



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