Julian Cope – “Interpreter”

Pop Rock

23 de Outubro de 1996
poprock

O homem que veio do espaço

JULIAN COPE
Interpreter (8)
Echo, import. Lojas Valentim de Carvalho


jc

“Venho de outro planeta, querida!” É o primeiro sinal enviado do espaço pelo alienígena Julian Cope, messias do novo psicadelismo. Cope rompeu os véus da terceira visão. Em estado de graça – ou de desgraça – em termos de vendas desde “Peggy Suicide”, de 1991, o ex-Teardrop Explodes continua a moldar a música pop à sua cosmovisão, por sua vez moldada pelo LSD e pelas mensagens enviadas pelos seus amiguinhos verdes.
Apesar de ser preciso subir muito até se encontrar a cabeça de Cope a pairar acima das nuvens, não quer dizer que o “acid head” esteja louco. Está é “alto” há uma quantidade de tempo. Mas já foi pior. Ele afirma que deixou de ingerir ácido há oito anos, preferindo actualmente os cogumelos e a erva. O homem que veio do espaço declara-se lúcido e contra as drogas psiquiátricas, para as quais o ideal de paraíso é o coma, e participa em manifestações ecológicas em defesa das árvores. Quando o “Krautrocksampler” – o seu compêndio pessoal da “Kosmisch muzik” alemã dos anos 70 – se transformou rapidamente num clássico de culto, tem já em preparação um novo livro, desta feita um guia, geográfico e psíquico, dos lugares sagrados da Inglaterra, cujo título será provavelmente “The Modern Aquarium”. “Interpreter” inclui uma amostra sob a forma de um “Mythological mind map of the Marlborough downs” desdobrável…
“Interpreter” é o testemunho de uma mente em estado de embriaguez criativa. Mais acessível do que os anteriores “Autogeddon” e “20 Mothers”, recorre a esquemas pop que vão da “bubblegum” e dos Velvet pouco “underground” à recuperação dos Teardrop e da Pop swingante de um Matt Johnson, em “Since I lost my head, it’s awl-right”. A luz negra do “krautrock” continua a brilhar com intensidade, por incidência directa ou por interposta pessoa, como em “Cheap new-age fix”, recriação do “kraut-synth-pop” dos Stereolab – presença teutónica que se faz sentir, ainda, através do martelo-pilão dos Neu!, ma manipulação minimalista e gulosa dos sintetizadores ARP e VCS3 analógicos ou das “private jokes” com títulos modificados de “krautrockers” (“I´ve got my TV & my pills” e “Planetary sit-in” são alusões, respectivamente, a “I’ve got my car & my TV”, dos Faust, e “Planeten sit-in” dos Cosmic Jokers). “S.p.a.c.e.r.o.c.k. with me” funde a ópera espacial de “Startrek” com o “easy-listening” do século XXI, alimentando a propulsão pelos Amon Düül II e Hawkwind. Em “Maid of constant sorrow”, os extraterrestres apoderam-se do microfone para declararem o seu “Independence day”.
O fogo de Kundalini (energia sexual transmutada em energia mental, na iniciação tântrica) continua a subir pela espinha de Julian Cope até ao “chakra” (centro nervoso do corpo astral) superior da nuca, como se vê pela imagem da contracapa desta alucinada caixinha… Resta saber até quando conseguirá ele manejar as suas labaredas sem se queimar. Para já, o cérebro fugiu num foguetão.



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