Clouds – Scrapbook / Watercolour Days

03.03.2000
Reedições
Gargalhadas de Gorila no Verão do Amor
Para os arqueólogos da pop mais empenhados na descoberta de pérolas esquecidas, eis alguns exemplares interessantes desenterrados dos anos 60.

Vivian Stanshall (já falecido, foi, com o outro grande Bonzo, Neil Innes, ocasional colaborador musical em “sketches” dos Monthy Phyton, onde, entre outros temas, interpretaram o clássico “I’m the urban spaceman”) era o “compère” inspirado dos Bonzo Dog Doo Dah Band, uma das genuínas bandas humorísticas dos anos 60, juntamente com os Liverpool Scene (mais politizados) e os próprios Monthy Phyton. Começaram por chamar-se Bonzo Dog Dada Band, mas viram-se forçados a mudar o nome devido ao tempo que perdiam a explicar às pessoas o significado de “dada” e podem ser vistos no filme “Magical Mystery Tour” dos Beatles. No álbum de estreia do grupo (1967), “Gorilla”, dedicado a Kink Kong, Viv gasta a totalidade de “The intro and the outro” numa apresentação exaustiva e hilariante dos nove elementos da banda. Seria convidado por Mike Oldfield para repetir a graça, na célebre sequência de apresentação dos instrumentos de “Tubular Bells”. Sátira, por vezes desbragada, a vários estilos de música, da pop psicadélica ao jazz (“Jazz”, delicious hot, disgusting cold”, assim mesmo, sem advérbios), “Gorilla” termina com uma versão demencial de “Sound of music”, em golpes de desafinação e boçalidade capazes de fazerem Julie Andrews fugir pelos Alpes abaixo. Edição remasterizada (BGO, distri. Megamúsica, 8/10).

clouds

LINK (Scrapbook)

Violentos, bastante violentos, eram os High Tide, um quarteto liderado pela guitarra abrasiva de Tony Hill e pelo violino electrificado de Simon House, músico que mais tarde se destacaria nos Hawkwind, como acompanhante de David Bowie e nos Third Ear Band (na banda sonora de “MacBeth”, de Roman Polanski). “Sea Shanties” (1969), álbum de estreia do grupo, é um magma massacrante de hard rock ou uma viagem de ácido marado, consoante a predisposição do ouvinte. Para os fanáticos da guitarra eléctrica em estado de combustão permanente é um opíparo convite à surdez. Uma canção, “Pushed, but not forgotten”, destaca-se pelo tipo de vocalização “fora do lugar” dos Egg. Pena o som não ser o melhor (Repertorie, distri. Megamúsica, 6/10).

“S. F. Sorrow” (1968), dos Pretty Things, é considerado um dos primeiros álbuns conceptuais da pop inglesa que, inclusive, terá servido como modelo de inspiração a Pete Townshend, dos The Who, para escrever a ópera-rock “Tommy”. Provenientes da cena do rhythm ‘n’ blues britânico 8cadinho do qual nasceram inúmeras bandas progressivas, com destaque para os Jethro Tull), os Pretty Things evoluíram neste seu quarto álbum para uma pop requintada construída a partir de canções com arranjos complexos e sofisticados efeitos de estúdio que tanto evocam os Beatles, de “Revolver” (“She Says Good Morning” passaria perfeitamente, para os mais desatentos, por uma composição de Lennon-McCartney, até as vozes são iguais…), como antecipam em mais de dez anos a sonoplastia dramática dos Pink Floyd, em “The Wall”. E se “Private Sorrow”, por seu lado, recorda os Jethro Tull, o conjunto total das canções é suficientemente variado e inspirado para justificar a inclusão de “S. F. Sorrow” no grupo dos álbuns injustamente menosprezados dos anos 60. Versão remasterizada (Snapper Music, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).

Share and Enjoy !