Richard Thompson – “Me? You? Us?”

Pop Rock

1 de Maio de 1996
poprock

Ricardo coração de prião

RICHARD THOMPSON
Me? You? Us? (8)
2XCD Capitol, distri. EMI-VC


rt

O coração de Richard Thompson é um coração infectado por um amor louco. “Me? You? Us?” é o “Kama-Sutra” das relações fracassadas. Apaixonar-se é entrar num beco e perder-se no abismo da solidão e do desencanto. Richard Thompson é assim, sempre foi, mas notou-se mais a partir do momentos em que abandonou os Fairport Convention e passou a conviver regularmente com as vanguardas, como nomes como Fred Frith ou os Pere Ubu. Mas foi na companhia da sua ex-mulher, Linda Thompson, que gravou um dos álbuns mais magoados de sempre da pop britânica, “I Want to See the Bright Lights Tonight”. “Me? You? Us?” é o seu melhor álbum a solo de sempre, desde a estreia “Henry the Human Fly” e o instrumental “In Strict Tempo”. Isto porque, ao contrário de obras recentes, o guitarrista e cantor não deixou desta vez que a neblina que eternamente cobre o seu rosto se reflectisse no tom monocórdico que caracterizava, por exemplo, o anterior “Mirror Blue”. É um álbum desesperado, como sempre, mas colorido por uma postura estética diversificada, como se Thompson tivesse finalmente conseguido a distância necessária para observar, sem neles se enredar, os mecanismos da dor e do desencontro. Há uma ironia mais cruel do que nunca, desde logo presente no tema de abertura, “Razor dance”, o amor (ou as suas ruínas) como instrumento de tortura, bem como no grafismo da contracapa, onde a face esfolada do artista revela, num dos lados, um mecanismo de relojoaria e, no outro, os “músculos da expressão”. Dividido em dois compactos, um eléctrico, de genérico “Voltage Enhanced”, outro “unplugged”, “Nude” – guitarra acústica, voz e pouco mais -, “Me? You? Us?” dispara à queima-roupa no primeiro e sofre em silêncio no segundo. “Voltage Enhanced” encerra, no meio de versos saturados de veneno e do sarcasmo mais mortífero, alguns dos melhores solos de guitarra de sempre da Thompson, da lamentação de “Put it there pal”, com a mesma força trágica de “Meurglys III”, um tema de Peter Hammill com os Van Der Graaf Generator, de “World Record”, à fúria contida de “Business on you”. Um álbum cuja escuridão não impede o entusiasmo da escuta, de onde se destacam ainda o “rock’n’roll cajun” de “Am I wasting my love on you?”, a solidão cósmica de “Bank vault in heaven” e o “flash-back” em forma de cicatriz do tema final “The ghost of you walks”.
No segundo disco, “Nude”, Thompson entra para o mesmo clube de Tim Buckley e Nick Drake, dos que cantam em surdina o sofrimento e os azares da vida, uma mudança de registo que reduz um pouco a variedade emocional e o impacte dramático do primeiro disco. As facas, os espelhos quebrados e os frascos de veneno permanecem, só que agora encerrados num invólucro de secura. Na forma de um despojamento sem margens onde as únicas cores vêm de uma sanfona que chora ao longe em “Sam Jones”, do violino e violoncelo que animam a longa despedida, “Woods of darney” e, sobretudo, de “Cold kisses”, onde o saudosismo folk brilha com a mesma luz gelada das estrelas de Scott Walker, em “Tilt”. À imagem de “Me? You? Us?”, no seu todo, um álbum cuja grandeza se equivale à dimensão do seu desespero.



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