XTC – Entrevista: “The XTC Files”

Pop Rock

2 de Outubro de 1996

Colin Moulding fala da nova colectânea do grupo

“THE XTC FILES”

São os “singles”, alinhados por ordem cronológica, de “Fossil Fuel, The XTC singles, 1977-92”, como poderiam ser outras gemas entranhadas na extensa galeria Pop, a um tempo límpida e complexa, dos XTC, descendentes excêntricos dos Beatles e dos Kinks, artesãos para quem construir três minutos de canção é uma tarefa sagrada.


Photo copyright Peter Ross 2007 www.heypeterross.com 212 353 3775

Photo copyright Peter Ross 2007
www.heypeterross.com
212 353 3775


Um fóssil, uma amobite em relevo na tampa do compacto, faz de sinal e de escudo, na despedida dos XTC da Virgin, editora onde gravaram a maior parte da sua discografia. “Fossil Fuel,the XTC singles, 1977-92”, um entre os vários “o melhor de” possíveis dos XTC, chama a atenção para o que já deveria ser uma evidência: os XTC são a melhor banda pop inglesa. E a mais clássica. E a mais incompreendida. Colin Moulding, baixista e compositor do grupo, em entrevista ao PÚBLICO, defendeu a sua dama.
PÚBLICO – Faz quatro anos que saiu “Nonsuch”. “Fossil Fuel” é uma tentativa de manter vivo, na memória, o nome do grupo?
COLIN MOULDING – O que se passa é que estamos prestes a acabar com a nossa velha companhia, a EMI-Virgin. O contrato especificava que podiam editar uma colectânea quando saíssemos.
P. – Já há planos para um álbum novo de estúdio?
R. – Sim, mas não queremos gravar mais nenhum disco na Virgin. De momento, estamos à procura de uma nova editora. Logo que assinemos um novo contrato, vamos começar a gravar. O que provavelmente acontecerá na Primavera do próximo ano. Para já, não temos a editora, nem sequer um título, mas decerto que já temos as canções.
P. – O que fizeram neste intervalo de quatro anos? Tem sido um longo silêncio, não?
R. – De facto, mas não inteiramente por nossa culpa. Houve problemas legais que não conseguimos resolver e que escaparam ao nosso controlo. Mas, individualmente, trabalhámos em sessões e em duas ou três produções. Eu trabalhei com uma banda francesa, L’Affair Lois Trio, Dave Gregory trabalhou com Mark Owen, dos Take That, e Andy Partridge produziu o álbum de Martin Newell [“The Greatest Living Englishman”], Além disso, foi editado, na América, um álbum em nossa homenagem, com Joe Jackson e Sarah McLaughlan, entre outros artistas.
P. – Quer dizer que os XTC já são história?…
R. – Espero bem que não! O novo álbum mostrará uma mudança radical no nosso estilo que irá surpreender as pessoas.
P. – Pensa que o melhor dos XTC está verdadeiramente nos “singles”?
R. – Talvez não. Não é bem um “best of” mas apenas uma colecção de “singles”, que são aquilo que o público em geral gosta mais de ouvir. De facto, não é o nosso melhor material…
P. – A maior parte da crítica musical, em que não nos incluímos, desvalorizou álbuns como “English Settlement” ou “Mummer”, ou seja, a fase posterior ao período inicial “new wave” do grupo. A revista “Q” classificou mesmo esses trabalhos como “irritantes” e “sem verdadeiras canções”. Esse tipo de apreciações não o incomodaram?
R. – É aborrecido, sim, mas o que é preciso ter em mente é a maneira como a banda evoluiu ao longo do tempo. Em geral, as pessoas que gostam dos nossos primeiros álbuns não gostam dos posteriores e vice-versa. Perdem-se fãs e ganham-se outros.
P. – Mas não será, também, porque a música do grupo, sobretudo a partir de “Black Sea”, se tornou mais difícil, não se deixando “apanhar” às primeiras audições?
R. – Sim, mas a melhor música deveria ser sempre assim, não é verdade? Ter que se ouvir uma série de vezes para ser apreciada em pleno. Não consigo imaginar o grupo a fazer outra vez um álbum como “White Music. Fizemos esses discos quando tínhamos vinte e poucos anos. Vinte anos depois, não é mais possível fazer discos assim, se quisermos continuar a ser nós próprios.
P. – Qual é, para si, o melhor álbum do grupo?
R. – Escolheria todo o período compreendido entre “Black Sea” e “Skylarking” [que abrange os menosprezados “English Settlement” e “Mummer”, duas peças fulcrais na obra do grupo].

Frutos do psicadelismo

P. – Os Talking Heads, relativamente à primeira fase, e os Beatles e os Kinks sempre foram citados como influências. Concorda?
R. – Os Talking Heads não! Se reparar, “White Music” tem mais a ver com banda desenhada de ficção científica. Os Beatles, sim, mais tarde, sobretudo em “Black Sea”. Assim como há várias canções nossas onde se sente a influência de Ray Davies e dos Kinks, como “The everyday story of small-town”, de “The Big Express”, ou “Respectable Street”, de “Black Sea”.
P. – Como em Ray Davies e nos Kinks, a música dos XTC caracteriza-se por uma acentuada “Englishness”. É um aspecto trabalhado ou uma inclinação natural?
R. – Essa característica existia, sim, mas tenho que reconhecer que, no último par de álbuns, o som se tornou mais “americano”, sobretudo em “Oranges and Lemons”. Essa foi, aliás, uma das críticas que as tais revistas, como a “Q”, nos fizeram. Mas sabe como é, recebe-se influências de todo o lado…
P. – “Oranges and Lemons” foi igualmente conotado com o revivalismo do psicadelismo…
R. – Foi como que um derradeiro vestígio do projecto The Dukes of Stratosphear, que era uma “pastiche” das bandas psicadélicas.
P. – Qual é o papel desempenhado nos XTC por cada um dos elementos do grupo? São todos tão excêntricos como Andy Partridge aparenta?
R. – O que posso dizer é que, quando nos juntamos os três, damos origem a uma espécie de híbrido muito estranho. Pessoalmente, vejo-me mais como simples baixista do que como compositor.
P. – Andy Partridge descreveu-se uma vez, a propósito da sua atitude no estúdio, como um cruzamento de Walt Disney com Benito Mussolini, um ditador benevolente. É mesmo assim?
R. – [risos] Não estou a ver a ligação com Walt Disney… Eu diria antes o cruzamento de Benito Mussolini com o seu amigo Adolfo…
P. – Dave Mattacks toca bateria em “Nonsuch”. Entrou em definitivo para o grupo ou preferem trabalhar sempre com bateristas convidados?
R. – Dave é um excelente baterista e gostaria que ele participasse no próximo álbum, mas não nos podemos dar a esse luxo. Penso que ele não gostaria de pertencer ao grupo, numa base permanente, está sempre ocupado com outros projectos.
P. – Quem teve a ideia de pôr o relevo com o fóssil da amobite a enfeitar a caixa do compacto?
R. – Foi Andy Partridge. Algum do material do disco é tão velho que quase se fossilizou – uma relação de fósseis. Basicamente, é o mesmo conceito de “Relics”, dos Pink Floyd.

Share and Enjoy !

0Shares
0 0 0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.