Três Tristes Tigres – “Guia Espiritual”

Pop Rock

3 de Abril de 1996
Álbuns portugueses

Alma ecrã

TRÊS TRISTES TIGRES
Guia Espiritual

EMI, ed. EMI – VC


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“Partes Sensíveis”, o álbum de estreia destes Tigres de caninos afiados, chamava atenção para as palavras, para os seus duplos sentidos, os seus ritmos, o seu poder de sugestão. O salto dado com “Guia Espiritual” faz perder de vista esta perspectiva. Trata-se agora, antes de mais, de uma operação sobre um conceito global de som. A esta deslocação do ponto de focagem correspondeu obviamente uma transferência de poderes no seio do grupo. Regina Guimarães, autora de todos os textos das “Partes”, recuou para a sombra, entrando para a boca de cena Alexandre Soares, que, no primeiro álbum, se limitara a cumprir a sua função de guitarrista. Em “Guia Espiritual”, o ex-GNR cria uma paleta sonora que, sendo sua, deriva de uma leitura selectiva de concepções – sobretudo, ao nível da construção – que remontam aos anos 70 e 80, para desaguar numa síntese de modernidade em que as noções de composição e produção se confundem. A aproximação literária, até certo ponto humanista, de “Partes Sensíveis” (muito se referiu, a propósito deste, o seu lado cabarético, abrigo de uma humanidade no limite do teatral, logo, do virtual) deu lugar a um outro espaço em que as palavras de Ana Deus se diluem numa paisagem complexa de memórias e reconversões musicais. A passagem, de um para o outro disco, tem lógica. O “novo realismo” que Alexandre Soares enuncia (ver artigo no Poprock da semana passada), construído sobre imagens, alucinações – um filme, enfim, ou filmes – não faz, afinal, mais do que elevar a estética dos Três Tristes Tigres do patamar da história temporal dos homens para a intemporalidade (o tempo cinematográfico) de algo mais difuso, em que o imagético se sobrepõe ao poético. É nessa justa medida que a música de “Guia Espiritual” se abre numa caleidoscópio de ecos, fragmentos e discursos, cujo efeito mais consistente (e perturbante) é a hipnose, a diluição da escuta num som que preza tanto a arquitectura como a sua própria textura. Se os Can, e a escola alemã dos anos 70, em geral, estão presentes, em temas como “Ruído rosa” ou “Kindergarten” e “Missão impossível” se aproxima descaradamente da Suzanne Veja de “99,9 F”, o que releva no subconsciente, após a imersão auditiva, é uma espécie de flutuação num largo sem margens, onde a espiritualidade de que fala o título se afirma como o derradeiro dos enganos ou das armadilhas. A imagem da capa, uma mancha negra rodeada de “vida artificial”, ilustra de forma exemplar um disco que dá a imagem fenoménica dos anos 90. Em Portugal ou qualquer outra parte do mundo dito civilizado. Fotografia “kirlian” de um corpo que já não existe ou se perdeu. Fala da mutação física, do “Anormal” (um dos títulos do guia) tornado normal. E da alma, transmutada num ecrã. (8)



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