Dervish – “Playing with Fire”

Pop Rock

4 de Outubro de 1995
Álbuns world

Brincar com o fogo sem se queimar

DERVISH
Playing with Fire
(9)
Whirling Discs, distri. MC – Mundo da Canção


drv

Em apenas três álbuns – “Boys of Sligo”, a estreia, já disponível entre nós, “Harmony Hill”, e agora este jogo com o fogo, “Playing with Fire” – os Dervish tomaram a dianteira, a milhas de distância dos debutantes que, às centenas, vão procurando um lugar ao sol (tarefa nada fácil nesta ilha banhada pela bruma…) na “irish traditional music”.
“Playing with Fire” é o prolongamento lógico do seu magnífico antecessor. Sem concessões de qualquer espécie, uma energia transbordante, embora domesticada, e a noção exacta do ponto de equilíbrio entre as normas que é preciso respeitar e a criatividade no manejo e desenvolvimento dessas mesmas normas. Mas será que não é um estado artificial, impossível de reproduzir nas condições, menos susceptíveis de manipulação, das actuações ao vivo? A resposta a esta dúvida, já a sabem todos quantos tiveram a felicidade de assistir ao memorável concerto dado pela banda há dois anos no Intercéltico.
Os Dervish dominam como poucos as técnicas instrumentais, não cedendo nunca a atirar foguetes ou a acender os fogos-de-artifício do exibicionismo. A música tradicional irlandesa, os seus modos e estilos exigem do intérprete uma entrega total, até da sua alma. Não basta ser tecnicamente apto; é preciso aprender por dentro a viver e a sentir séculos de passado que se ligam com o presente nas espirais da eternidade. Por isso é tarefa árdua, quase sobrenatural, para o músico “estrangeiro” tocar da mesma maneira que o músico irlandês, por melhores que sejam as suas aptidões como instrumentista. Há um ritmo e um balanço específicos. O seu domínio é o domínio do fogo. A arte de controlar as chamas, de esculpir a sua intensidade e as suas formas. Numa fase mais adiantada, de saber dançar com e sobre elas. Só então os deuses, se assim o entenderem, dão autorização para brincar com o fogo a um número reduzido de eleitos.
Impressiona o percurso e a aprendizagem intensiva dos Dervish nos últimos anos. O “fiddle” (não soa muito bem dizer “rabeca”, pois não?), de Shane McAleer e a flauta de Liam Kelly já eliminaram todos, ou quase todos, os obstáculos que impedem que a música do espírito coincida em absoluto com a do corpo e do instrumento – a ferramenta. Apenas lhes faltará a sublime e derradeira etapa, de tocar (em solo) devagar e baixinho, ouvidos interiores atentos a um marulhar ainda mais longínquo e profundo, de lágrimas vertidas pela velha Irlanda.
Cathy Jordan – faltava falar dela, definitivamente a sucessora de Triona Ni Dhomnaill, dos Bothy Band, e de Dolores Keane, nos seus tempos áureos com os De Danann e o seu marido, John Faulkner – já aí chegou. Emocionem-se, como eu me emocionei, a ouvi-la cantar a saudade (os irlandeses decerto que a sentem, como nós) que nasce no mar e morre no mar, respectivamente em “Molly and John” e “Willie Lennox”. Ela é a água que tempera o fogo dos seus companheiros mais novos. Os deuses deixam-na brincar.



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