Pete Namlook – “VI” + “VII” + “VIII & IX” + “Syn” + Vários – “The Ambient Cookbook”

Pop Rock

19 de Julho de 1995
Álbuns poprock

Fax para o espaço

PETE NAMLOOK
VI (8)
VII (6)
VIII & IX (2xcd) (6)
X (8)
Syn (2xcd) (9)

VÁRIOS
The Ambient Cookbook (4xcd) (8)

Fax+49-69/450464, distri. Symbiose


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Regra de ouro para a editora e para o seu patrão, Pete Namlook, é a eleição dos sintetizadores analógicos. Nada se compara, em calor e na corporalidade do som, ao velho filtro VCF de um “Moog synthetizer”. A esta conclusão chegaram Pete Namlook e outros manipuladores de arsenal electrónico, que cada vez mais deixam de lado os frigoríficos digitais para redescobrirem as virtudes musicais do Moog, dos A. R. P. 2600 e “Pró soloist” ou do VCS#, máquinas fabulosas que começaram a ser exploradas ainda nos anos 60, ganharam estatuto de realeza na década seguinte, para finalmente serem deitadas ao baú das antiguidades, com a explosão do movimento “punk”.
Pete Namlook é o Klaus Schulze dos anos 90. Não só pelo espírito com que aborda a música electrónica como pelo modo como orienta toda a estética da sua editora, bizarramente denominada com o número real do seu fax. Em cada um dos seus discos manifesta-se o prazer do contacto directo e da manipulação em tempo real dos timbres dos sintetizadores, exactamente da mesma maneira que Schulze, quando se entregava às suas divagações planantes, no estúdio ou ao vivo numa catedral.
Ao contrário do “sampler” e restante tecnologia digital (não totalmente posta de lado por Pete Namlook, convém esclarecer), que pede ao compositor uma mentalidade analítica e aconselha à distanciação, o analógico permite uma maior intervenção da intuição do momento, determinando, por outro lado, uma noção mais alargada do tempo (manuseamento de botões, troca de cabos, pesquisa lúdica de novas combinações de filtros e ondas sonoras) real ou psicológico da interpretação. Namlook gravou, de resto, na sua editora, uma obra que é todo um manifesto de intenções, “The Dark Side of the Moog”, com Klaus Schulze, precisamente.
Namlook é um músico prolífero, já com um número razoável de títulos no mercado, desde o projecto de etno ambiental, em dois volumes, “Air”, a parcerias com Bill Laswell, em “Psychonavigation”, ou Jonah Sharp, no electrizante “Wechselspannung”. Os discos aqui em análise datam todos do ano passado e, à excepção de “Syn”, foram gravados ao vivo, em vários festivais de música electrónica, com o intervalo de um mês. Exceptuando “Syn”, em todos eles a música foi “criada intuitivamente no próprio momento da interpretação, sem qualquer conceito prévio”, como se pode ler nos respectivos folhetos.
Existe, no início, apenas o silêncio, antes da descoberta, em cada instante, do fluxo musical, organizado à maneira de um arquitecto que, obra a obra, plano a plano, persegue um modelo de perfeição. O espantoso é a organização e organicidade destas peças, isentas de falhas técnicas e com uma unidade formal que pareceria difícil dentro dos parâmetros de uma gravação ao vivo. Umas são mais inspiradas do que outras, como é evidente, mas todas elas, se mais não tivessem para oferecer, permitem pelo menos o gozo de saborear o som pelo som e revelação do acto criativo que brota espontaneamente da dança interminável do homem com a máquina.
O volume VI de um trabalho que o seu autor design simplesmente por “Namlook” – embora dividido por diversos CD – coloca em evidência a beleza dos timbres, em mutação constante, enquanto o volume X se desmultiplica na sobreposição dervíshica dos sequenciadores de ritmo. Menos recheados de ideias, os volumes VII e o duplo VIII e IX contêm todavia motivos de interesse: a utilização de frequências sub-harmónicas (semelhantes às produzidas pelos pássaros…), em “VII”, ou a utilização inusitada de gravações de vozes étnicas como elementos rítmicos, em “IX”.
“Syn” divide-se em duas vertentes distintas. No primeiro disco, composições abstractas, como “Jugoslavia” e “TAT ‘93”, alternam com alucinantes exercícios de tecno humanizado que apetece ouvir com o volume no máximo. O segundo compacto oferece uma única composição de 55m, “The flight”, obra-prima absoluta do ambientalismo, uma viagem astral pelos espaços nocturnos, verdadeira “trip” em todos os sentidos…
Todos estes discos, de novo com “Syn” a ser a excepção, têm apenas uma composição, indexada em segmentos de cinco minutos, de modo a permitir ao ouvinte pesquisar no seu interior. Os títulos recuperam a corrente cósmica dos anos 70: “Monolith”, “The caves of Cubik”, “Subharmonic Interference”, “The gate to the milky way”…
Para quem pretenda uma visão global do que se passa nas cabeças de quem faz música na Fax, aconselha-se a audição da colectânea “The Ambient Cookbook” – um livro de receitas (o folheto, um tratado de ironia de múltiplas leituras, ensina mesmo a cozinhá-las…) -, sonho electrónico para os fãs do analógico, elaborado, entre outros, por Robert Musso, Dr. Atmo, Jonah Sharp e Tetsu Inuoe, além da presença tentacular do próprio Namlook, a solo, ou em colaborações com outros artistas da editora. Além de que o preço, por vontade expressa de Namlook, é inversamente proporcional às gigantescas dimensões dos temas. Na Fax, todos se gerem por princípios e regras físicas diferentes dos habituais. Quem quiser saber mais, basta enviar um fax…



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