Marianne Faithfull – “A Secret Life”

Pop Rock

12 de Abril de 1995
álbuns poprock

Cheia de fé

MARIANNE FAITHFULL
A Secret Life (7)

Island, distri. Polygram


MF

Laura Mars trocou de lugar com Marianne Faithfull. A combinação da música de Ângelo Badalamenti, autor da banda sonora de “Twin Peaks”, de David Lynch, com a visão trágica da antiga protegida de Mick Jagger parece, à partida, apropriada. Escrito ao mesmo tempo que o livro “Faithfull: An Autobiography” e em paralelo com o lançamento da colectânea “Faithfull: A Colletion of Her Best Recordings”, o novo álbum pode ser encarado como uma espécie de complemento da autobiografia, desvendando alguns recantos secretos no processo de autodescoberta que desde “Broken English” coincide com a discografia da cantora. Badalamenti, que Marianne define como “alguém com uma atitude positiva em relação à vida”, tem por seu lado a capacidade de transformar em veludo os abismos da alma humana. Mas Marianne Faithfull não +e a boneca Julee Cruise, o que torna neste caso inviável qualquer tipo de manipulação e faz com que as orquestrações e os arranjos – da autoria do compositor – soem em certas ocasiões demasiado ligeiros. “A Secret Life” não aborda de forma directa o “drama”, ainda utilizando as palavras da cantora, familiares para o público.
Não se trata de mais uma descida aos infernos, mas de um disco onde as diversas temáticas, por mais escuras que sejam, são observadas pelo prisma da fé e da esperança. A diferença de registo poderá parecer chocante a um público que se habituou a ver em Marianne Faithfull a artista “naufragada em culpa e angústia, num grande sofrimento”, sobretudo se tiver ainda vivas as recordações de um álbum em carne viva como “Strange Weather”. Mas os ritmos electropop de “Love in the afternoon”, dançáveis em “Bored by dreams” e “Wedding” não afligirão tanto se nos lembrarmos que a quase totalidade de “Broken English” foi construída sobre uma base de pop electrónica. Assim, a junção do negro das palavras com a maior leveza dos sons não é virgem e, muito menos, inocente, considerando que Badalamenti não terá assim tanto a personalidade “solar” que Faithfull lhe atribui.
Um “Prologue” e “Epilogue” em tons épico-orquestrais e canções como “Sleep”, “She” e “The stars line up” conferem à música uma dimensão espacial de outro tipo, mais ampla, abrindo as cortinas para um céu estrelado sob o qual o pessimismo se deixa esbater em nocturno apaziguamento. Arquivar entre “The Love Songs”, de Peter Hammill, e os discos recentes de Leonard Cohen.



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