King Crimson – “Thrak”

Pop Rock

29 de Março de 1995
álbuns poprock

EIS O HOMEM ESQUIZÓIDE DO SÉCULO XXI

KING CRIMSON
Thrak (8)

Virgin, distri. EMI-VC


kc

Regresso em grande, este do “dinossauro” Robert Fripp, um dos grandes inovadores da guitarra eléctrica no rock, correspondente à quarta encarnação dos King Crimson. Expliquemos: os King Crimson tiveram uma primeira vida que durou desde a estreia de “In the Court of the Crimson King” (1969) até “Earthbound”, registo ao vivo de 1973. A segunda teve início ainda no mesmo ano, com “Lark’s Tongues in Aspic”, prosseguiu no ano seguinte com “Starless and Bible Black” e “Red”, terminando em 1975 com novo disco ao vivo, “U. S. A.”, gravado nos Estados Unidos, tal como “Earthbound”. Os King Crimson regressaram nos anos 80 com o tríptico “Discipline”, “Beat” e “Three of a Perfect Pair”. Depois de vários projectos a solo nos quais Fripp pôde explanar as suas teorias musicais e sociológicas, com graus variados de sucesso, este novo álbum da banda surge um pouco como uma surpresa, embora venha antecedido pelo mini-álbum “VROOOM”. Acompanham-no três elementos de formações anteriores, o guitarrista Adrian Belew, o baixista Tony levin, o baterista Bill Bruford, aos quais se juntaram Trey Gunn (no “Chapman stick” – algo como um computador de guitarra -, que esteve presente no último projecto de Fripp, um quinteto de cordas, com o álbum “The Bridge Between”) e o recém-chegado Pat Mastelotto, como segundo baterista. Os primeiros sons de “Thrak”, no tema de abertura, “VROOOM”, dão o tom geral, uma revitalização do passado, aqui num classicismo reminiscente de “Islands” e “Lark’s Tongues in Aspic”. Logo cortado pela entrada triunfal do velho “mellotron” e da guitarra, em altíssima forma, do mestre, ao nível dos grandes épicos da fase “Lark’s Tongues”, “Starless” e “Red”. Ou seja, os King Crimson retomaram a tradição e com ela fizeram um álbum com a solidez dos antigos, ao mesmo tempo que empreenderam a sua potencialização. “Dinosaur”, título irónico, insere-se na característica tradição crimoniana das baladas, por vezes duras, neste caso com uma vocalização de Adrian Belew a fazer lembrar de forma insólita John Lennon. “Walking on air”, outra balada, pelo contrário, é anos 70 sem tirar nem pôr, numa autocitação onde nem sequer faltam as “frippertronics” e o “mellotron” orquestral de álbuns como “In the Wake of Poseidon” e “Lizard”. “B’ boom”, tribal e corrosivo, com um solo das duas baterias pelo meio (há quanto não se ouviam discos com solos de bateria?!…), deita para o lixo coisas como os Transglobal Underground e deveria merecer uma olhadela de Bill Laswell. No título-tema, a guitarra explode toda a sua raiva, num registo bem próximo de “Red”. “Inner garden”, separada em duas versões, é mais uma balada, desta feita com guitarra acústica, nostálgica até às lágrimas; e “People”, com nova vocalização de Belew, está na linha das canções da década de 80 do grupo, aqui com uma marcação rítmica semelhante à dos Talking Heads. “Radio I” e “Radio II” são pequenos apontamentos electrónicos ao serviço das entidades luciferinas e possivelmente uma citação a um grande filme ignorado dos anos 80, “Radio on”, de Christopher Petit, para o qual Fripp compôs parte da banda sonora. Já agora, vale a pena ver o ouvir outro filme que conta com a participação, na banda sonora, do guitarrista, este emblemático do cinema “underground” nova-iorquino, “Subway Riders”, em português “Os Viajantes da Noite”, com a assinatura de Amos Poe. “One time” é das poucas canções inconsequentes de “Thrak”, na sua progressão inexorável mas um pouco a metro. Nova revisitação ao passado, em “Sex sleep eat drink dream”, guitarra desvairada sobreposta ao “mellotron” e vocalização rouca, que, quem se lembrar, associará de imediato a “Cat food”, um tema de “In the Wake of Poseidon”. “Thrak” fecha com mais duas versões do enigmático “VROOOM”. A segunda, uma coda, intitulada “VROOOM VROOOM”. Uma das imagens da capa mostra um automóvel, símbolo do homem esquizóide dos tempos modernos: velocidade e mecânica. Em ambas, Fripp volta a manipular na guitarra aquela dinâmica de tensões que faz dele um autêntico mestre do Tantrismo aplicado à arte musical. À beira dos anos 90, os King Crimson olham para trás. Como que a avisar-nos de que o “21st century schizoid man” aí está.



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