Laurie Anderson – “The Ugly One with the Jewels and Other Stories”

Pop Rock

22 de Março de 1995
álbuns poprock

HISTÓRIAS PARA ACORDAR

LAURIE ANDERSON
The Ugly One with the Jewels and Other Stories (7)

Warner Bros., distri. Warner Music


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A palavra está no cerne de toda a obra desta cantora, instrumentista e “performer” nova-iorquina de quem acabou de ser lançado há alguns meses o álbum “Bright Red”. O registo discográfico agora editado reúne uma colecção de histórias, contidas no livro da sua autoria, “Stories from the Nerve Bible”, declamadas num espectáculo ao vivo no Sadler’s Wells Theatre, em Londres. A sós (ou quase, se levarmos em conta a presença, nalguns temas, de músicos como Brian Eno, Cyro Baptista e Joey Jaron) com as suas máquinas e a sua visão – entre a alucinação filosófica e uma análise irónica da América e do mundo -, Laurie Anderson procede aqui a uma operação arriscada, sobretudo em disco, do qual se sai a contento. Com um mínimo de meios (teclados, máquina de efeitos digitais, violino e mesa de mistura), a artista consegue prender as atenções do princípio ao fim, criando uma espécie de hipnose onde o som da sua voz – não poucas vezes filtrada por dispositivos electrónicos – se alia ao ritmo das próprias narrativas. Qualquer destes dezoito “argumentos” escritos para um filme interior (um “mental movie”, como a autora define este trabalho), no qual a fantasia se confunde com episódios reais vividos pela artista, é acompanhado por música elaborada no próprio momento, o que não chega para fazer deles canções. Embora Laurie Anderson refira aqui a existência de “songs”, sem especificar quais.
A viagem pelas palavras começa com a explicação de alguns motivos e métodos utilizados. A “nerve bible” é o corpo, que assim se conta a si próprio, num “auto-retrato naturalista”, pela voz de alguns dos seus órgãos. “The Ugly Man” é um organismo cujas funções se estruturam em torno de meridianos geográficos e temporais variados. No início de cada história, especifica-se quase sempre um lugar e uma data particulares, culminando no último tema com uma dissertação poética sobre o tempo. O humor está sempre presente, desde as entoações vocais (incluindo a já célebre clonagem de uma voz masculina, neste caso num contexto delirante, digno de uma situação dos Monty Python…) até à enunciação de conceitos como “os terroristas são os únicos artistas de facto que restam, já que são eles os únicos que ainda conseguem surpreender…”, ou uma teoria sobre um misterioso ente “J”, supostamente autor de algumas passagens do Antigo Testamento e de certeza uma mulher, já que Deus é apresentado como “patriarcal, tirano e inconsistente”, ou seja, de uma forma só possível de encontrar numa mulher ao escrever sobre um homem. Laurie Anderson descobriu o ponto “g” do cérebro.



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