Sérgio Godinho – “Noites Passadas”

Pop Rock

29 de Novembro de 1995
Álbuns portugueses

CADA CANÇÃO É OUTRA CANÇÃO

SÉRGIO GODINHO
Noites Passadas (8)

EMI, distri. EMI-VC


sg

“Noites Passadas” começa por ser um divertimento com o título. Noites do passado, noites que passam, talvez até noites loucas. Noites bem passadas, as que Sérgio Godinho passou a tocar e a cantar, a 26 e 27 de Novembro de 1993, no Teatro São Luiz, e a 25 do mesmo mês, mas do ano seguinte, no Coliseu de Lisboa. Espectáculos memoráveis, agora recuperados em compacto. “Noites Passadas”, como já acontecera com “Escritor de Canções”, responde a uma necessidade do compositor de transformar, experimentar os limites de cada canção.
Cada tema é um espelho onde Sérgio Godinho se confronta com o passado e, ao mesmo tempo, um trampolim do tempo, uma garantia de estar a palmilhar o caminho certo. O autor de “Os Sobreviventes” tem conseguido sobreviver a si próprio, à saturação e ao cansaço, graças a esta recusa em parar numa época, por mais dourada que esta se revele. “Misticismos agora à parte/ envelhecer é uma arte/ ‘arte-nova’, ‘arte final’/ numa luta desigual”, canta Sérgio Godinho em “O elixir da eterna juventude”. Acompanhar nota a nota, letra a letra, estas “Noites Passadas” é acompanhar um percurso interior partilhado com o público. É seguir com prazer as metamorfoses de canções antigas, como “A noite passada”, “O primeiro dia”, “Com um brilhozinho nos olhos”, “Lisboa que amanhece”, “Coro das velhas”, “Caramba”, “Sr. marquês”, “É terça-feira”, “Quimera do ouro”, ou mais recentes, como “O primeiro gomo da tangerina”, “Fotos do fogo” e “Enfim S. O. S.”, do último álbum de estúdio, “Tinta Permanente”.
“Noites Passadas” permite, enfim, esse eterno diálogo com a memória, de viver cada história e cada lembrança como se fossem sempre novas. Ouvimos as canções que conhecemos de cor e reconhecemos nas alterações e novas “nuances” que lhes foram introduzidas as nossas próprias transformações. Sérgio Godinho é um autor clássico da canção portuguesa, não por um estatuto ganho à custa da antiguidade, mas, pelo contrário, porque tem sabido conservar, ao longo dos anos, a pureza do ouvido e do olhar. “O passado é um país distante/ que distante é a sombra da voz/ O passado é a verdade contada/ por outro de nós”. “E o futuro diz que está aqui, já”. Sei lá, caramba, este é um dos gozos maiores que a música de Sérgio Godinho proporciona: trocar as voltas aos sentidos, usar e abusar da permissividade da linguagem.



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