Bizarra Locomotiva – Artigo de Opinião

POP ROCK

22 de Março de 1995

CAMINHOS DE FERRO


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BIZARRA LOCOMOTIVA, UM NOME DIFERENTE PARA UMA BANDA CUJA MÚSICA NÃO DÁ tréguas nem ao ouvido nem ao corpo. Depois da estreia discográfica homónima editada no ano passado e incluída no lote dos “melhores do ano” de 1994 pelo Poprock, o grupo acabou de lançar um segundo compacto, “First Crime then Live”, distribuído pela Symbiose. Cinco originais de estúdio acoplados a quatro prestações ao vivo gravadas em França, no “Printemps de Bourges”. A locomotiva é conduzida por três maquinistas, Armando Teixeira, manipulador de “samplers” (“maquinaria”, como ele diz), Sidónio Ferreira, vocalista, e Marco Franco, baterista que veio substituir António Pinto, ainda presente no disco. “First Crime then Live” é, segundo os seus autores, “uma ponte” entre o primeiro e um próximo trabalho, já gravado e com título escolhido, embora eles prefiram por enquanto não dizer qual. A inclusão de temas ao vivo justifica-se porque “a Bizarra vive mesmo é das prestações ao vivo”, afirmam os três elementos desta banda para quem a força do colectivo é o mais importante. Recentemente deram um concerto na Foz do Arelho que nunca mais esquecerão, com “muita gente a fazer ‘mosh’”, contagiada pela energia, por vezes brutal, que a Bizarra Locomotiva costuma libertar em palco. “Queremos envolver as pessoas pelo ritmo e por uma imagem de força. É um divertimento como estar a ver um filme como ‘Cães Danados’” [estreia do cineasta Quentin Tarantino].
Os textos de “First Crime” são violentos, a palavra “dor” surge na maior parte dos temas. “É um disco temático, como um conto de terror”, dizem. Ou “uma autotortura”. Por outro lado, admitem que “à violência das letras corresponde uma atitude violenta em cima do palco”. Uma forma de libertação de energia mas também “de alguma frustração e do medo crescente no dia-a-dia”. Algumas pessoas próximas do grupo acham-no com uma “atitude sadomasoquista” mas eles recusam tal conotação. Não se consideram de forma alguma “uma entidade negativa, igual a muitas que existem no nosso planeta hoje em dia, inclusive grupos musicais”. “Somos gajos limpos”, garantem, num alusão a certas pessoas “que iam ao Rock Rendez-Vous e não mudaram desde então, mantendo os cabelos grandes, frequentando antros e sempre rodeados de fumo e drogas”.
Ao escutar a música da Bizarra locomotiva, é impossível não pensar em grupos como os Young Gods, Ministry ou Laibach. Em relação aos primeiros, apenas aceitam a existência de uma “atitude idêntica”. Agressivos? Talvez, como forma de luta. “O que é negativo é durante o dia um gajo ligar a rádio e só ouvir coisas que contribuem para o atrofiamento geral, sempre as mesmas músicas da Tina Turner ou do Bryan Adams.” “Energia” volta a ser a palavra-chave. “Energia sexual”, dizem. No som e nas palavras. “Tudo tem a ver com sexo”. De resto, a própria designação do grupo tem conotações sexuais. A locomotiva é um símbolo fálico – bizarra porque “faltam as duas bolinhas” – que simboliza “a pujança, o poder”. Uma locomotiva pesada, difícil de parar, construída com músculo e suor. Uma definição para a sua música? Eles não hesitam: “Somos o metal da música electrónica.”



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