Manuel Faria – Entrevista

Pop Rock

1 de Fevereiro de 1995

Manuel Faria expõe-se

LIGADO À CORRENTE

Manuel Faria reconhece que o seu defeito é esconder-se atrás dos grupos. Por isso é uma das mais influentes figuras da música portuguesa do nosso tempo e, no entanto, mal se dá por ele. Nesta entrevista, sacode a timidez e tira do saco mais uma pilha de projectos, enquanto acerta contas com o passado dos Trovante.


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Manuel Faria não gosta de dar nas vistas e não era seguramente a estrela dos Trovante. Mas, acabado o grupo, Manuel Faria produziu “Filhos da Madrugada”, a homenagem a José Afonso, trabalhou com Ricardo Pais em “Fados”, produziu discos de artistas como Carlos Zel e os Entre Aspas, além de criar música para publicidade. Agora produz o álbum de estreia dos Cramol, prepara-se para lançar o seu projecto musical sob o nome Sociedade Recriativa e fundar uma editora independente. Uff… Continua a não se dar muito por ele, mas Manuel Faria tornou-se um dos personagens centrais da música portuguesa, pelas mãos do qual passarão certamente os seus destinos em 1995.
PÚBLICO – Como se processou a sua passagem da criação musical (Trovante) para a produção?
MANUEL FARIA – No Trovante eu também exercia um bocado esse papel, ou seja, a experiência que tenho da vida em grupo é que, no início, os músicos são todos muito parecidos e fazem tudo em conjunto. A pouco e pouco, porém, vão crescendo e cada um vai tendo mais jeito para umas coisas e menos para outras. No Trovante, era eu que tratava das relações com o estúdio e a produção sempre me atraiu imenso. Há outra condicionante no facto de eu ter uma formação em engenharia electrotécnica que me transporta muito para esse lado. Nos dois últimos anos do Trovante fui montando um pequeno estúdio em casa e fui-me interessando pelo mercado da publicidade, algo que me dá imenso prazer. Logo que o Trovante acabou, a minha actividade passou a ser a produção; se não me engano a primeira que fiz foi a dos Entre Aspas. 1993 foi praticamente preenchido com a pré-produção de “Filhos da Madrugada”. Como músico lembro-me que toquei em Coimbra com os Sitiados.
P. – E depois dos “Filhos da Madrugada”?
R. – Continuei a minha actividade como compositor e como director, com um sócio meu, do estúdio de publicidade. Comecei também a desenvolver um projecto antigo, Sociedade Recriativa. Um dos meus sonhos, ainda existia o Trovante, era produzir algo numa área diferente. Sem querer fazer uma autocrítica, nos últimos anos do grupo, o tipo de instrumentação que o grupo usava, uma instrumentação “standard” – bateria, baixo, guitarra, piano, saxofone, voz –, já não me satisfazia. Queria experimentar outro formato. Como é que se comportaria um grupo com outro tipo de instrumentos?
P. – A Sociedade Recriativa será o quê?
R. – Para já, é um projecto pessoal, não é um grupo. Nunca há-de existir “os” Sociedade Recriativa. São pessoas [Manuel Paulo, Filipa Pais, Mário Pacheco e um violinista russo de nome Gregori] com quem trabalhei e para quem imagino um universo musical tocado por elas. Embora eu tenha um defeito que me apontam os amigos mais próximos, de me esconder atrás de grupos, de não gostar muito de protagonizar, neste caso é uma coisa pessoal. O disco terá temas se calhar só com piano e violino, outros com piano, trombone e violoncelo, sons que eu tenho descoberto a pouco e pouco. É um projecto instrumental, talvez com uma ou duas canções, muito virado para o meu próprio gozo.

O produtor discreto

P. – Nos Trovante existia uma forte componente de música tradicional. Poderá regressar a ela no novo projecto?
R. – O tradicional hoje em dia anda de mãos dadas com o ambiental. Por exemplo, uma das coisas em que trabalho muito é com samples. Já se perdeu um pouco aquele mito, que se tornou numa moda, no princípio dos anos 90, que era o acústico obrigatório. Até me apetecia às vezes fazer um disco chamado “Plugged” [“ligado à corrente”, por contraste com o programa “Unplugged”, ou seja, “acústico”, da MTV]. Interessa-me a área dos “loops”, dos samples, do ritmo hipnótico, misturado com esse tipo de sonoridades.
P. – Outro projecto que tem neste momento em mãos é a produção do primeiro disco dos Cramol…
R. – O disco já está praticamente feito. O grupo tinha apresentado um projecto à BMG. A primeira vez que o ouvi, achei fascinante. É uma área que me interessa. Tenho discos de vozes corsas. Há muita gente a interessar-se por várias áreas ao mesmo tempo. Veja por exemplo o Kronos Quartet, que é muito irreverente na escolha dos parceiros com quem toca, como os cantores de Tuva que de repente aparecem em peças com eles, ou a música do Piazolla. No caso do Cramol, a música tradicional é trabalhada com autenticidade e sabedoria. Elas têm uma colocação de voz que, embora sendo popular, não é a de um coro académico. Com o Cramol é simples. Aprendo o que não sei, como saber como aquele tipo de música é feito. E dou-lhes aquilo que elas provavelmente não saberão, como criar as infraestruturas para gravar um disco.
P. – Eis a sua faceta de organizador, de alguém atento e preocupado com vários aspectos em simultâneo…
R. – … Na posição de aprender. Não sou um produtor muito interveniente, nem acho que o produtor deva ser o centro de um trabalho. Se o som me interessa, aceito produzir e tento enquadrar-me o melhor possível, embora com certeza tenha e dê ideias. Mas não tento transportar o meu som. Quando a produção é muito boa, não se nota. Para mim é o conceito último de produção. Prefiro isto ao Trevor Horn, por exemplo, onde tudo o que ele toca parece um disco seu. Prefiro ter mesmo o meu disco e pôr nele tudo o que tenho para dizer do que estar a servir-me de outro artista.
P. – Não haverá um risco quando a opção é, como parece ser o seu caso, pela desmultiplicação de actividades?
R. – Isto é um país muito pequeno e há aqui também um lado financeiro. É muito difícil uma pessoa viver só duma actividade, em que há altos e baixos. Não se pode fazer mais do que disco por ano, como autor, e eu tentei encontrar vários caminhos que me dessem prazer e nos quais sou competente. Por exemplo, produzi um disco de fado, do Carlos Zel, algo que nunca tinha feito antes. A primeira coisa que ouvi dizer, de um dos guitarristas, foi: “O que é que este gajo está aqui a fazer, que não percebe nada de fado?” Respondi que percebia de discos. Gravámos o disco como se fosse um quarteto de câmara, todos ao mesmo tempo, uma coisa que, desde que existem gravadores multipistas em Portugal, estava ultrapassada, mas que acabou por acrescentar uma sonoridade bastante mais interessante. Na altura não sabia nada de fado, tive que aprender. Depois fiz o disco em que trabalhei com o Ricardo Pais [“Fados”, espectáculo deste encenador levado à cena no CCB].

“Agora o pai morreu”

P. – Com o conhecimento acumulado que tem hoje, se pudesse voltar atrás, faria algumas modificações na música dos Trovante?
R. – Não sei se poderia ter sido diferente. Sei que até 87 não mudaria nada. Até 87 fomos um grupo de facto, com uma identidade musical própria. Era rara a ideia que um de nós dava e os outros não gostassem. Depois começámos a divergir musicalmente, e talvez humanamente, e passou a haver uma coisa muito séria que são os jogos de poder. Às vezes eu, o Luís e o Gil, por brincadeira, dizemos: “Pronto, agora o pai morreu, já podemos ser amigos outra vez.” Deixou de existir a estrutura da qual éramos todos filhos e nos obrigava aos tais constantes jogos de poder.
P. – Aceitaria produzir um disco de algum dos seus antigos companheiros?
R. – O Luís represas propôs-me ser produtor do disco dele [“Represas”], mas tinha que ser ele a fazê-lo sozinho. Se eu entrasse, ia voltar a levar com a minha visão musical e os meus arranjos. Não ia ser tão Luís Represas como foi. Até porque, enquanto as bandas têm os seus próprios arranjos, o produtor de um artista a solo tem uma posição mais determinante sobre o produto final. Depende dele a escolha de tudo, dos músicos, do arranjador, o protagonismo é muito maior. No caso do Luís, estava ainda tudo muito fresco, incluindo a dissolução ainda recente do Trovante. Teria sido uma asneira. Mas se fosse hoje talvez aceitasse…



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