Maddy Prior – “Year”

Pop Rock

9 MARÇO 1994

Maddy Prior
Year

Park, distri. Megamúsica


mp

Para que conste: “Year” é o melhor álbum de sempre na carreira, longa de quase 30 anos, de Maddy Prior. Incluindo os três discos, circunscritos a uma área específica – o cruzamento da folk com a música antiga –, que gravou com os Carnival Band e, obviamente, aqueles assinados em seu próprio nome, que até à data não faziam justiça à grandeza da cantora. Num plano superior, embora não muito, continuam a estar os álbuns fundamentais que gravou com os Steeleye Span entre 1971 e 1974, “Please to See the King”, “Tem Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides again”, “Below the Salt”, “Parcel of Rogues” e “Now We Are Six”. “Year” anda lá perto. Ao contrário dos anteriores discos a solo da “irmã tontinha” de June Tabor, em que a folk, o rock envernizado e a pop rural se misturavam de forma mais ou menos inconsequente, num veículo “mainstream” que, sem ser ofensivo, passava sem deixar marcas nem saudade, o novo “year” afirma-se logo de entrada com a força e a unidade de um clássico. Maddy está em grande forma. E o seu canto, um mimo, uma iguaria, nos arredores da perfeição. As composições não lhe ficam atrás. A principal é uma sequência de temas sobre as estações do ano, apresentado em estreia mundial, ao vivo, há dois anos, no festival Intercéltico do Porto. Um desses temas fica desde já como uma das melhores interpretações de sempre da cantora: “Marigold”, a canção do Outono. Emoção em estado puro, numa vocalização de sereia, sinuosa e insinuante. Maddy em verdadeiro estado de graça.
Não há momentos fracos, nem nas composições originais nem nas tradicionais, sem esquecer a melodia de Verão saída da pena de Loudon Wainwright III, “Swimming pool”, e que se pode considerar a mais próxima de uma sensibilidade pop, num disco que por três vezes se revê no passado dos Steeleye Span. Em “Saucy sailor”, de “Below the Salt”, “Boys of Bedlam”, de “Please to See the King” e “Twa corbies” – meditação sobre a morte incluída na estreia “Hark! the Village Wait”, neste disco com um texto do escocês antigo, cantado sobre uma melodia da Bretanha –, transpostos de forma gloriosa para novos arranjos. “Long shadows” e “Somewhere along the road” transportam consigo as sombras, os espectros e as lendas da Inglaterra rural como ninguém o havia feito depois de a grande, desaparecida e menosprezada banda chamada Mr. Fox, de Bob e Carole Pegg, o ter feito em dois álbuns seminais, “Mr. Fox” e “The Gipsy”. “The fabled hare”, “suite” dividida em seis partes, é uma homenagem à lebre, esse animal tantas vezes evocado nas canções da tradição inglesa e considerado na antiguidade como símbolo da deusa pagã da fertilidade e do renascimento (“re-birth”), Aestre. Começa por parecer-se um pouco com os Jethro Tull (refira-se a propósito que Ian Anderson colaborou em “Now We Are Six”) e segue em mudanças de velocidade, com as do quadrúpede em questão, que mostram o lado mais inovador deste “Year” de boa memória.
Um grande álbum que vem ocupar o lugar no trono, ao lado de “Angel Tiger” de June Tabor. Magnífico. (9)



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