David Shea – “Prisoner”

Pop Rock

27 ABRIL 1994
ÁLBUNS POP ROCK

David Shea
Prisoner

Sub Rosa, distri. Megamúsica


ds

Há vários códigos implícitos na chamada cena “downtown” de Nova Iorque que fazem dela uma espécie de irmandade. A estética de “cut-off” e colagem, o policial negro e o cinema dos anos 60 e 70 em geral, a paranóia urbana e a banda desenhada são algumas das referências cultivadas por este segmento da vanguarda norte-americana.
Não por acaso, o nome de John Zorn surge como figura tutelar do movimento, tendo sido um dos primeiros a incorporar na sua música todos estes elementos (aos quais poderíamos acrescentar o “free jazz”, o fascínio pelo Oriente, o “hard gore”, Godard, etc…). “Prisoner” é um objecto típico desta corrente, que privilegia os ambientes torturados e os espaços fechados, as luzes de néon e as sirenes, os gritos e o sangue, o curto-circuito e a alienação, a paralisia e as acelerações. Dividido em sete movimentos, correspondentes a outras tantas “curtas-metragens” sonoras, há da parte do seu autor a intenção explícita de criar uma espécie de “cinema sonoro” com uma acção específica, em que os sons correspondem às personagens. Um processo de composição que tem presente a necessidade de elaborar “cenas” distintas, por um trabalho de montagem equivalente ao cinematográfico, possível graças às técnicas de samplagem e mistura.
Baseado na série com o mesmo nome apresentada na BBC, “Prisoner” segue de perto o modelo de John Zorn utilizado em “The Big Gundown” e “Spillane”. Homenageia compositores como Albert Elms, John Barry, Henry Mancini, Quincy Jones, Elmer Bernstein e Ennio Morricone, entre outros e, em paralelo, séries televisivas dos anos 60 como Secret Agent, The Fugitive, The Outer Limits e Avengers, cujos excertos sonoros Shea aproveitou para samplar. Fragmentações constantes alternam com fugas e momentos de contemplação pianística. Vozes sampladas sobrevivem entre desabamentos rítmicos e explosões de cacofonia, subitamente ordenadas por um longo solo de percussões brasileiras, por Cyro Baptista, ao lado de Zeena Parkins, Anthony Coleman e Marc Ribot, um dos convidados de “Prisoner”.
Enquanto existir, Nova Iorque será sempre o berço de música como esta. Nevrótica. Com a urgência de um sinal de alarme. (8)



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