Nick Cave & The Bad Seeds – “Let Love In”

Pop Rock

13 ABRIL 1994

O DIABO ATRÁS DA PORTA

NICK CAVE & THE BAD SEEDS
Let Love In

Mute, distri. BMG


nc

Em quatro dos dez novos temas de “Let Love in”, sem contar com o título, aparece a palavra “Amor”: “Do you love me”, “Loverman”, “I let love in” e “Do you love me, part 2”. Quer isto dizer que o ex-vocalista dos Birthday party se converteu ao rock sentimentalão e ao mesmo tempo se arrependeu dos seus pecados e excessos do passado?
Numa miniestrevista passada recentemente na MTV, Cave afirmava – não é possível saber com que dose de cinismo – que se fartara de lixar a cabeça alheias, que entrara na fase de reconversão e de mudança: em suma, que se tornara uma boa pessoa. É um facto que a fúria dos Birthday Party ou dos primeiros álbuns a solo já não é a mesma e que o australiano foi desenvolvendo ao longo dos anos outras formas de inocular o veneno. De “cão raivoso” passou progressivamente a uma espécie de “crooner” luciferino, que disfarça o niilismo demoníaco dos temas num embrulho de falso romantismo que só enganará os mais ingénuos.
Nick Cave é um estratega do cinismo. “Let love in” não esmaga pelo lado do horror e da cacofonia, como acontece por exemplo com a música de um dos seus amigos, Blixa Bargeld, dos berlinenses Einstuerzende Neubauten, e com Mick Harvey, elemento de primordial importância no som dos Bad Seeds. Pelo contrário, o cantor veste-se com os veludos, os cetins e néons do “showbiz”, ou então deixa-se envolver pelos fumos de cabaré, para do lado de dentro das falsas canções de amor nos atirar à cara a mesma desesperança de sempre.
O universo actual de Cave, passado – pelo menos na aparência – o fascínio pelo Brasil (embora o músico continue a não esconder a admiração por este país, onde se desloca com frequência), encontra-se com as “industrial cowboy songs” de Frank Tovey, aliás Fad Gadget, como “I let love in” e “Red right hand”, o desestruturalismo dos Neubauten, a ideologia de autoflagelação de Clint Ruin, aliás Foetus, aliás Jim Thirlwell e, em última instância, com Jim Morrison, dos Doors. Em “Jangling Jack”, o maligno revela o seu rosto real, numa torrente de ácido de guitarras saturadas, que, em paralelo com a rouquidão alucinada da voz, recorda de forma surpreendente as primeiras experiências empreendidas pelos “industriais” de Sheffield, Cabaret Voltaire, de “Mix-Up” e “Red Mecca”.
O diabo dá inequivocamente a cara e o discurso em “Loverman”, talvez o tema emblemático do que Cave tem hoje para nos dizer – “there’s a devil waiting outside your door” –, em que de novo os sinos (os sinos que aparecem logo na entrada, “Do you love me”, os mesmos sinos que assombraram Lou Reed, ainda os mesmos sinos subliminares que gelam “An índex of metals”, de Fripp e Eno, um dos temas, se não “o tema” que na “música popular” melhor deixa passar o vento da loucura e do demónio para o lado de cá) anunciam a tragédia. Arredada ficou também a religiosidade invertida – por muito que Cave cite num dos temas, “Nobody’s baby now”, a Bíblia e Jesus como fontes de salvação – que caracterizava uma álbum como “The Good Son”, incondicionalmente aberto à influência do “gospel”. O “bom filho” deixou cair a máscara mas não o enorme talento para perturbar o mostrar o lado oculto e escuro da vida “real”, pintada com as mesmas cores que David Lynch utilizou para colorir a “realidade” de superfície, de “Veludo Azul”.
O que faz afinal aquilo que é ao mesmo tempo a unidade e a pulverização dessa unidade, na música dos Bad Seeds? Que o explica é Mick Harvey, guitarrista e companheiro de longa data de Cave, com quem alinhou nos Birthday Party: “Os Bad Seeds dependem dos aspectos idiossincráticos de cada músico individualmente. Não são um grupo regular no sentido vulgar do termo. Tudo depende muito da maneira como Thomas Wydler toca bateria ou Blixa Bargeld a guitarra. A personalidade do grupo define a globalidade de som, em que cada um trabalha a sua própria participação nas canções. É o que nos distingue das outras bandas. O grupo desenvolve as suas diferenças e o modo como cada um de nós estimula e se inspira na sonoridade dos outros.”
Nada disto resultaria, como é evidente, se não existissem as palavras e a perspectiva, sempre focada, do vocalista. Juntos, palavras, ruídos e “rock and roll”, formam um “cocktail” que mistura doses proporcionais de mistificação, deformidade e espectáculo de variedades. Teatro da crueldade, onde, como profetizava Artaud, vida e representação de confundiam. Paradigma desta estética de dramatização é a faixa atrás citada, “Loverman”, na qual três partes distintas, correspondentes a outras tantas personalidades fictícias, se conglomeram num todo que confere a um termo como “soul music” significações iguais a dor, medo, tortura, desespero e morte.
Idêntica desocultação ocorre em “Thirsty dog”, dilúvio de guitarras e gritos enraivecidos, que recuam aos tempos épicos de fogo dos Birthday Party – conotação a que decerto não é alheio o regresso de Tony Cohen, antigo produtor dos Birthday aos comandos do actual grupo. Épico de outra maneira volta a ser “Ain’t gonna rain anymore”, em que Cave, por um momento, se deixa comover por algo parecido com o amor. Para voltar a vestir o hábito do monge em “Lay me low”, um espiritual tingido de sangue, em que efabula sobre o próprio funeral, sobre coros e um órgão da igreja dos danados. A calma assassina desce, a mesma calma assassina que desde nos momentos mais escuros da obra de Leonard Cohen ou John Cale, no tema final, segunda parte de “Do you love me”, ardil e mote daquele que é um dos grandes discos de Cave até ao presente. Quem ama afinal Nick Cave? Quem se atreve a enlaçar este filho do filho das trevas? (8)

aqui



Share and Enjoy !

0Shares
0 0 0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.