The Residents – “Our Finest Flowers”

Pop Rock

27 JANEIRO 1993
ÁLBUNS POP/ROCK

AS FLORES DO VÓMITO

THE RESIDENTS
Our Finest Flowers

CD Euro Ralph, distri. Contraverso


res

“20 anos de regurgitação dolorosa” – deste modo, os próprios definem duas décadas de carreira dedicadas a desocultar a caveira que sustenta o rosto maquilhado da pop. É o que os Residents têm feito desde sempre, com resultados por vezes brilhantes, como em “The Third Reich’n’Roll”, onde apresentam versões satânicas de canções dos Beatles e “hits” dos anos 60. Essa táctica de suturação aplicaram-na sobretudo aos mitos – os Beatles, claro (recorde-se ainda o álbum estreia, “Meet the Residents”, todo um manifesto de intenções cuja capa e título decalcaram de “Meet the Beatles”) –, mas também Elvis Presley, que os Residents crucificaram em “The King and Eye”.
O termo “regurgitação” aplica-se de forma directa a esta celebração dos 20 anos de anonimato e quase sempre boa música da banda mais estranha do planeta. “Our Finest Flowers” parte literalmente do vómito. Parece que alguém, no estúdio, terá vomitado sobre textos e títulos de canções. Os Residents repararam que o vomitado, ao apagar certas letras, revelou novos e estimulantes significados – a técnica do “cut up” levada às últimas consequências. Depois, é o próprio passado da banda que volta à boca, já fermentado, para ser de novo mastigado e digerido. “Perfect goat” (tema que alude directamente ao episódio do vómito) inclui mesmo fragmentos repescados de “Not Available”, um dos grandes álbuns da primeira fase, sem dúvida aquele que leva mais longe um registo de tragédia.
São novas canções (que os Residents não se cansam de definir como “pop”, com algo de “familiar” e “agradável”…) que recuperam a tal aura trágica do álbum citado, filtrada e desenvolvida através da electrónica e dos computadores, de acordo com uma estética que o grupo aperfeiçoou sobretudo a partir da célebre e incompleta trilogia das toupeiras (“Mark of the Mole” + “The Tunes of Two Cities” + ?).
O seguidor de longa data dos Residents encontrará nestas flores o odor acre do veneno, as eternas melopeias, entre o pueril e o macabro, o mesmo massacre das vozes e o humor inquietante, embalados em orquestrações de pesadelo – tudo destilando mal-estar e pestilência.
Os Residents comparam-se a si próprios, na longevidade e em importância, aos Grateful Dead e aos Rolling Stones. “Our Finest Flowers” pode ser o “Their Satanical Majesties Request” dos anos 90. Uma ameaça velada. O lado escuro de um novo psicadelismo. A noite da pop. (7)

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