Sérgio Godinho – Palavras Com Música (artigo de opinião)

Pop Rock

5 MAIO 1993

PALAVRAS COM MÚSICA

António Lobo Antunes e Manuel Alegre, escritores, solicitados pelo PÚBICO, deram a sua opinião sobre Sérgio Godinho, escritor de canções. Ambos reconheceram qualidade literária nos textos do autor de “Tinta Permanente”.

sg

“Nos anos 60, com o José Afonso, sobretudo, mas também com José Mário Branco e Fausto, começaram a aparecer letras de canções de uma grande qualidade.” Quem o diz é António Lobo Antunes, escritor cujas palavras Vitorino recentemente musicou em “Eu que me comovo por tudo e por nada”. “Parece-me muito difícil fazer letras como as que o Sérgio Godinho faz. Conseguir tornar poéticas palavras por vezes muito pouco poéticas.” Para o autor do “Tratado das Paixões da Alma”, “há bastantes mal-entendidos à volta da palavra ‘escritor’”. Se “em relação aos livros há que distinguir entre ‘escritores’ e ‘fazedores de livros’, diz, “em relação à música passa-se o mesmo, entre ‘escritores de canções’ e ‘fazedores de canções’”.
Escritor de canções, segundo Lobo Antunes, “tem que ver com duas coisas fundamentais: o talento e o trabalho. E com uma honestidade intelectual, uma questão de fidelidade a si próprio, não tentar vender gato por lebre, não piscar o olho ao público”. “Em literatura, há tipos que encontraram uma receita de sucesso e depois de limitaram a repeti-la”, continua, “um escritor honesto seria aquele que correria riscos cada vez que fizesse um novo trabalho. Parece-me que é o que o Sérgio Godinho faz”.
Serão assim tão diferentes o poeta e o escritor de canções? Lobo Antunes é de opinião que, “quando se escreve só poesia, há apenas a preocupação com as palavras”. “O dramático da canção é tentar dizer muita coisa em três minutos. É mais fácil com um romance, em que se tem 300 ou 400 páginas…”
Quanto a Manuel Alegre, também ele autor de poemas musicados, entre outros, por Adriano Correia de Oliveira, Alain Roman, Vitorino e José Niza, pensa que a tradição dos escritores de canções “vem de muito longe, dos provençais, que compunham, escreviam e cantavam”. Manuel Alegre, como Lobo Antunes, aponta José Afonso como pioneiro. De Sérgio Godinho diz que “recuperou aquela tradição, sendo moderno” e que o fez “com bastante felicidade, inspirando-se também”, supõe, “em alguns exemplos da música brasileira e francesa, mas com inegável originalidade”.
Sobre a diferença entre poesia e poesia para canções, Manuel Alegre afirma que “toda a grande poesia, desde o início, de Homero à ‘Bíblia’, até Camões e aos grandes poetas”, se inscreve numa máxima de Ezra Pound: “A poesia e a música nasceram juntas.” “Quando a poesia se separa da música, normalmente degenera.” Segundo o poeta de “Babilónia”, “a grande poesia é mesmo para ficar no ouvido, para ser dita, para ser cantada, para ser decorada, para ser partilhada. Há poemas de Camões que parecem ter sido escritos para serem cantados, para serem cantados pela Amália.”

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