XTC – “Nonsuch”

Pop Rock

29 ABRIL 1992

MELODIAS DE SEMPRE

XTC
Nonsuch
LP/ CD Virgin, distri. Edisom

Aconteceu o mesmo com “Skylarking” e “Oranges and lemons”, os dois trabalhos dos XTC anteriores a este “Nonsuch”. À primeira audição as canções parecem vulgares, vagamente conhecidas de outras ocasiões, decalques e retalhos de refrões anteriores. Mas fica sempre qualquer coisa, o apelo de melodias irressistíveis que invariavelmente levam a que se ouça o álbum outra e outra vez. Como por magia, a cada audição as transfiguram-se, vão revelando insuspeitadas riquezas, começam a possuir-nos e por fim já não as conseguimos largar.
Na tradição dos grandes excêntricos britânicos com Syd Barrett e Kevin Ayers, Andy Partridge, cérebro e principal estratega dos XTC, observa a realidade através de um caleidoscópio. Cada canção de “Nonsuch” é um mundo à parte, com regras próprias ditadas pela mente de um lunático apaixonado pelos anos 60, por um refrão perfeito e pelos malabarismos que o humor “nonsense” autoriza.
Música de imagens e de pequenos arcaísmos, desde logo evidentes nas pequenas gravuras alusivas a cada canção e no “Map of Surrey”, datado de 1611, da autoria de John Speed, representado na capa. Andy Partridge, Colin Moulding e Dave Gregory procedem como artesãos de antiguidades douradas, na minúcia de arranjos em que as surpresas instrumentais acontecem a cada instante.
As técnicas de composição não são menos inusitadas: “The ballad of Peter Pumpkinhead”, onde alguns viram sucessivamente o retrato de John Lennon, John Kennedy e Jesus Cristo, narra na verdade as várias fases de crescimento de uma abóbora; “Books are burning” versa a polémica dos “Versos satânicos” de Salman Rushdie e foi composta a partir da estrutura de “I get around” dos Beach Boys; “Omnibus” surgiu na sequência de uma gravação de “See Emily Play”, de Syd Barrett, tocada em velocidade no estúdio; “Wrapped in grey” é, segundo Partridge, um cruzamento de Burt Bacharah com Brian Wilson, ou seja Burt Wilson; “Crocodile” é “pop barulhenta sobre o ciúme”; em “The smartest monkeys” acentua-se o “lado fortemente nasal da coisa”. Nunca o termo “composição” fez tanto sentido. Quanto a si próprio, Andy Partridge define-se como um híbrido de Walt Disney com Benito Mussolini…
“Nonsuch” é composto por 17 canções que são outros tantos manifestos da arte do pormenor. Escritos segundo directivas como “toque como se estivesse à beira de um abismo” ou “toque como se estivesse a andar de bicicleta na Bélgica”, um pouco à maneira de Brian Eno e das suas estratégias oblíquas. Uma inflexão da voz, um desvio súbito na progressão melódica, a eclosão de um apontamento instrumental aparentemente despropositado remetem para álbuns de Eno como “Taking Tiger Mountain (by strategy)” ou “Another green World” e constituem o próprio cerne de toda a estratégia dos XTC, capaz de tornar uma melodia que à superfície pode parecer demasiado simples e familiar numa pequena sinfonia. (8)

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