Tori Amos – “Little Earthquakes”

Pop Rock

15 JANEIRO 1992

O SEXO DOS ANJOS

TORI AMOS
Little Earthquakes

LP/CD, WEA, distri. Warner Music

Partamos do princípio que Kate Bush não existe. Admitindo que Kate Bush não existe, “Little Earthquakes” é um dos álbuns mais originais, inspirados, perturbadores, ousados e requintados gravados por uma voz feminina nos últimos anos. Voz envolvente, capaz de percorrer uma escala alargada de tons e sentimentos. As canções de “Little Earthquakes” abalam realmente, provocam arrepios na espinha, confundem, perturbam, levam-nos aos tropeções por uma montanha russa e pelo comboio-fantasma de uma feira de emoções. Algumas falam de sexo. Quase todas de paixão.
A questão sexual está sempre de alguma forma presente, nas espirais de orgasmo da voz, nos murmúrios, nas rouquidões húmidas que de súbito eclodem entre um salto de oitava e um salto emocional, na pureza perversa com que a cantora lança o seu feitiço, desnudando-se por dentro e descobrindo o sexo dos anjos. Sexo e religião interligam-se num universo de prazer e pecado onde a lógica não tem lugar. Império do sentir. Como Tori Amos sentiu, e de que maneira, aos 23 anos, na carne, sobretudo, e no espírito, através de sucessivas infecções na bexiga (também 23, tem piada) provocadas por um intenso complexo de culpa devido aos ditos problemas do foro sexual. “Todos os dedos do quarto apontam para mim” – queixa-se ou entusiasma-se em “Crucify”. A frase é ambígua, pode ser fálica. Pode se assustadora.
Vamos supor, como diz Tori, que “não tínhamos corpos e que apenas libertávamos pequenas energias luminosas, como cores, e que então nos fundíamos”, para a cantora, “o verdadeiro significado de fazer amor”. Sim, admitamos. O amor é platónico, mas nem sempre. Em “Leather”, Tori canta nestes termos: “repara, ergo-me nua diante de ti/ não queres senão o meu sexo/ posso gritar tanto com a última/ mas não posso pretender a inocência”. Em “Me and a gun”, a voz solo descreve movimentos suspeitos no banco de trás de um automóvel, incluindo pormenores de alguém que “desaperta as calças”. A espingarda não deve ser bem uma espingarda.
Há fantasmas à solta na música e na cabeça de Tori Amos. São eles que dão encanto ao disco. São eles que confundem e perturbam. Uma das canções chama-se “Happy Phantom” e inventa uma ópera universal em que Judy Garland leva Buda pela mão. Não quer dizer nada, mas faz-nos imaginar coisas.
Claro, continua a ser preciso fazer um esforço para não nos lembrarmos de Kate Bush e da semelhança de vivências (exceptuando as infecções da bexiga) entre as duas cantoras, que de resto se aproximam ainda nas inflexões vocais ou no modo como o corpo inteiro se assume como filtro das emoções. Canções como “Crucify” ou “Silent all these years” recordam também outra senhora, chamada Dalbello, canadiana que há muitos anos editou um disco intitulado “Womanfoursays”. Não chega a constituir problema porque quase ninguém conhece.
Depois, há a maneira de Tori tocar piano, como se este instrumento fosse uma grande caixa de música de onde se evolam notas estranhas, presentes nas afinações exóticas de “Precious Things” ou “Mother”. E há outros pequenos terramotos: “ragtimes” fantasmagóricos, Lili Marlene num clube de jazz, e medos maiores e mais profundos na assombração final de “Little Earthquakes” – “dançámos em cemitérios com vampiros até de madrugada/ rimo-nos na cara dos reis, sem medo de nos queimarmos/ odeio, odeio, odeio/ a desintegração espera por nós”. Tudo é diferente em Tori Amos. Tudo seria ainda mais diferente se não existisse Kate Bush. (7)

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