Neil Young: Paz Depois Da Guerra (artigo de opinião)

Pop Rock

28 OUTUBRO 1992

Neil Young dá conferência de imprensa em Madrid

“PAZ DEPOIS DA GUERRA”

“Harvest Moon”, novo álbum de Neil Young, editado em Portugal no dia 23 de Outubro, com o selo Warner Music, revisita o seu antepassado de 1972, “Harvest”. Os músicos são os mesmos, os arranjos acústicos remetem para os de há 20 anos. São canções de amor, de ressaca, passado o delírio eléctrico e o excesso de “Weld”, o álbum anterior. Agora o autor de “After the Gold Rush” anda pela Europa a explicar que não se trata de qualquer acesso de nostalgia, apenas de um álbum capaz de agradar a toda a gente. Um grupo de jornalistas convidados escutou as suas razões, numa conferência de imprensa realizada na semana passada num hotel de Madrid. Não são grandes razões as que o músico apresentou. Neil Young fala pouco, preferindo deixar as opiniões sobre o seu trabalho para os críticos e o público em geral. “Harvest Moon” é um bom álbum de canções, registadas num momento de pacificação. O guerreiro em tempo de paz.

Que motivos levaram afinal Neil Young a este regresso a um passado distante? As respostas não foram claras, ficando uma série de dúvidas a pairar no ar. Ele diz que foi quase por acaso: “Escrevi as canções primeiro, depois escolhi os músicos e só então reparei que eram os mesmos [os Stray Gators], que tinham trabalhado comigo em ‘Harvest’.” Pura coincidência, portanto. Quanto aos arranjos, acústicos como no álbum de 1972, devem-se unicamente à inspiração de momento. “Foram escritos na guitarra acústica. Ficavam melhor num registo ‘soft’.” Poder-se-ia pensar numa repetição de esquemas. Mas também aqui Neil Young se recusa a abrir o jogo, embora conceda: “Durante muitos anos as pessoas pediram-me para fazer isto, mas não tinha as canções certas. Não programo o tipo de canções que escrevo. Aconteceu agora e pronto.” E pronto.
Certo é que “Harvest Moon” não esconde a filiação, senão não repetiria a palavra comum aos dois álbuns. E compreende-se que a escolha tenha recaído em “Harvest”, que foi, na altura do seu lançamento, um dos que mais dividendos monetários trouxe ao seu autor e o projectou na cena rock internacional. Por outro lado convém não esquecer que a obra de Neil Young se organiza por avanços e recuos sucessivos – “Vou a um extremo e depois regresso, para não haver perda de energia. Energia que é mais forte quando toco com os Crazy Horse, visível em trabalhos como ‘Ragged Glory’, ‘Weld’ e ‘Arc’. Depois tenho de parar e tocar qualquer coisa mais suave” –, agrupando-se os álbuns em núcleos específicos. É verdade que “Harvest Moon” remete em primeiro lugar para “Harvest”, mas não é menos verdade que também não anda longe do registo de “Comes a Time”, de 1978. Da mesma maneira que “Weld” se poderá inserir numa linha idêntica à de “Ragged Glory” (1990) e “Rust never Sleeps” (1979). Intenções declaradamente comerciais não existem: “É um álbum sentido com o coração. As pessoas podem dizer o que quiserem. Não tenho de defender a minha música, apenas de a fazer.”

Uma pausa e promoção

Fica de imediato afastado qualquer paralelo com uma estratégia semelhante, por exemplo, à de “Tubular Bells II”. Nem a integridade artística sempre mantida pelo autor o permitiria. Desde os tempos longínquos de “Everybody Knows this Is nowehere” que Neil Young recusa a segurança de um estilo ou de uma fórmula que se revele rentável. Ele é por natureza um explorador, alguém que se recusa a parar. Do rockabilly à country, do rock nos mais diversos matizes ao escândalo que em 1983 causou a aventura electrónica de “Trans”, é todo um percurso em que constantemente tem procurado novas soluções. Por tudo isto também espanta a pausa que “Harvest Moon” significa. E é de facto de uma pausa que se trata. Se “Weld” e a sua extensão de puro caos e “feedback” que é “Arc” – “nas discotecas utilizam-no em blocos de 10 segundos entre as canções para dançar e na rádio costuma servir de separador” –, gravados durante a guerra do Golfo, representam, nas suas palavras, algo parecido com “estados alterados, como o ar que se transforma em vapor” ou “uma fronteira limite, o princípio de algo novo, um tiro no escuro”, “Harvest Moon”, pelo contrário, é “a calma depois da tempestade” e “a paz a seguir à guerra”.
Quanto às actividades promocionais em que, pela primeira vez em 25 anos de carreira, se vê envolvido, devem-se a directivas dos patrões da editora, que viram em “Harvest Moon” um álbum com um potencial comercial razoável: “Em Los Angeles sentaram-me numa cadeira e disseram-me: ‘Temos de fazer isto, senão ninguém saberá que tens um novo álbum.’” Neil Young acedeu e parece que não se tem dado mal com a mudança: “Agora posso viajar pela Europa, por cidades maravilhosas, frequentar bons restaurantes…” A questão é que, se, como ele diz, os fãs “hard core” não precisam de referências para adquirir o álbum, já o mesmo não acontece com uma franja de público novo que, de outro modo, não teria acesso a saber da existência do disco – “É um tipo de música que a rádio não passa, nos dias de hoje.”

Ídolos da América

Em “Harvest Moon”, Neil Young escreve e canta sobre o amor e a loucura. Ele prefere que sejam os outros a tirar conclusões. Questionado quanto à temática de algumas canções, de novo se escudou num quase mutismo: “Um verso de ‘Dreamin’ Man’ diz algo como ‘sou um sonhador’. Tem sido esse o meu problema.” Problema que Neil Young reduz a “alguém que não consegue adaptar-se à realidade”, sem adiantar outros pormenores: “Tentar explicar as canções é trair essas canções.” Um ponto de vista defensável, por muito que custe à curiosidade jornalística. Noutra canção, “From Hank to Hendrix”, refere explicitamente, além das duas personagens citadas no título – Hank Williams, nome lendário da música country, e Jimi Hendrix –, os nomes de Marilyn Monroe e Madonna. Neste caso, forneceu algumas explicações extra, talvez por incidirem numa temática de teor não autobiográfico: “Hank e Hendrix são pólos positivos da América. As pessoas gostam de ouvi-los, porque são ambos grandes músicos. Marilyn e Madonna fazem pensar em coisas diferentes… As pessoas ainda não têm uma opinião definitiva sobre a sua qualidade.” Sobre a autora de “Sex” e “Erotica”, contudo, Neil Young tem uma opinião formada, por sinal positiva, já que considera que “alguma da sua música é boa” e à escandalosa “uma cantora com potencial”, que “fará música mais aventurosa no futuro”.

A queda de Colombo

Neil Young, que já sofreu na carne os efeitos da censura, em Espanha, onde lhe cortaram o texto da canção “Cortez the Killer” (do álbum “Zuma”) sente-se mais à vontade quando questionado sobre os outros ou sobre assuntos de ordem menos pessoal, ou íntima. A propósito da descoberta da América por Cristóvão Colombo, da qual se comemora este ano o quinto centenário, assunto que mantém excitados os nossos vizinhos espanhóis, Neil Young deitou um balde de água fria sobre os ânimos de “nuestros hermanos”: “Colombo? É uma anedota. Um ídolo caído. Passados 500 anos, já ninguém fala da descoberta, mas do extermínio dos nativos americanos. Há um mal-estar geral. Durante séculos, Colombo foi um herói. Agora, o seu tempo terminou.”
Entre os projectos actuais do músico, conta-se o regresso ao cinema (na lista dos seus realizadores preferidos figuram Scorsese, o Godard das origens, Fellini e Alan Rudolph), através da realização de um filme centrado sobre a história, lida num livro, de “uma senhora franco-canadiana que afirmou ter encontrado uma cura para o cancro”. Enquanto isso continua a apoiar várias organizações de auxílio a crianças deficientes, uma para doentes e seropositivos da sida, outra de ensino da fala com o auxílio de computadores.
De Bob Dylan, ao lado de quem tocou recentemente no concerto do 30º aniversário de carreira daquele compositor, diz ser uma “personalidade única e fascinante” e um grande poeta (“tal como Shakespeare”), cuja música “sabe falar à sua geração”. Vai mais longe ao afirmar que “as palavras ganham um novo sentido quando saem da sua boca”. Instado a pronunciar-se sobre as próximas eleições nos Estados Unidos, Neil Young ficou-se por um lacónico: “Sou canadiano!”

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