Talking Heads: Objectos Na Paisagem (artigo de opinião)

Pop Rock

7 OUTUBRO 1992

OBJECTOS NA PAISAGEM

Os Talking Heads acabaram. Vivam os Talking Heads. E sobretudo os discos, deixados para a posteridade como exemplos brilhantes de uma atitude e de um estilo que fizeram história. Os Talking Heads mostraram até onde a música pop pode ir, quando perde o medo e resolver experimentar novas formas e ideias. O lançamento simultâneo de duas colectâneas, “Once in a Lifetime – The Best of Talking Heads” e, em forma de antologia, o triplo álbum (CD e cassete duplos) “Sand in the Vaseline – Popular Favourites”, traz de volta à memória os melhores momentos da banda. E o bónus adicional de alguns inéditos.

TH

“Once in a Lifetime” é uma espécie de apresentação da antologia. Dez dos seus temas integram igualmente “Sand in the Vaseline”, incluindo um novo single, “Lifetime piling up”. A principal diferença está na presença de “Blind”, que aqui aparece numa versão ao vivo, enquanto na antologia figura a gravação de estúdio. O oposto acontece com “Life during wartime”, versão de estúdio na colectânea e ao vivo na antologia. “Slippery people”, também ao vivo, é a única canção que não consta de “Sand in the Vaseline”. Este tema, bem como “Blind”, apenas fazem parte do CD.
Quanto à antologia, cujos temas, alinhados por ordem cronológica, foram elaborados pelos próprios elementos da banda, David Byrne, Tina Weymouth, Chris Frantz e Jerry Harrison, apresenta os inéditos “Gangster of love” e “Popsicle”, além do referido single “Lifetime piling up”, um tema dos primórdios, “Sugar on my tongue”, e “Sax and violins”, canção incluída na banda sonora “Until the End of the World”.
A selecção mostra a preocupação de iluminar as várias facetas que fizeram estilo e o fascínio dos Talking Heads. Na primeira fase, a pop metálica do álbum de estreia, “77”, a psicose americana em ritmos maquinais de “More Songs about Buildings and Food”, a negritude e o minimalismo, formal e conceptual, de “Fear of Music”, o “funky” cósmico de “Remain in Light”, qualquer destes discos trazendo a assinatura de Brian Eno, na produção. Depois, consumada a assimilação desta diversidade de tendências, um álbum de transição, “Speaking in Tongues”, e o regresso à pop e às melodias deslizantes, de “Little Creatures”. “True Stories” transporta para os Talking Heads a religiosidade do “gospel”, a “country” e traços da magia de Nova Orleães. “Naked”, último álbum de originais, é a síntese triunfante, a cúpula do edifício que firmou na “new wave” os alicerces e teve na inquietação e constante procura de novas formas musicais (no estúdio, em África, no Brasil) que sempre caracterizaram David Byrne, as traves e paredes-mestras.

Fragmentos da América

Nova Iorque, a paranóia, as técnicas de “cut up” utilizadas pela primeira vez, ao nível das palavras, por Bryon Gisin, a América com todo o seu cortejo de bizarrias e personagens de anedota, confinadas a pequenas ou monstruosas esquizofrenias (uma América à beira da demência tornada em objecto deslumbrante no filme “True Stories”, realizado por David Byrne), as deformações (nos textos, nos vídeos, nas músicas), “ready mades” coloridos por histórias e episódios aparentemente sem sentido, o medo e a alegria disto tudo num caleidoscópio de emoções desencontradas passam pela obra dos Talking Heads, banda que, em paralelo com Laurie Anderson, foi dos grandes tradutores do lado oculto dos “States”.
Mas enquanto Laurie Anderson pinta o quadro em tons épicos, em telas monumentais que atingem a apoteose, no gigantesco manifesto que é a caixa de quatro álbuns, “United States”, os Talking Heads, muito por força da personalidade de Byrne, apresentam estilhaços, fragmentos de espelhos deformantes, notícias entrecortadas, uma visão fraccionada da realidade. Laurie e Byrne são ambos observadores. E conseguem ter uma visão aérea do território. Se a primeira capta a imagem completa, até ao céu, o segundo detém-se no pormenor, no pequeno objecto que se destaca na paisagem. Como acontece na descrição distanciada levada a cabo em “The big country”, do álbum “More Songs about Buildings and Food”. Pesquisadores de formas e princípios, procuraram novos ângulos de perspectiva. E novas formas de as dizer. Neste aspecto, os Talking Heads foram verdadeiramente cabeças falantes.
A lista completa de temas de “Sand in the Vaseline” é a seguinte: No primeiro compacto – “Sugar on my tongue”, “I want to live”, “I wish you wouldn’t say that”, “Psycho killer”, “Don’t worry about the government”, “No compassion”, “Warning sign”, “The big country”, “Take me to the river”, “Heaven”, “Memories can’t wait”, “I zimbra”, “Once in a lifetime”, “Crosseyed and painless”, “Burning down the house”, “Swamp”, “This must be the place (naive melody)”. No segundo – “Life during wartime – live”, “And she was”, “Stay up late”, “Road to nowhere”, “Wild wild life”, “Love for sale”, “City of dreams”, “Mr. Jones”, “Blind”, “(Nothing but) flowers”, “Sax and violins”, “Gangster of love”, “Lifetime piling up”, “Popsicle”.

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