Milton Nascimento – “Txai”

Pop Rock

17 ABRIL 1991

NASCIMENTO DOS ÍNDIOS

MILTON NASCIMENTO Txai
LP e CD, Columbia, distri. Sony Music

milton

Disco verde. Música ecológica. Ironia e cinismo à parte, ainda bem. “Txai” faz parte da campanha “Aliança dos povos da floresta”, coordenada pela UNI – União das Nações Indígenas. Ainda e sempre a questão da Amazónia e dos perigos que a ameaçam. O termo “txai” significa no idioma dos índios kaxinawa, habitantes do estado de Acre, “companheiro”, “aquele que é aliado da floresta” ou “a minha outra metade”. O encontro de Milton com os índios processou-se gradualmente, a partir de uma viagem descendente pelo rio Araguaia e do encontro com o Avá-canoeiro e do consequente interesse e audição de gravações com registos da música de diversas tribos índias, até à fundação, em 1989, da UNI. “Txai” sumariza e culmina este percurso.
Intercalados entre as canções de Milton, há excertos de música e cânticos da tribo, gravados ao vivo no interior da floresta – “Baümetóro”, “Hoeiepereiga”, “Curi curi” e “Baridjumokô”. Das canções do próprio Milton, melhores e mais inspiradas as do segundo lado do que as do primeiro, sobretudo “A terceira margem do rio”, “Benke” (com coro infantil) e “Sertão das águas”, pontuado pelo reflexo das percussões de madeira nas águas prateadas de um rio. Verifica-se nestes temas uma maior aproximação ao espírito da terra, nos registos vocais e instrumentais sincopados, formalmente experimentais e sobretudo possuídos por uma energia que está de todo ausente do primeiro lado, mais comercial e voltado para o mercado americano, onde, de resto, Milton Nascimento se sente particularmente à vontade. Anote-se o facto de todas as letras virem traduzidas em inglês.
Podendo considerar-se um típico produto de “música de fusão”, “Txai” mostra-se todavia ambíguo nos métodos utilizados. Se, por um lado, não são postas em causa a pureza de intenções subjacentes à sua feitura, por outro, os resultados, em termos exclusivamente musicais, deixam a desejar. Mas talvez algumas concessões à facilidade, nomeadamente os arranjos “americanos” do primeiro lado, sejam o preço justo a pagar pela difusão e acessibilidade da mensagem ecológica que se pretende alargada à escala planetária.
Uma multidão de músicos brasileiros e as orquestrações de Wagner Tiso conferem à obra a riqueza instrumental adequada à transposição sonora da profusão luxuriante da floresta tropical. “Txai” situa-se assim na confluência da cultura tecnológica da urbe ocidental com a matriz étnica tradicional dos grandes espaços amazónicos, sem que desse encontro (ao contrário da alquimia operada por Jon Hassell) resulte a criação de uma qualquer música do “quarto mundo”. ***

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