Folk Tejo – Festival de Folk em Lisboa

Pop Rock

27 MAIO 1992
SÓ CONCERTOS – JUNHO

FOLK TEJO

Finalmente Lisboa vai ter a sua grande festa de folk. Nos dias 1 e 2 de Junho, no Coliseu dos Recreios. A organização chamou-lhe “Folk Tejo” e é ela que abre as “Festas da Cidade”. Os preços variam entre os 1200 escudos, para a Geral, e os 12500 escudos, para um camarote de 1ª, para cinco pessoas. No Sábado: Maddy Prior, McCalmans, June Tabor e Davy Spillane. No domingo será dia dos portugueses Vai de Roda e Júlio Pereira, do brasileiro Paulo Moura e da banda americana Moore by Four. Considerada, ao lado da malograda Sandy Denny, uma das duas grandes vozes femininas britânicas do movimento revivalista folk dos anos 70, Maddy Prior viria a abandonar a banda que a celebrizou, os Steeleye Span (“Ten Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides again”, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues” ficaram para a história), para se dedicar a uma discreta carreira a solo, voltada para sonoridades progressivamente mais distantes da música tradicional. Nos últimos anos, a filha pródiga regressou ao lar e à música antiga, integrada nos Carnival Band, de “A Tapestry of Carols” (recolha de canções de Natal que remontam à Idade Média) e “Sing Lustilly & with Good Courage”, recuperação brilhante do ambiente palaciano e das danças da Renascença inglesa. Fundamentais são ainda os dois álbuns (com destaque para “No more to the Dance”) que, juntamente com June Tabor, gravou sob a designação Silly Sisters – duas vozes femininas irmanadas numa paixão comum pelas origens, magistrais no modo como ambas se harmonizam no canto dessa paixão.
June Tabor, que, de resto, estará também presente na festa. De voz mais contida e interiorizada que a da sua “irmã” Maddy, nem por isso deixou de desempenhar um papel fulcral no movimento do “folk revival” britânico. Vista nos meios folk como uma purista, o seu álbum “Ashes and Diamonds” causou escândalo na época (1977), devido à utilização descomplexada dos sintetizadores, hoje, para o melhor e para o pior, tornada usual. De entre um extenso e meritório currículo, salientam-se as participações no épico “The Transports”, de Peter Bellamy e “Till the Beast’s Returning”, de Andrew Cronshaw, bem como a parceria com Martin Simpson em “A cut above”. No seu disco mais recente (“Some other Time”), optou por um estilo “jazzy” e pela interpretação de alguns dos seus “standards”, com resultados duvidosos. No Coliseu, presume-se, será diferente.
Os escoceses McCalmans integram a segunda linha dos grupos folk britânicos, apesar de já contarem no activo com 17 álbuns. A sua música distingue-se pelos apurados jogos vocais e por uma rudeza estilística que os aproxima do som “pub” dos Dubliners ou dos Wolfetones. Ao vivo, podem tornar-se irresistíveis. De Davy Spillane, menino prodígio da gaita-de-foles, há quem o deteste e quem o venere. No primeiro caso estão aqueles que o acusam de perverter (a solo ou integrado nos Moving Hearts) o espírito celta, ao acrescentar-lhe a vergonha do “rock‘n’roll”, a crueza dos “blues” e a contaminação “country”, em álbuns como “Atlantic Bridge”, “Out of the Air”, “The Storm” ou o recente “Shadow Hunter”. No segundo caso, rejubila quem acha que deve ser assim, que o termo “celta” tudo engloba e que o mais importante é o facto de Spillane ser hoje um dos principais embaixadores da cultura irlandesa no mundo.
António Tentúgal e os Vai de Roda vão mostrar como se pode ser antigo, moderno, rural e urbano ao mesmo tempo e sem deixar de ser português. Lisboa vai poder deliciar-se ao vivo, pela primeira vez, com as histórias de “Terreiro de Bruxas”, que a banda portuense tão bem sabe contar. Júlio Pereira, acompanhado pela sua nova banda, trará para a cidade as suas paisagens pintadas nas “Janelas Verdes”. Paulo Moura, brasileiro, saxofonista, influenciado por Charlie Parker, mistura o jazz com ritmos rurais como a gafieira ou o chorinho. “Confusão Urbana, Suburbana e Rural”, título de um dos seus álbuns, ilustra nem tal atitude. Finalmente os Moore by Four, cinco instrumentistas e quatro vocalistas, de Minnesota, EUA, banda de “fusão” swingante, permeável ao “gospel” e à pop, que alguns comparam, na abordagem vocal, aos Manhattan Transfer. “Folk Tejo” – da tradição celta à tradição do “swing”.



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