Jorge Palma – “Só”

Pop Rock

22 MAIO 1991

MAIS VALE SÓ…

JORGE PALMA

LP/MC/CD, Philips, ed. Polygram

jp

“Só” recupera canções espalhadas ao longo da discografia do autor, aqui interpretadas “ao vivo” em estúdio, sem quaisquer disfarces de produção. Apenas a voz e um piano. E a força das canções. Das horas de estúdio, “demasiado íntimas, intensas, inefáveis”, recorda Jorge Palma uma frase do Zé Fortes, engenheiro de som: “Há duas maneiras de fazer isto – assim, ou então por quem sabe.” Jorge Palma optou por fazer “assim”. Opção que de imediato recorda aquela, semelhante, utilizada por Sérgio Godinho no duplo “Escritor de Canções”, em que também as canções eram revistas e reinterpretadas a partir de uma “redução” ao esqueleto melódico essencial, revalorizando a interpretação em detrimento da composição. As comparações com Sérgio Godinho são, de resto, inevitáveis. Não ao nível de analogias formais, antes no modo como ambos recuperam o estatuto de “contadores de histórias”.
Obviamente diferentes nas vozes e nos métodos, assemelham-se contudo no gosto pela palavra, na importância concedida ao verso, à rima, ao som da linguagem falada.
Sérgio parte sempre de uma situação de jogo, digamos, teatral, na construção de cadências linguísticas carregadas de sinais, fortemente sensíveis ao tecido imaginário social, porque firmemente ancoradas na linguagem comum, nas frases feitas, na poesia popular. Jorge Palma, embora não desdenhe o trocadilho nem o prazer da manipulação poética, mergulha um pouco mais fundo, privilegiando o diálogo com o espelho. Se as situações narradas pelo autor de “Pré-Histórias” acabam por ser de todos, vividas por personagens (reais ou não, é o que menos importa) perdidas entre misérias e alegrias que cada um de nós também viveu ou julga viver, Jorge Palma conta fundamentalmente a sua própria história, seja através de interiorizações metafísicas (características de toda a sua obra, desde os tempos em que a “trip” começava na palma da mão), ou na projecção de lugares ou situações aparentemente ligadas à “vida real”. Perspectiva que, em última análise, permite considerar “Frágil” ou o “Bairro do Amor” como metáforas geográficas dessa “Terra dos Sonhos” a que o compositor alude. O amor, a mulher, seja na figura de “Essa Miúda”, “feiticeira que prende a mente/fogueira que se acende em qualquer lugar”, ou personificada na “Estrela do Mar”, para quem “mil anos são pouco ou nada”, são mitificados – arquétipos do “eterno feminino”, demandado desde os tempos da gnose cátara pelos cavaleiros da “religião do amor”, da dama possível de encontrar no ovo alquímico da solidão. “O meu amor ensinou-me a partir/nalguma noite triste/mas antes, ensinou-me/a não esquecer que o meu amor existe.” Evidentemente, a música de Jorge Palma sempre teve que ver com a noção de “viagem” e com tudo aquilo que o termo sugere. Em “Só”, a viagem passa por algumas das maiores canções de sempre da música popular portuguesa – “Canção de Lisboa”, “Só”, “Bairro do Amor”, “À Espera do Fim” –, por uma maneira ímpar de cantar a solidão e os universos a que acede aquele que por ela se deixa enfeitiçar. Canções como “Frágil” ou “Deixa-me Rir” sobem momentaneamente à superfície, mais do agrado dos receosos que se recusam descer às profundidades interiores. Como pianista, Jorge Palma não parou de evoluir (a esse nível o disco constitui num prazer, a cada faixa renovado). Como cantor, soube conferir a “velhas” canções um toque de superior intimismo. “Só” revela, de forma luminosa, um dos poucos trovadores dos tempos modernos que atingiu a plena maturidade, sem perder aquele espírito juvenil que, ao longo da vida, concede o dom e a liberdade de saber voar. ****



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