Resistências: José Mário Branco – “Correspondências” + Janita Salomé – “Cantar À Lua”

Pop Rock

6 MARÇO 1991
LP’S

RESISTÊNCIAS

JOSÉ MÁRIO BRANCO
Correspondências
LP, MC e CD, UPAV

jmb

JANITA SALOMÉ
Cantar à Lua
LP / MC / CD, Edisom

janita10

Multiplicam-se as edições discográficas nacionais de obras não directamente relacionadas com o rock. Cantores/compositores como Sérgio Godinho e José Mário Branco voltam a ser referidos de igual para igual com os músicos rock. A música tradicional ganha novo fôlego (Vai de Roda, Cantares do Manhouce). Como se de repente se alargassem as fronteiras do mundo. Ou as vistas se tornassem menos curtas. Mais interessante ainda: os discos vendem-se.
Foi preciso esperar quase dois anos até “Correspondências” estar finalmente disponível nos escaparates. As multinacionais ignoraram sistematicamente o projecto. Não acreditaram num músico, José Mário Branco, de créditos firmados e justamente reputado com um dos grandes compositores e arranjadores da moderna música popular portuguesa. O disco saiu agora com o selo UPAV, cooperativa cultural de que o próprio é fundador e membro activo.
“Correspondências”, gravado em 1989 no Angel Studio, assinala uma mudança significativa no percurso do autor e particularmente em relação ao seu anterior trabalho, “A Noite”. Para trás ficou o tom épico-dramático do longo tema que dava nome a esse disco ou a raiva e lucidez do manifesto “FMI”. José Mário Branco pôs a correspondência em dia, através de dez canções dirigidas a outros tantos destinatários: Daniel Filipe, José Afonso, Hannah Arendt, Chico Buarque, Anton Tchekov, a si próprio e aos netos, ao misterioso J.C. e ao prosaico sr. Silva. Palavras certas. Palavras cortantes. Populares umas, outras distantes. Entre a fábula acerca da mediocridade que é “Diminuendos”, contando a história do leão que aos poucos se transformou em formiga e a distanciação apaixonada de “Emigrantes da quarta dimensão”.
A voz – a mesma de sempre – mais madura, pausada, sem a rouquidão demencial de “A Noite”. Continua mestre na arte dos arranjos, na maneira de tornar mais bela uma canção. Excelente e conciso todo o trabalho efectuado no computador (“Dairinhas”, “Diminuendos”, “Shalom Palestina”, “Cada dia são cem”). Tudo encaixa sem esforço no lugar certo – a introdução pianística de Mário Laginha em “Emigrantes da quarta dimensão”, os coros elegíacos de “Zeca”, o evocativo solo de sax de Paulo Curado em “Sentido único”, os diálogos violoncelo/flauta (tocados respectivamente por Irene Lima e Ricardo Ramalho) em “1900” e das guitarras em “Quando eu for grande” (por José Peixoto e Júlio Pereira). José Mário Branco permanece ao lado das modas e à frente na luta contra o derrotismo e a contemporização. Recados por carta a quem os souber ler.
“Cantar à Lua”, de Janita Salomé, não pretende ser mais do que aparenta: álbum de fados (como já havia sido o anterior, “Melro”) e alguns temas tradicionais, acompanhados à (apenas) guitarra, (António Brojo e António Portugal) a que falta o intimismo contido da saudade e da escuridão das vielas, substituídos pelas grandes extensões queimadas e solares ou a placidez das noites enluaradas do planalto alentejano, presentes na voz e no canto pujantes de Janita. Disco afastado do gosto das massas. Disco contido e sentido nos propósitos, sincero no modo com os traduz. Faz apetecer o verão. Desejos à luz branca e crua, quando o mundo cala e a alma se liberta, nua, para lá dos montes e da Lua.



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