Pluramon – “Bit Sand Riders” (conj.)

08.12.2000

Pluramon
Bit Sand Riders
Mille Plateaux, distri. Ananana
8/10

The Tied + Ticked Trio
EA1 EA2 RMX
Morr Music, distri. Ananana
8/10

O Gabinete do Dr. Frankenstein

LINK (“The Monstrous Surplus” – 2007)

Bem vindos ao salão de espelhos das remisturas. Depois do produtor e do dj, é a vez do remisturador se assumir como o novo demiurgo, qual dr. Frankenstein capaz de insuflar vida a mostros, com a diferença de que, neste caso, não se trata de corpos mortos mas de criaturas bem vivas (exceptuando Jim O’Rourke que em “Rien” ressuscitou o cadáver dos Faust…). Há quem se oponha, como J. Swinscoe, dos Cinematic Orchestra, e quem ferre com brasão próprio a carne alheia, como Autechre, Atom Heart, Photek ou Kruder & Dorfmeister. Mas quando ao laboratório do remisturador chegam entidades complexas como os Pluramon, a tarefa do mago revela-se tanto mais estimulante quanto complicada.
O objecto em questão chama-se “Bit Sand Rider” e reúne remisturas de temas dos álbuns “Render Bandits” e “Pickup Canyon” da banda de Marcus Schmickler, com a lista de remisturadores a apresentar os Sensorama, Mogwai, Florian Hecker, Atom Heart, The High Llamas, Lee Ranaldo, Matmos, SND, FX Randomiz, Merxbow e os próprios Pluramon. Entre os reactores fractais dos Sensorama e as guitarras ambientais pós-rock dos Mogwai, o paisagismo digital de Hecker e as pulsações surpreendentemente rock de Atom Heart, a recusa do easy-listening dos High Llamas e o tom Faustiano com dub de cristal de Lee Ranaldo, o drum ‘n’ bass da central eléctrica dos Matmos e o swing torococoiano dos SND, a electrónica residual de FX Randomiz e o noise industrial dos Merzbow, “Bit Sand Riders” prolonga a sensibilidade pós-pós-rock dos Pluramon através dos meandros de um experimentalismo marcado por uma abordagem orgânica plenamente interiorizada da parte de todos os intervenientes.
O caso dos Tied + Ticked Trio é diferente. Não se trata aqui de remisturas mas de versões de temas do álbum do ano passado desta banda alemã, “EA1 EA2”, cujo Jazz electrónico se estende até às margens mais insuspeitas. Se as paráfrases dos Opiate se mostram inofensivas, já o desempenho de Christof Kurzman – com uma recuperação do “sinfonismo” saxofonístico dos Urban Sax transposto para o jazz galáctico dos Orchester 33 1/3 – se revela absolutamente estimulante. Max Ernst (leia-se Thomas Brinkmann,…), o único com participação dupla no disco, opta num dos temas pelo “dub” e no outro por uma tecno a duas velocidades, em ambos os casos, como sempre, atirando-as de encontrão para a pista de dança. Pós-house introvertida, com vibrafones a ecoar secretamente é a proposta dos Console, o groove electrónico em contraste com o jazz livre de Weschel Garland (o homem por detrás dos Winder) onde as vozes, o saxofone e de novo o vibrafone discorrem suspensos no espaço. Kandis (de Jens Messel, dos Fumble) remete sem surpresas para a electrónica lúdica que actualmente prolifera na Alemanha para finalmente Gustavo Lamas, da escola electrónica argentina (consultar a colectânea “Elektronische Musik aus Buenos Aires”) fazer as vezes de Thomas Brinkmann, embora sem o golpe de asa do mestre.
Dois álbuns com matéria fértil para reflexão que acima de tudo constituem uma imensa fonte de prazer.

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