Gaiteiros de Lisboa – Bocas do Inferno

28.11.1997
E Que Tudo Mais Vá Para O Inferno
Gaiteiros de Lisboa
Bocas do Inferno (9)
Ed. e distri. Farol

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Bárbaros! O grito saiu de algumas bocas mais angustiadas pela audição do álbum de estreia dos Gaiteiros de Lisboa, “Invasões Bárbaras”, ao repararem que o mundo da música tradicional já não era redondo. Bocas do inferno. Os Gaiteiros não se ralam, inventando as regras musicais porque se regem, instrumentos do demo e todo um imaginário elaborado a partir de uma memória colectiva forçosamente contaminada. Este espírito de transgressão, que de imediato remete para o arquétipo localizado no Norte da Europa nos suecos Hedningarna – presente, mais do que no “fait divers” do uso de instrumentos mutantes, na construção de harmonias vocais, entre a polifonia pura e a “drone” – manifesta-se, contudo, neste segundo álbum da banda de uma forma mais subtil do que em “Invasões Bárbaras”, cuja prioridade máxima foi o estabelecimento de um espaço novo na música portuguesa de raiz tradicional.
“Invasões Bárbaras”, pela originalidade da sua proposta e pelo consequente risco nela envolvida, foi obrigado a forçar as portas, entrando de supetão e assumindo-se como manifesto. “Bocas do Inferno” surge já com o caminho aberto pelo reconhecimento, da parte do público, das regras e funções que regem a conduta estética dos Gaiteiros. Com este reconhecimento surgiu a tranquilidade. Por isso, “Bocas do Inferno” trocou, de forma feliz, a tensão e a explosão por uma articulação mais complexa e menos impositiva do som, atenuando-lhe os extremos mas ganhando na elaboração de novas pistas sonoras, algumas das quais simplesmente deslumbrantes. Como se os Gaiteiros tivessem deixado de habitar um castelo, para ocuparem um palácio, dedicando todo o tempo a mobilá-lo e decorá-lo.
Em termos vocais, as polifonias sintetizam o que há de mais arcaico na tradição das músicas antigas com a sofisticação que resulta da tal contaminação do tempo – pela tecnologia, pela saudável “impureza”dos ouvidos, pela assimilação da História e pela atenção a uma nova sensibilidade na forma de perceber o legado tradicional. Dois exemplos: “Leva leva”, conectando o Algarve a Trás-Os-Montes, ostenta o selo Hedningarna mas também, na alusão a um ritual da pesca, o mesmo balanço de ondas recriado por José Mário Branco em “Cantiga de alevantar”, provando que as marcas deixadas por este músico nos Gaiteiros fizeram alguns sulcos; “Milho grosso”, tema popular da Beira-Baixa, ganha, por seu lado, as cores africanas de umas marimbas e de um tambor de cordas, formulando um enunciado “world music”.
Esta simbiose do antigo e do novo, das raízes e da inovação, está também presente nas composições dos dois Gaiteiros que, neste segundo álbum, se destacam como os pólos criativos do grupo: Carlos Guerreiro e José Manuel David. É algo que se torna evidente em “Triângulo mângulo”, do primeiro, uma polifonia estruturada com requinte, e “Agora que eu vou cantar”, do segundo, “cante” alentejano transformado, paradoxalmente, em cadência sideral e em refúgio uterino no ventre se uma sanfona.
De um registo ainda mais contemporâneo e, suspiro, pós-moderno nasce “Trompa da moda”, a meio caminho entre o progressivo-urbano de uma trompa e o verde de uma gaita galega. “Segadinhas”, um instrumental com base num tema popular de São João do Campo, na Serra do Gerês, deve ouvir-se muitas vezes, com devoção. Os sinos repicam no remanso do silêncio.
“Ciau xau Macau” e “Wash post”, um original do compositor norte-americano John Philip Sousa, introuzem uma nota de humor que mais não é senão outra forma, esta socialmente aceite, de transgressão. Vozes chinesas, flauta chinesa, tambor chinês, pratos chineses, tamborete chinês, “shawn” (da família das bombardas) chinesa. Anabela Assis á a “China Girl” de serviço. O final tem foguetes. “Ciao xau Macau”, até à vista. A marcha de Philip Sousa é um brinquedo nas mãos dos Gaiteiros, que nem os Residents…
Bem português e mais ortodoxo é “Folia do Espírito”, recolhido pelos Gaiteiros nos Açores. Se neste tema a cromorna é utilizada como simples ornamento, já no tema seguinte, “Cromorna”, ocupa o centro das atenções, inserindo-se na vertente da “música antiga”, cada vez entendida como uma espécie de raiz nobre da “folk2. “Condessa”, um original de Carlos Guerreiro sobre um romance popular de Lisboa, é pura sátira. Instrumental, ao modo dos Incredible String Band (sons de vina dragão, serafina, flauta de bisel…), e textual, fazendo reviver o espírito (já não era sem tempo) da ilustre Filarmónica Fraude. “Nós daqui e vós dali” (Trás-Os-Montes) traz a ancestral combinação dos bombos, paus e gaita-de-foles, sem ferir susceptibilidades. E a reforçar esta nota de uma certa condescendência com a delicadeza, as derradeiras bocas não vêm do Inferno. Ou talvez venham. Malditas chulas que não nos largam. Não largaram nem os Gaiteiros de Lisboa, só que a sua “Chula gaiteira” tem a dedicatória a Zeca Afonso e ri-se de si própria, com uma espécie de pregão a publicitar o disco. Leve agora e pague depois Não perca esta oportunidade… Gaita!

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