Arquivo mensal: Julho 2020

Lounge Lizards – “Berlin, 1991, Part I”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 17.06.1992


LOUNGE LIZARDS
Berlin, 1991, Part I
CD VeraBra, distri. Contraverso



Berlim é verdadeiramente uma cidade mágica. É raro o disco em que a cidade esteja presente, como local de gravação ou fonte de inspiração, que não seja uma obra superlativa, numa linha histórica iniciada com “Berlin”, de Lou Reed, prosseguida com a trilogia de Bowie, “Low” / “Heroes” / “Lodger”, “The Idiot” e “Lust For Life”, de Iggy Pop, um punhado de Nick Caves e a banda sonora de “Les Ailles Du Désir”, e que atingiu o zénite de novo em “Berlim”, desta feita pelos Art Zoyd. Os Lounge Lizards, de John Lurie, não fogem à regra e assinam, neste registo ao vivo das actuações do grupo na sala “Quartier Latin” daquela cidade alemã, um dos seus melhores álbuns, ao nível dos anteriores “No Pain for Cakes” e “Voice of Chunk”.
Considerados praticantes de um jazz híbrido conotado com a “downtown” de Nova Iorque, os Lounge Lizards passeiam-se com inusitada frequência por alamedas laterais como o cabaré, os ritmos latinos e o rock de feição libertária. Em “Berlim 1991”, o swing está sempre presente, arredado que foi o discurso fragmentário do guitarrista Marc Ribot, que por sua vez substituíra Arto Lindsay nas formações prévias dos Lizards. Michael Blake ajuda Lurie nos saxofones, um Lurie que, logo na abertura, pega no sax alto electrificado e toca um solo de forma estranha, num jogo surreal com a bateria, a querer mostrar que não é tão mau executante como alguns pretendem fazer acreditar. Brilhante de lirismo é Bryan Carrott, no longo solo de marimba de “Not a rondo”, um entre outros exemplos que deixam patentes as virtualidades técnicas de todos os instrumentistas. Imparáveis de energia, imaginação contrapontística e uma boa dose de humor, os Lounge Lizards não param de surpreender pela positiva. Aqui, com Berlim a ajudar. (8)

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Mari Boine Persen – “’Pela Terra E Pela Gente’ Em Belém – Mari Boine Persen Toca No Molhado”

Cultura >> Terça-Feira, 16.06.1992


“Pela Terra E Pela Gente” Em Belém
Mari Boine Persen Toca No Molhado


Podia ter sido uma noite em cheio. Foi quase um desastre. A chuva que caiu durante a tarde estragou tudo. S. Pedro não gosta de música tradicional.

Não há música que resista ao que aconteceu domingo à noite no relvado em Belém, Lisboa. Nem música, nem paciência. Foi antes do concerto “Pela Terra e pela Gente”, uma organização conjunta da Etnia e da Oikos, que a calamidade aconteceu. Estava previsto começar às 21h00 mas a chuva que caiu durante a tarde encarregou-se de destruir as ilusões. No Porto, na véspera, pela mesma razão, nem chegou a haver concerto. Mário Alves, da Etnia, visivelmente nervoso, levava as mãos à cabeça e queixava-se das condições atmosféricas: “Parece que nos rogaram uma praga”. Cabos encharcados, microfones avariados, não havia aparelhómetro eléctrico que não desse de si.
Era a vingança da natureza contra a técnica, num concerto marcado desde o início pelas contrariedades. Cerca das 22h30, hora e meia depois da hora prevista, a apresentadora de serviço anunciava, numa voz estridente de trompete, suficiente para romper mais um bocadinho da camada de ozono, o primeiro grupo da noite, os portuenses Toque de Caixa, aproveitando para proferir inanidades do tipo “a música pode ter o sabor e o paladar da festa”. Antes acontecera uma largada de balões e, de tarde, uma marcha e uma caravana ecológica. É bom fazerem-se estas marchas e caravanas. Fizessem-se outras por esse mundo fora a ver se o problema ambiental não se resolvia num instante.

Não Há Terra Que Resista

A música começou mal, sem “sabor nem paladar a festa”. Com os Toque de Caixa, versão “Vai de Roda” dos pequeninos (alguns músicos dividem-se pelas duas bandas) que, mal servidos por condições sonoras deploráveis conseguiram mesmo assim ser ainda piores que o som. Tocaram tradicionais portugueses e assassinaram outro, irlandês – com muito cuidado para não se enganarem – e explicaram algunstemas. De forma sucinta mas bastante clara: “um bolero é um bolero”; “’Lama grande’ é inspirado num lugar ali prós lados…”. A organização, numa atitude de louvar, fez-lhes sinal para se apressarem, até porque a hora já ia adiantada e a paciência ameaçava esgotar-se. Eles, embora contrafeitos – “ficávamos a tocar aqui toda a noite” – lá se retiraram, a toque de caixa. Com música desta não há Terra nem gente que resista. A partir daqui foi sempre a despachar. 20 minutos para cada grupo, numa tentativa contra-relógio de conseguir que a estrela da noite e da Lapónia, Mari Boine Persen, tocasse antes das cinco da manhã.
Vieram a seguir os Caliche, do Chile. Não adiantaram (até atrasaram) nada aos “clichés” conhecidos da música dos Andes. Flautas de Pã, aquele tema de que ninguém recorda o nome (assim: “turiruriru tu turiruru”) mas que não sai da cabeça, tudo junto, mais o adiantado da hora, irritaram enormemente quem era suposto ter de levantar-se na manhã seguinte para trabalhar e não desistia de ver a lapona (é assim que se diz?). Rápido, os seguintes!

Estóicos

Os seguintes fizeram esquecer todas as infelicidades da noite. Diely Seckou e a mulher, Ramata Kouyaté, acompanhados de dois fabulosos percussionistas, Lansine Kouyaté (tocou com Salif Keita) e Djeli Moussa Cissoko (faz parte do grupo de Mory Kanté, integrou os Toure Kunda) trouxeram a África a Belém. Música hipnótica, calorosa, elemental. As vozes de vento entrelaçando-se nas madeiras em vibração do balafão (xilofone africano), no ritmo riquíssimo de pormenores contrapontísticos, de fazer corar o conceptualismo dos minimais repetitivos. Seckou e Ramata fizeram mais pela terra do que quaisquer palavras. Não é a gramática, é a sintonia, a simpatia, a consonância.
Faltavam quinze minutos para a uma da manhã, quando Mari Boine Persen arribou ao palco e era já muito o cansaço das escassas dezenas de resistentes que, a pé firme ou sentados na relva, aguentaram, estóicos, a mensagem vinda da Lapónia. Acompanhada por um baixo eléctrico, um guitarrista que a dada altura resolveu ser Jimi Hendrix, uma flauta e percussões variadas, Mari Boine procurou, com relativo sucesso, recriar os ambientes carregados de mistério do álbum “Gula Gula”. Mas também nela o cansaço era notório. E a desmotivação de actuar para uma plateia tão reduzida. A voz esteve mais apagada que no disco, as tonalidades sombrias da maior parte dos temas também não ajudaram a levantar os ânimos. Todos queriam voltar para casa o mais depressa possível. Mari Boine despediu-se, agradeceu a quantos permaneceram até ao fim e deste modo se esfumou o que poderia ter sido uma noite em cheio. Não o quis S. Pedro, sab-se lá porque carga de água.

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Vicente Amigo – “Guitarrista De Flamenco Actuou Em Lisboa – Ay Amigo!”

Cultura >> Segunda-Feira, 15.06.1992


Guitarrista De Flamenco Actuou Em Lisboa
Ay Amigo!


NO SÁBADO À NOITE, o S. Luiz encheu-se de um público ávido de se impregnar dos calores do flamenco. Vicente Amigo trouxe consigo o virtuosismo e o “feeling” que são condimentos necessários neste género musical. Ninguém ficou desiludido. Vicente foi deveras amigo e suou as estopinhas, arrancando da guitarra chispas do genuíno fogo cigano, que é onde lhe corre o sangue e a inspiração, ao estilo jazzístico que lhe é habitual. Tocou alguns temas sozinho. Outros em duo com o percussionista Patricio Camara (bateu as típicas palmas do flamenco, em contratempo e batucou num caixote de madeira, estilo gaveta, sobre o qual estava sentado). Outros ainda com um segundo guitarrista-flautista e batedor de palmas, José Manoel Hierro, e um cantor, José “qualquer coisas”, não se percebeu o apelido – Vicente fez as apresentações num castelhano falado para dentro e pouco compreensível.
O canto é, de resto, um dos principais atractivos do flamenco, dada a sua grande variedade e riqueza literárias: “ay ay ay ay”, por vezes “ay ayay ayayay”, outras ainda “ayay ayaya ay” e por aí fora, num arrebatamento poético sem limites. Falando a sério: trata-se de um canto que vive da expressão, do grito, do sopro interior, da raiva e da dor. Canto do sangue, da terra, do pranto. Tatuado a fogo na alma cigana.
Numa série de temas, juntou-se ao quarteto um quinto elemento, um dançarino que sacudiu com virtuosismo o pó do palco. Sapateou, pontapeou o ar, meneou-se como só os dançarinos de flamenco sabem. Ergueu os braços ao céu e lidou a fera imaginária, qual toureiro a desafiar o destino. Deu show e recebeu em troca “olés” e “bravos”. Não cortou orelhas nem rabos mas acabou em glória a faena. Houve quem suspirasse pela falta de um elemento feminino, de cabelo negro, lábios e vestidos vermelhos de cortar o fôlego. Faltou “salero”.
Houve flamenco-jazz em grande estilo. Casamento inevitável, tendo em conta o factor improvisação que habita na música cigana. Poder-se-á até dizer que é o jazz e alguns dos seus guitarristas que vão beber a esta fonte. Lembremo-nos de John McLaughlin ou Al Di Meola, já para não falar de Django Reinhardt. Vicente Amigo segue na senda dos mestres. Nas cordas da sua guitarra o flamenco projecta-se no futuro. Ay.

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