Arquivo mensal: Maio 2020

K. D. Lang – “Ingénue”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.04.1992


ÂNIMA OU (DES)ANIMUS, EIS A QUESTÃO

K. D. LANG
Ingénue
LP / CD, Sire, distri. Warner



Depois de se afirmar como um dos maiores nomes da country actual. K. D. Lang desfez todas as dúvidas e arrasou com todos os preconceitos. Para ela, Nashville e a country acabaram. “Ingénue” é um disco de emoções à flor da pele, de relações perdidas e reencontradas no deserto das grandes desolações interiores. E uma voz fabulosa embalada por arranjos capazes de provocar um pranto convulsivo nas almas mais sensíveis. “Anima” ou “animus” eis a questão.
Para K. D. Lang, é irrelevante em que lado da barricada do amor se está. O problema é a barricada dos desânimos. O problema é K. D. Lang, quando canta: “something in me puts love into fear”. Ancorando em influências como Peggy Lee, Julie London e Carmen McCrae, o ambiente de “Ingénue” só encontra paralelo recente em Mathilde Santing (de “Water under the Bridge”) ou na operacidade dramática de Marc Almond, sem esquecer Marianne Faithfull, que por vezes também chora assim. Os violinos e as cordas são cascatas lacrimejantes. Há acordeões parisienses, Marlene Dietrich, ecos de Joni Mitchell e uma “pedal steel” tão vasta e profunda como um oceano.
Orquestras de nevoeiro dão lugar a sombras “jazzy” nos bares onde a noite é mais fria. “My body’s frozen and my heart is cold” é um entre muitos versos que ajudam a compreender um álbum triste, sobre experiências amorosas ou a “ausência delas” – como refere a cantora -, o que é ainda mais triste. Um vale de lágrimas servido em cálice de cristal. (9)

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John Zorn – “Film Works, 1986-1990” + God – “Possession” + The Carl Stalling Project – “Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.04.1992


A CÂMARA ASSASSINA e outros desenhos animados

JOHN ZORN
Film Works, 1986-1990 (8)
CD, Elektra Nonesuch, import. Contraverso

GOD
Possession (7)
CD, Venture, distri. Edisom

THE CARL STALLING PROJECT
Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958 (7)
CD, Warner Bros., import. Contraverso



A música de John Zorn é por natureza cinematográfica. O saxofonista e compositor inglês disseca os sons, retalha-os e reconstrói-os segundo um processo de montagem em tudo semelhante ao do cinema. Sobretudo desde “Big Gundown”, Zorn tem vindo a entregar-se a um meticuloso reprocessamento sonoro de variadíssimos estilos e “inputs” musicais que, ao invés de tenderem para sínteses aglutinadoras, disparam em vertigem centrífuga, em direcção a uma “micro-música”, chamemos-lhe assim, de ampliação e revalorização de pormenores. Como se a Zorn interessasse estudar o filme, fotograma a fotograma. Estética de fragmentação já presente em obras como o citado “The Big Gundown” (ainda sustentada pelas partituras de Ennio Morricone) e “Spillane” (outra referência explícita ao universo cinematográfico, neste caso ao “filme negro”), na longa dissertação sobre Godard incluída no álbum de homenagem a este cineasta, editado pela Nato, e finalmente levada ao extremo na autodevoração de “Naked City” e “Torture Garden”. “Film Works” reúne as bandas sonoras compostas por Zorn para os filmes “Hite and Lazy”, de Rob Schwebwr, “The Golden Boat”, de Raul Ruiz, e “She Must be Seeing Things”, de Sheila McLaughlin, e uma versão “pastische” de “The Good, the bad and the ugly” para um anúncio da Camel. As imagens sonoras de Zorn são sinónimo de agressão. O desenho da capa – uma câmara que é ao mesmo tempo um revólver (símbolo / ícone já anteriormente presente em “Spillane”, “Deadly Waepons”, com Steve Beresford e David Toop, e “Naked City”) – ilustra bem o modo como o filme roda no cérebro do seu autor. Mais próximo de “Big Gundown” e “Spillane” do que das torturas sónicas dos Naked City, “Film Works” apresenta-se ainda como uma série de exercícios exploratórios sobre linguagens musicais autónomas (blues, country, jazz, ambiental, no caso das composições para Raul Ruiz, reproduzidas sob a forma de “géneros” anedóticos e arquivadas em títulos como “Jazz oboés”, “Horror organ”, “Slow” ou “Rockabilly”), com a diferença de que aqui cada um deles se compartimenta e arruma num tema específico, com tempo e espaço. Suficientes para respirar. Como se desta feita Zorn (acompanhado pela “troupe” do costume: Robert Quine, Arto Lindsay, Carol Emanuel, David Weinstein, Ned Rothenberg, Frissell, Previte, etc.) optasse por escrever o índice completo e detalhado da sua obra, de modo a facilitar ao ouvinte a decifração do labirinto. John Zorn figura como músico convidado em “Possession”, embora em termos sonoros os God não se afastem em demasia do universo estético / terrorista dos Naked City, com quem partilham uma especial preferência pelas virtudes do sadomasoquismo. No folheto interior, entre corações de metal, máscaras e vísceras sortidas, os God deixam clara a imagem que fazem do amor: “Being person who is owned and fucked becoming someone who experiences sensuality in being possessed.” Aqui o filme é de horror e o som abrasivo, feito de massas sonoras em descargas contínuas de ódio e distorção. De “Fucked “ e “Return to hell” a “Soul fire” e “Hate meditation”, os God mostram que são feios, porcos e maus. Registe-se como curiosidade a inclusão no grupo de Tim Hodgkinson, que integrou a formação original dos Henry Cow e agora se vê metido no inferno. Antecedente principal e referência paradigmática das estratégias Zornianas, a obra de Carl Stalling prefigura-se, entre os anos 30 e 50, como uma das mais revolucionárias da época na América. Vinte e poucos anos ao longo dos quais Stalling compôs as bandas sonoras para os desenhos animados de Tex Avery para a Warner. “The Carl Stalling Project” reúne gravações originais dessa era dourada da animação. Cinco anos antes da sua morte, referia-se nestes termos ao cinema de animação actual: “Têm tantos diálogos que a música deixa de ter significado.” Entre as tropelias de Bugs Bunny e Duffy Duck, a música destas pequenas sinfonias delirantes congrega em segundos toda a história da música americana que vai de Ellington a Copland, de Ives a Cage, intercalada pelo “Mickey mousing” – termo técnico que designa os ruídos onomatopaicos que acompanham a acção e os distúrbios das personagens animadas.

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Bleizi Ruz, De Danann – “Irlandeses De Danann Dão Festival De Virtuosismo No Último Dia Do Intercéltico – A Alegria E A Fúria Vieram Do Mar”

Cultura >> Segunda-Feira, 06.04.1992


Irlandeses De Danann Dão Festival De Virtuosismo No Último Dia Do Intercéltico
A Alegria E A Fúria Vieram Do Mar


Bleizi Ruz e De Danann fecharam em força e com virtuosismo o Festival Intercéltico que durante três dias decorreu na cidade do Porto. Portugal, Galiza, Astúrias, Bretanha, Inglaterra e Portugal foram os pólos de um mundo nascido do mar e de um tempo que teimam em permanecer vivos. Cumpriu-se o ritual.



Sábado, derradeira noite do Intercéltico. Últimos folguedos. Festa em que estiveram presentes os sons do mar, as pulsações da Natureza que firma os corpos e os sonhos que rompem o futuro. Lotação esgotada. Que chamamento ou chama atrai o homem para estas músicas que o tempo poliu? Entusiasmo. Celebração. Ritual. Os Bleizi Ruz vieram da Bretanha e da chuva. Os Beleizi Ruz gostam e desejam a chuva – disseram-no em palco. Eric Liorzou, Loic LeBorgne, Bernard Quillien e Philippe-Janvier deram início à função com um “laridé” e nunca mais pararam. Mantiveram-se mais fiéis à Bretanha do que o seu álbum ao vivo, “En Concert”, deixava adivinhar. As passagens, esperadas, pelo “cajun” e pela música dos Balcãs enriqueceram um concerto do qual o mínimo que se poderá dizer é que foi vibrante.
Philippe Janvier e Bernard Quillien dialogaram, lutaram e quase rebentaram as bochechas na estridência das bombardas. Luc Lierzou cruzou-se com elas em ritmos e síncopes impossíveis arrancadas da guitarra. Loic Leborgne deu “show” no acordeão diatónico com ligação MIDI, o que lhe permitiu, por exemplo, imitar o som de uma harpa. Quillien, sempre bem-humorado, contou histórias – sobre ciclistas ecológicos, casamentos regados com Ricard e cabeças cortadas servidas em Jerusalém. Houve espaço para “mensonges” intimistas e para os delírios de um saxofone baríotono soprado por Janvier. Respirou-se chuva e sol. Subiu-se às montanhas da Bulgária e da Roménia. No final, os quatro músicos improvisaram sobre cadências bretãs. A gaita-de-foles irrompeu, um pouco fora de tom, em diálogo com a bombarda. O “kan há Diskan”, de canto e resposta, também fez a sua aparição, extrovertido, vibrante, afirmativo da individualidade linguística e cultural da Bretanha.

Irlanda Em Ritmo De Loucura

Sobre os De Dannan é difícil transcrever o virtuosismo instrumental e a “fúria” criativa de todos os seus elementos. Frank Gavin faz do violino um brinquedo cujas cordas parecem não conhecer limites. O violino arde literalmente nas suas mãos, e salta, mergulha, esgueira-se e incendeia o resto da música. Frank disse piadas, riu-se e gozou com os guinchos de “yeahouyupiuoiu” da assistência. Nota de apreço ao público que, desta vez, esteve muito bem. Riu nas alturas certas e não bateu escusadas palmas (fora de) compasso. Apenas os guinchos “yeahouyupiuoiu” não terão tido a pronúncia correcta, como, de resto, os músicos foram os primeiros a assinalar. Mas, na generalidade, não desiludiu.
Regresso aos De Dannan para mais um pouco de entusiasmo crítico: espantosa a “conversa” rendilhada mantida entre o bouzouki de Alec Finn e a guitarra desse grande senhor que é Arty McGlynn. E que dizer do solo de “bodhran” (instrumento de percussão) de Colin Murphy? O melhor é nem dizer nada, só visto e ouvido, para perceber como é possível criar melodias com um osso a bater numa pele. Frankie Gavin juntou-se-lhe num solo de “tin whistle” de cortar a respiração (principalmente a do próprio músico que, exagerando um pouco, não terá afastado os lábios do pequeno tudo metálico durante quase cinco minutos). Mais discreto mas não menos eficaz, Aidan Coffey manteve a máquina em andamento com o seu acordeão, embora neste caso, não fosse possível afastar o fantasma de mestre Mairtín O’Connor.
Claro que houve uma cantora. Os De Danann jamais dispensaram uma voz feminina, nos já longos anos que levam de carreira. Eleanor Shanley não terá feito esquecer a profundidade de uma Dolores Keane (ainda é novita, com os anos vai lá) mas saiu-se bem. Cantou sem fífias um difícil tema a solo, outro de Dylan e as tradicionais baladas de descanso entre a vertigem dos “reels”, “jigs” e “hornpipes”, (escolhidos na maioria do álbum recente “1/2 Set in Harlem”) que para qualquer cantora irlandesa que se preze são canja.
Fechou com loucura o Intercéltico: no “encore”, ao som de “Hey Jude” dos Beatles que deu lugar a nova sequência endiabrada de danças. O público pediu mais mas já se fazia tarde. O ciclo céltico dava a volta completa e de novo se abria em espiral. Até ao próximo ano, com a promessa de uma semana irlandesa.

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