Arquivo mensal: Maio 2020

Bleizi Ruz, De Danann – “Irlandeses De Danann Dão Festival De Virtuosismo No Último Dia Do Intercéltico – A Alegria E A Fúria Vieram Do Mar”

Cultura >> Segunda-Feira, 06.04.1992


Irlandeses De Danann Dão Festival De Virtuosismo No Último Dia Do Intercéltico
A Alegria E A Fúria Vieram Do Mar


Bleizi Ruz e De Danann fecharam em força e com virtuosismo o Festival Intercéltico que durante três dias decorreu na cidade do Porto. Portugal, Galiza, Astúrias, Bretanha, Inglaterra e Portugal foram os pólos de um mundo nascido do mar e de um tempo que teimam em permanecer vivos. Cumpriu-se o ritual.



Sábado, derradeira noite do Intercéltico. Últimos folguedos. Festa em que estiveram presentes os sons do mar, as pulsações da Natureza que firma os corpos e os sonhos que rompem o futuro. Lotação esgotada. Que chamamento ou chama atrai o homem para estas músicas que o tempo poliu? Entusiasmo. Celebração. Ritual. Os Bleizi Ruz vieram da Bretanha e da chuva. Os Beleizi Ruz gostam e desejam a chuva – disseram-no em palco. Eric Liorzou, Loic LeBorgne, Bernard Quillien e Philippe-Janvier deram início à função com um “laridé” e nunca mais pararam. Mantiveram-se mais fiéis à Bretanha do que o seu álbum ao vivo, “En Concert”, deixava adivinhar. As passagens, esperadas, pelo “cajun” e pela música dos Balcãs enriqueceram um concerto do qual o mínimo que se poderá dizer é que foi vibrante.
Philippe Janvier e Bernard Quillien dialogaram, lutaram e quase rebentaram as bochechas na estridência das bombardas. Luc Lierzou cruzou-se com elas em ritmos e síncopes impossíveis arrancadas da guitarra. Loic Leborgne deu “show” no acordeão diatónico com ligação MIDI, o que lhe permitiu, por exemplo, imitar o som de uma harpa. Quillien, sempre bem-humorado, contou histórias – sobre ciclistas ecológicos, casamentos regados com Ricard e cabeças cortadas servidas em Jerusalém. Houve espaço para “mensonges” intimistas e para os delírios de um saxofone baríotono soprado por Janvier. Respirou-se chuva e sol. Subiu-se às montanhas da Bulgária e da Roménia. No final, os quatro músicos improvisaram sobre cadências bretãs. A gaita-de-foles irrompeu, um pouco fora de tom, em diálogo com a bombarda. O “kan há Diskan”, de canto e resposta, também fez a sua aparição, extrovertido, vibrante, afirmativo da individualidade linguística e cultural da Bretanha.

Irlanda Em Ritmo De Loucura

Sobre os De Dannan é difícil transcrever o virtuosismo instrumental e a “fúria” criativa de todos os seus elementos. Frank Gavin faz do violino um brinquedo cujas cordas parecem não conhecer limites. O violino arde literalmente nas suas mãos, e salta, mergulha, esgueira-se e incendeia o resto da música. Frank disse piadas, riu-se e gozou com os guinchos de “yeahouyupiuoiu” da assistência. Nota de apreço ao público que, desta vez, esteve muito bem. Riu nas alturas certas e não bateu escusadas palmas (fora de) compasso. Apenas os guinchos “yeahouyupiuoiu” não terão tido a pronúncia correcta, como, de resto, os músicos foram os primeiros a assinalar. Mas, na generalidade, não desiludiu.
Regresso aos De Dannan para mais um pouco de entusiasmo crítico: espantosa a “conversa” rendilhada mantida entre o bouzouki de Alec Finn e a guitarra desse grande senhor que é Arty McGlynn. E que dizer do solo de “bodhran” (instrumento de percussão) de Colin Murphy? O melhor é nem dizer nada, só visto e ouvido, para perceber como é possível criar melodias com um osso a bater numa pele. Frankie Gavin juntou-se-lhe num solo de “tin whistle” de cortar a respiração (principalmente a do próprio músico que, exagerando um pouco, não terá afastado os lábios do pequeno tudo metálico durante quase cinco minutos). Mais discreto mas não menos eficaz, Aidan Coffey manteve a máquina em andamento com o seu acordeão, embora neste caso, não fosse possível afastar o fantasma de mestre Mairtín O’Connor.
Claro que houve uma cantora. Os De Danann jamais dispensaram uma voz feminina, nos já longos anos que levam de carreira. Eleanor Shanley não terá feito esquecer a profundidade de uma Dolores Keane (ainda é novita, com os anos vai lá) mas saiu-se bem. Cantou sem fífias um difícil tema a solo, outro de Dylan e as tradicionais baladas de descanso entre a vertigem dos “reels”, “jigs” e “hornpipes”, (escolhidos na maioria do álbum recente “1/2 Set in Harlem”) que para qualquer cantora irlandesa que se preze são canja.
Fechou com loucura o Intercéltico: no “encore”, ao som de “Hey Jude” dos Beatles que deu lugar a nova sequência endiabrada de danças. O público pediu mais mas já se fazia tarde. O ciclo céltico dava a volta completa e de novo se abria em espiral. Até ao próximo ano, com a promessa de uma semana irlandesa.

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Bailia Das Frores, Uxia, António Tentúgal, llan De Cubel – “Novo Projecto De António Tentúgal Desilude No Segundo Dia Do Intercéltico – Bailia À Desgarrada” (festivais / intercéltico / céltica)

Cultura >> Domingo, 05.04.1992


Novo Projecto De António Tentúgal Desilude No Segundo Dia Do Intercéltico
Bailia À Desgarrada


Nem sempre o gigantismo é a melhor solução. Prova-o o novo e ambicioso projecto de Tentúgal, “Bailia das Frores”, apresentado no Teatro Rivoli do Porto, que pecou por falta de rodagem. Os asturianos Llan de Cubel mostraram que o essencial pode ser dito em poucas palavras. Sem perder o coração.



“Bailia das Frores”, o projecto galaico-português montado por Tentúgal para a segunda edição do Intercéltico, a decorrer no Porto, falhou onde deveria ter acertado: no ritmo e na alegria. À desmesura da ideia – uma espécie de demanda das origens mítico-históricas comuns a Portugal e à Galiza – correspondeu uma sucessão de quadros soltos em que o aspecto “folclórico” e construção em excesso acabaram por vencer qualquer tipo de discurso. Valeram os momentos em que a música se sobrepôs ao peso das intenções. Assim aconteceu quando a voz de Uxia, uma cantira galega caída da lua, fez esquecer a Geografia e a História para nos devolver, em apenas duas canções, a beleza que dispensa máscaras e disfarces. Canções de luz.
À partida, “Bailia das Frores” tudo prometia. Meia-hora antes do espectáculo começar na sala já o “hall” e o primeiro piso do teatro Rivoli vibravam ao choque dos paus e aos gemidos da gaita-de-foles dos pauliteiros do Orfeão Universitário do Porto, e às pantominices dos bugios e mouriscos de Sobrado. Instalados a confusão, a festa e o espanto, aguardava-se o resto da procissão. Do adro ao interior da Igreja, as cantadeiras do Neiva, de candeias acesas, romaram e cantaram por entre as frisas da plateia em direcção ao palco. Depois o filme partiu-se.
Ficaram imagens, sons e cores desgarrados. Fotogramas em vez de película em movimento. Fernando Meireles, Carlos Guerreiro, Amadeu Magalhães e Tentúgal giraram compenetrados as manivelas das sanfonas, em “Ai flores, ai flores do verde pino” que não floriram, muito por culpa do som que várias vezes falhou ao longo da noite. Ressalve-se a vocalização de Carlos Guerreiro, que teve a força e a emotividade adequados a um tema composto por D. João IV.

Uxia, Mais Alto

Jorge Mota, o “pivot” da cerimónia, cumpriu o que se lhe pedia e arrancou algumas gargalhadas da plateia. Ensinou-nos, por exemplo, a distinguir um pauliteiro de uma mirandesa (é preciso saber que ambos vestem saias): “Mete-se a mão por baixo da saia. Se encontrarmos uma gaita-de-foles é um pauliteiro. Se descobrirmos uma gaita de beiços, é uma mirandesa”.
As cantadeiras do Neiva (por acaso uma delas até tinha bigode) cantaram e ajoelharam num “Pai do Ladrão” pitoresco e genuinamente popular. Já os gaiteiros Francisco Bouzo, Nuno Cristo e Paulo Marinho, este último dos Sétima Legião, não atinaram com o fole e a palheta, recordando a necessidade de se criar entre nós, à semelhança do que acontece na Galiza, uma escola do instrumento. Os pauliteiros rodaram as saias e bateram os paus, como lhes competia. Saltaram os bugios, sem que alguém na sala percebesse porque saltavam.
Em palco os músicos iam-se amontoando até haver suficientes para uma “suite-expresso” pelo périplo celta da qual constaram um “an dro” bretão, a enésima versão do “B-A-Ba” irlandês de “Maggie in the Woods” e uma “pasacorredoira” galega. Tentúgal e os outros Vai de Roda presentes bem poderiam ter dispensado o resto da companhia.
A salvação chegou com Uxia, que interpretou duas belíssimas canções apoiada pelos teclados discretos de Pancho, seu antigo companheiro nos Na Lua, que ao longo da “Bailia” tocou também violino. Na memória ficou ainda o tema final (repetido no “encore”), “A roupa do marinheiro”, entoado primeiro pelas cantadeiras do Neiva e em seguida servindo de pretexto para todos os participantes se reunirem em palco para o “tudo ao molhe e fé em deus” final. Com a voz de Uxia de novo a elevar-se mais alto que a restante massa humana. A esta “bailia” faltou o ardor da paixão. Porque os celtas sempre preferiram o fogo da intuição à frieza dos conceitos.

Astúrias Irlandesas

Na segunda parte do programa os asturianos Llan de Cubel dispensaram todo e qualquer artifício para se centrarem no essencial. José Manuel Cano e Elias Garcia, respectivamente na guitarra e bouzouki, construíram o suporte rítmico eficaz sobre o qual discorreram o violino de Gusmán Marqués (um portento de concisão e subtileza, o tipo de violinista que se insinua ao invés de se impor), a flauta de Marcos Llope (também inexcedível de técnica) e a gaita asturiana e o acordeão de Fonsu Mielgo. Pese embora uma certa homogeneização e “irlandisação”, os Llan de Cubel provaram que a tradição do seu país permanece viva e actuante. Em “muineras”, rumbas, valsas, villaneicos e rabeladas vertiginosos ou em canções como “La cleva”, “Arrisha”, “Xunan de Mieres” ou “Nel campu faeva flores” extraídas dos álbuns “Dova” e “Na Llende”.

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Maddy Prior, Matto Congrio – “III Festival Intercéltico – Uma Rosa É Uma Rosa É Maddy Prior”

Cultura >> Sábado, 04.04.1992

III Festival Intercéltico
Uma Rosa É Uma Rosa É Maddy Prior

Foi vingado o fracasso da apresentação de Maddy Prior no Folk Tejo do ano passado. No Porto, a antiga vocalista dos Steeleye Span deslumbrou. Os Matto Congrio cantaram a Galiza em ritmo de “reggae”. Mas o primeiro dia do Intercéltico decorreu sob o signo da rosa.

Uma voz portentosa, aliada a uma postura em palco de completa descontracção e à ingestão regular de vários copos de aguardente ao longo do concerto, contribuíram para que Maddy Prior assinasse uma actuação inesquecível nesta terceira edição do Intercéltico, que decorre no Porto até dia 4.
Intercéltico que abriu com os galegos Matto Congrio, tradicionais q.b. mas, por ora, demasiado dispersos por entusiasmos que nada têm a ver com a Galiza. O público, que encheu por completo a plateia do Rivoli, não se importou muito e aderiu sem reservas ao volume sonoro e à prestação eléctrica dos Matto Congrio (quer dizer “mato o congrio”. “Congrio”, ou congro, é um peixe e o nome foi escolhido num restaurante. Transcendente), sobretudo a facção mais jovem. Os puristas terão torcido o nariz aos frequentes desvios pelo “reggae” ou à batida nordestina de uma “polka carnavalesca” um pouco deslocada do contexto. Salvaram-se um entusiasmo contagiante e um virtuosismo de Carlos Nunez, espantoso na flauta e gaita-de-foles. Registe-se ainda o “encore” da praxe – uma versão de “Music for a fond harmónium”, dos Penguin Café Orchestra, seguindo o exemplo discográfico dos Patrick Street, em “Irish Times”.
Após o intervalo, Maddy Prior mostrou logo de entrada porque é conseiderada uma das poucas vocalistas inglesas a poder ocupar o lugar deixado vago por Sandy Denny, com um solo vocal do tradicional “The blacksmith”, desde logo a prometer uma prestação intimista capaz de fazer esquecer o pesadelo sonoro do “Folk tejo”.
De entre um desfile de maravilhas, primeiro destaque para um momento mágico, quando Maddy, (que envergava um casaco cor-de-rosa), iluminado por holofotes rosa, cantou “Rose”, num diálogo apaixonado com o piano de Nick Holland. “Mater Dolorosa” (à semelhança de “Rose”, um tema sobre crianças), fala de angústica e sofrimento, mas o público, inexplicavelmente, julgou por bem sublinhar com risos as explicações da cantora. Aliás o público riu sempre com gosto. Riu-se das piadas. Riu na mesma quando Maddy Prior dedicou “Somewhere along the road” ao marido (Rick Kemp) que se encontra doente.
Entre duas canções Maddy Prior leu alguns poemas da sua autoria, como “Poetry” (sobre o acto criativo) e “Effort” (sobre o casamento). Poesia à parte, a música nunca deixou de pairar nas esferas superiores. “Spirit”, por exemplo, condensou as duas acepções do termo, no movimento descendente entre a espiritualidade matinal que convida à contemplação e o apelo nocturno de uma bebida espirituosa, o brandy. Por falar em “espíritos”, Maddy não se esqueceu de elogiar o bom vinho e a boa aguardente portugueses, elogio sincero e sentido que uma ou outra oscilação pendular sobre o palco não deixaram desmentir.
Excelentes como o vinho foram um hino a quatro vozes sobre os “falhanços da vida”, mas em que a boa disposição da vocalista a levou a ensaiar uns passos de dança, e uma longa suite sobre o ciclo das estações intitulada “Year”, a recordar os melhores Steeleye Span e que pôs em relevo as capacidades técnicas dos quatro músicos da banda: Nick Holland, piano, Mick Dyche, guitarra, Richard Lee, contrabaixo e Steve Anftee, violoncelo. Maddy esteve sublime, alternando, na voz e na pose, o ascetismo com a extroversão dionisíaca.
Dois “encores”: um sombrio “After the Death” e “The Dawn of the Day” em que de novo aflorou uma criança. A rosa simboliza o amor. Maddy Prior esquiva-se: “Não escrevo nunca sobre o amor, escrevo sobre relações”. Maddy foi prior de uma freguesia extasiada.

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