Arquivo mensal: Outubro 2019

Sérgio Godinho – “‘Luz Na Sombra’, De Sérgio Godinho, Começa Hoje Na RTP2 – As Sombras Da Ribalta” (série / documentário / televisão)

Secção Cultura Domingo, 21.07.1991


“Luz Na Sombra”, De Sérgio Godinho, Começa Hoje Na RTP2
As Sombras Da Ribalta


Luz e sombra são parte integrante do mundo do espectáculo. Em “Luz na Sombra”, Sérgio Godinho dá a conhecer os bastiadores, os rostos na sombra, o real por baixo da maquilhagem. “The show must go on”, é verdade, mas pode parar por instantes, e mostrar o outro lado do espelho. De que matéria são feitos os sonhos?



Hoje, a partir das 20h15, no canal 2 da RTP, a luz incidirá nos recantos mais escuros dos bastidores da música, iluminando aquilo que por norma apenas se adivinha. Sérgio Godinho, viajante de todos os imaginários, contador de histórias e de vidas que já não vamos tendo tempo de viver, vai levantar o pano e mostrar como se constrói a imagem em que acreditamos.
São seis programas, genericamente intitulados “Luz na Sombra”, “cada um sobre uma pessoa que trabalha dentro da música”, numa reflexão pessoal sobre outros tantos aspectos ligados à produção musical, personificados por quem sabe e quer partilhar esse saber.
José Salgueiro, músico, é o protagonista do primeiro programa. Depois será a vez de Carlos Tê, letrista, Paulo Pulido Valente, produtor de espectáculos, Ricardo Camacho, produtor e músico, Rui Fingers, “roadie” e músico e, por último, Tó Pinheiro da Silva, técnico de som. Todos os domingos, até finais de Agosto.
Sérgio Godinho, além de autor de “Luz na Sombra”, acumula ainda as funções de apresentador e entrevistador. A realização e montagem estão a cargo, respectivamente, de Teresa Olga e Henrique Monteiro.

O Outro Lado Existe

Luz e sombra são pólos complementares de uma mesma realidade. Sem um o outro não existe nem tem razão de ser. Luz e sombra que constituem a própria essência do espectáculo. De um lado o brilho dos projectores, a fama, a claridade das vozes e da música, a encenação e simulação dos gestos. Do outro, aquilo que não se vê mas está lá, atrás da cortina ou da câmara, omnipresente, indispensável para o bom funcionamento da parte visível. Os alicerces, as infra-estruturas técnicas e humanas, a imaginação e o suor dos que trabalham para que a máquina funcione, tornando possível o sonho e a ilusão credível.
Para Sérgio Godinho trata-se de deixar por algum tempo o papel de “escritor de canções” para contar outro tipo de histórias, feitas de imagens e jogos sobre a música e as pessoas a ela ligadas. Jogos de sombra. Jogos de luz. Ficções, ainda e sempre, urdidas por quem há anos vem tecendo o pano cru onde sonho e realidade se confundem. Eis o argumento resumido desses pequenos filmes subjectivos, parte integrante da grande-metragem que é a música popular portuguesa.

Seis Argumentos Possíveis

José Salgueiro, baterista (hoje) – O suor dos ensaios, o trabalho de professor, as “tournées” com os Trovante que ciclicamente se repetem. É difícil manter o ritmo, mesmo para um baterista. A vida e música de um músico, no compasso certo.
Carlos Tê, letrista (28 de Julho) – o verbo também se escreve com caneta. A letra “T” sempre presente nas palavras que Rui Veloso canta. Palavras nascidas de uma cidade antiga e mágica, o Porto, cenário de muitas histórias por contar. Canções inéditas da dupla, recolhidas num ensaio da banda. Novos projectos. Um livro aberto.
Paulo Pulido Valente, produtor de espectáculos (4 de Agosto) – Como se organiza um espectáculo? Ninguém se preocupa, desde que o pano suba. Um exemplo: as Festas de Lisboa de 1990, onde o citado produtor se encarregou de animar o cinzento das ruas com fantasia, trabalho e a música dos Repórter Estrábico, Capitão Fantasma e a Lua Extravagante de Vitorino e Janita Salomé.
Ricardo Camacho, produtor – E músico dos Sétima Legião, acrescentamos nós. Explica como se produz um disco, se arranjam as canções e se idealiza o som global. Sem um produtor capaz não há disco que resista. Música da Sétima Legião, António Variações, GNR e Manuela Moura Guedes.
Rui Fingers, “roadie” – O “roadie” é quem carrega com o piano às costas. Quem liga e desliga os amplificadores. Quem monta e desmonta o palco. É o operário da música, o homem dos músculos, um “mouro” de trabalho. O “roadie” em questão, para além de trabalhar com os Rádio Macau, que veremos actuar, ainda arranjou tempo pra tocar na banda de “heavy metal” V 12. Uma canseira.
Tó Pinheiro da Silva, técnico de som – Ele escuta as opiniões e as bocas, tantas vezes despropositadas, dos músicos, mas faz como acha melhor. No estúdio é ele que sabe, pode e manda. Dele depende em grande parte o sucesso ou fracasso de um disco. Vamos ver essa alquimia, durante a gravação e misturas de um tema do último álbum de Jorge Palma.
Depois de “Luz na Sombra” tudo ficará, de certo modo, mais claro. Luz e sombra, o difícil está em separá-las. Ou, como diria Neil Young, “there’s more in the Picture, than meets the eye”.

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Paul Simon – “O Evangelho Segundo São Paulo” (dossier / artigo de fundo)

Pop-Rock Quarta-Feira, 17.07.1991


O EVANGELHO SEGUNDO SÃO PAULO

Não se sabe se Paul Simon era Tom ou Jerry no duo que há 34 anos formou com o seu parceiro de muitas ocasiões, Art Garfunkel, decalcado da célebre dupla dos desenhos animados. O que sabe é que o homem tem já um lugar reservado no “hall of fame”, panteão das celebridades mundiais cuja importância deve exceder inevitavelmente as dimensões de um hipermercado.
Paul tem hoje cinquenta anos deidade, mais ano menos ano, e uma quantidade de álbuns no activo, a solo e com o outro. Filho espiritual de Bob Dylan (que imitou durante muitos anos), terá chegado à conclusão que Dylan só havia o Bob e mais nenhum. Optou então pela “música folk”, como dizia ele e diziam os críticos, sempre que havia alguém a cantar baladas acompanhado por uma guitarra acústica. Nos anos 60 a “música folk” era chão que dava uvas. Paul Simon apreciava particularmente este fruto, e músicos ingleses como John Renbourn ou Martin Carthy, não espantando portanto a opção. Depois foi a recolha sistemática de “hits” e estilos musicais que culminou nos mundialmente aclamados “Graceland” e “Rhythm of the Saints”. Vamos ver como foi, dissecar a obra, escalpelizar o discurso, mergulhar em complexas análises estruturais, que o homem está mesmo a chegar e não convém perder pitada.



Para Paul Simon, a música rock é indissociável de todos os outros géneros e, em particular, das músicas do mundo. Tal atitude deriva de uma exposição contínua a toda a espécie de sons ouvidos durante a juventude. Do rock ‘n’ rol de Elvis Presley e Chuck Berry e a “country music” de Johnny Cash, à música soul, os blues e a religiosidade “gospel”. Os Beatles, evidentemente, fizeram parte da cartilha, assim como Bob Dylan que, durante anos, tentou imitar. Deste caldeirão de influências soube Paul Simon extrair a eesência, depurando-a para lhe acrescentar os contornos da sua excepcional aptidão para a melodia. Método que em “Graceland” e “Rhythm of the Saints” atingiu o apogeu, no casamento dos sons africanos do primeiro e o tropicalismo brasileiro do segundo com um apuro formal então já perfeitamente consolidado.

Quarta-Feira, Três Da Madrugada

Era ainda manhãzinha, nem uma agulha bulia, na suave melancolia dos pinheiros do caminho, quando Paul Simon gravou o primeiro álbum de parceria com Art Garfunkel, em 1964. Mais precisamente às três da madrugada de uma quarta-feira. Disco florido, suave, doce, “Wednesday Morning 3 a. M.” é a sobremesa ideal num dia de Primavera, à hora e dia da semana indicados. Harmonias vocais bonitas, modernas, originais. Sem agressividade nem angulosidades escusadas. Nada de grave, não fora a existência de uma canção chamada “The sound of silence”, que, no ano seguinte, subiria ao primeiro lugar no top de vendas norte-americano, graças ao golpe de génio do produtor, Tom Wilson. Este, sem dar cavaco aos autores, resolveu electrificar a coisa, inaugurando assim, sem mais nem menos, a corrente estética a que se convencionou chamar “folk rock”. Há dias de sorte. A Paul Simon saiu a sorte grande.



Quis o destino que Paul e Art permanecessem pouco tempo juntos. Sabe-se lá porquê. Talve devido ao alegado perfeccionismo de Paul, que não teria suportado o fraco empenhamento demosntrado pelo companheiro, desde cedo voltado para uma carreira na sétima arte.

O Som Do Silêncio

Assim, no ano seguinte, Paul estava de novo sozinho, à procura de calor humano e de inspiração. Calor humano, não recebeu tanto como isso. Inspiração, porém, é o que não falta no primeiro disco a solo, “The Paul Simon Song Book”, saído em 1965, no qual figuram alguns dos temas posteriormente interpretados pela dupla, no seu segundo álbum: “The sound of silence” (outra vez), “I am a rock”, e “Kathy’s song”. “Sounds of silence” viria mesmo a constituir uma espécie de obsessão, tendo sido aproveitado como genérico do disco e utilizado em técnicas revolucionárias na educação dos surdo-mudos.



Musicalmente o álbum pouco adianta em relação ao anterior, exceptuando, evidentemente, a importância dada às pausas, de resto tão bem exploradas pelos dois, em sublimes harmonias vocais que passaram a ostentar o timbre inconfundível do seu estilo. Só ouvido. Ou melhor, só não ouvido. Ainda hoje, nos pubs, em casa, no campo, na praia, no escritório, no automóvel, no Auditório da Gulbenkian, durante um recital de música de cãmara, se trauteiam e assobiam as canções imortais de Simon and Garfunkel. Deste e sobretudo dos álbuns que se haviam de seguir.

Paranóias Existenciais

Como “Parse, Sage, Rosemary & Thyme”, de 1966, considerado como um dos seus melhores. O título-tema, inspirado numa melodia tradicional esquimó, é encantador. É nesta altura que começam a vir ao de cima as paranoias existenciais de Paul Simon, patentes em temas como “The dangling conversation” ou “Patterns”. Noutras páginas deste suplemento, dá-se conta do boletim clínico.
“The Graduate”, 1968, a banda sonora do filme de Mike Nicholls, foi por muitos considerado pornográfico. Passemos pudicamente ao lado. Do mesmo ano, “Bookends”, contémm uma das canções mais conhecidas do duo, “America”, balada de concepção imaculada e uma simplicidade espantosa, possuidora de uma inenarrável riqueza rítmico-tímbrico-melódico-harmónica, capaz de injectar na parelha o entusiasmo suficiente para se lançar naquela que, até hoje, permanece como sendo a obra-prima absoluta, ou, pelo menos, a mais vendida: “Bridge over Troubled Water”, a subir e a descer nos tops durante 32 anos consecutivos, entre 1957 e 1973.

Uma Ponte Que Ruiu

“Bridge” (para Paul Simon, um álbum de “gospel” puro) faz a ponte entre diversas tendências musicais, juntando as ambiências folk da praxe às alturas ventosas de “El condor passa” e à releitura suavizada de “Bye bye love” dos Everly Brothers. É também o álbum do romantismo, de se ouvir agarradinho ao/à parceiro/a, dentro daquela linha a que se convencionou chamar “música para constituir família” ou, na versão popular, “rock sentimetalão”. “The boxer”, “Cecilia”, “The setter”, “Emily”, “The wolfhound” e “Virginia” são alguns dos temas inesquecíveis de um álbum, cujo lema parece ter sido “Keep the customer satisfied”.



Durante as gravações de “Bridge over Troubled Waters” as divergências entre Paul Simon e Art Garfunkel atingiram o auge – Art não deixava o cinema, oo que muito aborrecia Paul. Na faixa “The only living boy in New York”, Paul denuncia as frequentes ausências do companheiro no México, justificadas pela rodagem de “Catch 22”, chagendo mesmo a criticar o seu desempenho dramático, acusando-o de académico, promíscuo, aleatório, etnográfico e atentatório contra os bons costumes. O que manifestamente não jogava com o seu feitio (de Paul). Eram razões mais que suficientes para pôr um ponto final na carreira da dupla. Separaram-se como bons amigos que afinal nunca tinham deixado de o ser (Paul viria mais tarde a retratar-se publicamente da acusação de “etnográfica”, à actuação de Art, alegando que tinha dormido mal nessa noite. O termo, contudo, nunca lhe sairia da cabeça, revelando-se mesmo de capital importância em fases posteriores da sua carreira). Art perdoou-lhe, mas continuou a representar.
Parte do álbum é gravado apenas por Paul e pelo co-produtor Ray Halee que nele investem doses maciças de paixão. Curiosamente, na faixa principal, “Bridge over troubled water”, composta por Paul, este fez questão de ser Art a cantá-la. Mas a rotura era inevitável e concretizar-se-ia pouco tyempo depois. Voltaria a reunir-se num espectáculo ao vivo no Central Park, em 1982, perante várias pessoas que não os tinham esquecido.

Os Perigos Do Rock ‘N’ Roll

Paul Simon tinha o caminho livre para uma carreira gloriosa. Começou a ler livros e revistas, a consultar especialistas, a visitar locais, a estudar a melhor maneira de incorporar vários estilos musicais no esquema básico das suas baladas. O resultado de tais pesquisas viria a revelar-se brilhante no álbum “Paul Simon”, de 1972, mescla estimulante de fluidez vocal, produção imaginativa e boas canções. Contando no estúdio com a presença de músicos ilustres, como o guitarrista exímio na técnica de “picking”, Stefan Grossman (“Paranoia blues”) e o violinista cigano Stephanne Grappelli (Hobos’s blues”, “Paul Simon” é uma espécie de visita guiada pela mente tortuosa de um músico à procura de si próprio. Cá está o “reggae” de “Mother and child reunion”, a veia latina de “Me and Julio down by the schoolyard”, a beleza intimista de “Duncan”, a fantasmagoria evocativa de “Congratulations”, a auto-introspecção de “Everything put together falls apart”.



Sim, Paul Simon, enveredava por uma via pessimista, ondementes mais fortes que a sua viriam a encontrar a miséria e a desgraça. Que o aviso sirva de exemplo aos mais jovens, que nunca, mas mesmo nunca, deverão ceder aos prazeres – tão modernos -, do pessimismo e, sobretudo, à tentação de ser músico, pois a droga e a loucura espreitam a cada esquina. E o sexo. Não foi por acaso que, anos mais tarde, já curado da doença, Paul Simon renegou por completo o “rock ‘n’ rol”, acusando-o de aleatório, promíscuo e atentatório contra os bons costumes.
“There goes rhymin’ Simon” explode numa cintilação de melodias que recuperam a facilidade melódica dos tempos com Art Garfunkel, para lhes imprimir um cunho muito pessoal. Formidável também a maneira como recupera a facilidade pessoal dos tempos com Art Garfunkel, para lhes imprimir um cunho muito melódico. Enfim, temas como “Kodachrome” e “Take me to the Mardi Gras” caíram no goto de todos e venderam-no como batatas, o que, em questões de arte, é o que mais interessa.



No álbum ao vivo “Live Rhymin’”, de 1974, entretém-se a reproduzir novas versões de “The boxer” e “Bridge over troubled water”, acompanhado por músicos negros e pelos chilenos Los Incas, rebaptizados Urubamba, numa brincadeira com “El Condor Pasa”, entre nós um “must” radiofónico absoluto do pós-25 de Abril.

Louco, Depois De Tantos Anos

Tempo entretanto de continuada introspecção e da loucura finalmente assumida em “Still crazy after all these years”. É dos álbuns mais conhecidos de Paul Simon, mas também um dos mais incompreendidos. As massas viram nele apenas um lote de canções aprazíveis, compostas por um autor de reconhecidos méritos. Poucos foram os que se aperceberam de estar diante do genuíno testamento espiritual de um artista em fase crítica, para quem a música sempre serviu de terapia. Que é “My little town” senão a menifestação patética de uma alma torturada? Que alucinações povoam “Night Game” que não façam parte do catálogo geral das fantasias esquizofrénicas? Pobre, pobre Paul Simon, tão novo e já preso nas garras da loucura. Nem a presença entre os músicos convidados de Tony Levin, Steve Gadd, Phoebe Snow, Toots Thielemans, Phil Woods e o próprio Art Garfunkel foram suficientes para aliviar o sofrimento. “Still Crazy after all these years” fica para a história como um dos manifestos mais pungentes sobre a inexorabilidade do destino, a solidão humana, o pavoroso assombramento existencial resultante do confronto com a divindade, o medo do desconhecido, o medo dos espaços abertos, o medo das picadas de insecto, a aversão aos dentistas, a poliomielite e a febre dos fenos. Medonho e grandioso ao mesmo tempo.
“One Trick Pony” e “Hearts and Bones”, respectivamente de 1980 e 1983, são álbuns que conheço mal, e por isso não interessam muito, sendo pouco importantes na economia da obra do autor. Completamente irrelevantes. Mesmo que Philip Glass tenha contribuído com arranjos para um tema deste último, “The late great Johnny Ace”, dedicado ao próprio e a John Lennon. Philip Glass que nas suas próprias “Songs from liquid days” não dispensaria a voz do autor do “som do silêncio”.

Contra O Boicote

Incontornável é, sem sombra de dúvida, “Graceland”. Sem sombra de dúvida, mas com sombra de pecado, já que houve quem não lhe perdoasse ter passado por cima de preconceitos e convenções enraizadas.
Tudo começou com a audição de uma cassete-pirata, contendo gravações de música sul-africana, no estilo “gumboots”, um “cocktail” explosivo de cânticos zulus, hinos vitorianos e “soul” traficada.
Entusiasmado, Paul voou para a África do Sul, onde registou em fita magnética alguns desses artistas locais. A seguir, trouxe-os consigo para Nova Iorque e Londres, para novas gravações e misturas a que acrescentou finalmente os “takes” vocais da sua autoria.
Foi o bom e o bonito. De oportunista a fascista, tudo lhe chamaram. Não lhe perdoaram ter “infringido” o boicote impeditivo para qualquer ocidental de colaborar com o “monstro” sul-africano, fosse qual fosse a cor da pele e a filiação ideológica. Intelectuais da estirpe de Paul Weller, Billy Bragg e Jerry Dammers exigiram que fosse reposta a legalidade e que o prevaricador pedisse publicamente desculpas. Paul Simon fez-se distraído, olhou para o outro lado e calou-se, enquanto o disco vendia às toneladas. Miriam Makeba, Hugh Masekela e mais 25 instrumentistas negros, por seu turno, não ficaram nada procupados e acompanharam o “porco fascista” por todo o lado numa “tournée” mundial que serviu para calar as bocas acintosas.

A Música Das Botas

“Graceland inclui-se na tendência imparável para embalar seja que produto for no pacote, actualmente rentável, da “world music”. Com resultados diferentes, David Byrne, Peter Gabriel e Sting não se coíbiram de explorar o filão. Para Paul Simon, tratava-se de aproveitar, no bom sentido, as capacidades dos “melhores cantores” do continente africano. No caso concreto de “Graceland”, o “ensemble” Ladysmith Black Mambazo e o nigeriano Youssou N’Dour.
Do cruzamento entre duas culturas díspares surgiu o diamante. “Graceland”, para além de todas as polémicas geradas à sua volta, irradia música e energia por todos os poros. “Gumboots” (designação com origem nas botas dos mineiros negros), o “jive sound” ou “Mbqanga”, música de rua do Soweto, (que partilha semelhanças com o “rhythm ‘n’ blues” e a música “zydeco”), electricidade e as típicas subtilezas melódicas de Paul Simon juntam-se num ritual de alegria e liberdade, demasiado forte para as débeis investidas dos detractores. Bem podiam as Nações Unidas continuar a gritar, agitando a bandeira do boicote. “Graceland” é terra inexpugnável.

Estado De Graça

“The Boy in the bubble”, gravado com o agrupamento do Lesotho Tao Ea Matsekha, dispara no acordeão e na rítmica do “Gumboots”. “Graceland” recorre aos serviços do guitarrista Ray Phiri e ao baixo de Baghiti Khumalo e soa a “country” sem fronteiras. “Gumboots” é isso mesmo, o lamento do mineiro na escuridão da vida e da mina, redimido pelo ritmo e a intervenção esclarecida dos saxofones. “Diamonds on the soles of her shoes” serve para os Ladysmith Black Mambazo brilharem, tal como “Homeless”, escrito por um dos seus membros, Joseph Shabala. Heresia máxima, em “You can cal me Al”, aparece a tocar um músico sul-africano branco. Os objectivos e ideais do músico são claros (não se veja aqui quaisquer facciosismos racistas): “Aceitação, a tentativa de alcançar um estado de paz, de redenção ou de Graça”. Mas ainda aqui as línguas viperinas atacaram: Paul Simon não teria pago aos músicos africanos as “royalties” devidas, tendo estes trabalhado para si praticamente “de graça”.



Se críticas há a apontar a “Graceland”, estas dizem respeito a uma certa complacência académica, diríamos mesmo aleatória, da parte de Paul Simon, com alguns laivos de promiscuidade e mesmo uma atitude geral atentatória contra os bons costumes. Mas isso foi sempre assim, desde o início.

Mistérios Da Mente Humana

Por fim a confluência final nas florestas e rios do Brasil. Milton Nascimento foi o instigador de Paul em novo pecadilho, à procura do “ritmo dos santos”. O que de imediato sugere mais um libelo a favor da floresta e dos índios da Amazónia. Nada mais falso. O que Paul Simon procurou solucionar em “Rhythm of the Saints” foi um problema essencialmente metafísico: analisar o modo como a mente “salta e muda ao longo do dia” (numa nítida recorrência à problemática abordada em “Wednesday Morning 3 a.m.”). Para Paul Simon, há um mistério insondável no facto da mente humana passar num ápice do êxtase ao desespero e vice-versa. Num instante achar que “está tudo bem” e no outro afligir-se com a eventualidade da guerra. Num minuto passar da felicidade completa à aflição de se saber seropositivo. Terá concluído que só a santidade permite ultrapassar a dialéctica.
É nessa medida que “Rhythm of the Saints” procura conciliar opostos, estéticos e éticos. A revolta dos negros sul-africanos, no primeiro caso. A aceitação passiva e a languidez do negro brasileiro, no segundo. Se “Graceland” era a celebração do ritmo, aquele joga na subtileza e nos arranjos etéreos, à procura da transcendência e do transe hipnótico. Se “Graceland” era um tambor de terra e tempestade, “Rhythm of the Saints” é marimbas, oceano, vento. “Graceland” é um grito. “Rhythm of the Saints” um murmúrio.
Num dos temas fortes do disco, “The obvious child”, Paul Simon esteve quase para convidar Bob Dylan a cantá-lo. Depois achou que isso só serviria para desviar as atenções. O comando das operações rítmicas foi entrgue aos brasileiros, obrigados embora a um “low profile” subtil imposto pela mesa de mistura. J. J. Cale participa como co-autor de dois temas, acentuando ainda mais a impressão de imponderabilidade. Tudo flui com a placidez de um rio durante o Verão, que vai sem saber para onde vai.

Por Fim, A Santidade

De resto, é talvez este o principal “problema” de Paul Simon – uma questão de orientação. Acusam-no de refugiar-se no perfeccionismo. Ele aceita finalmente a acusação, liberto da necessidade e dos constrangimentos de destino fixo. Atingida finalmente essa “insustentável leveza do ser” que tanto pode ser conquista como desistência.
Há uma história divertida: uma vez, ao transportar no carro um amigo ferido numa perna, Paul aproveitou o silêncio dorido deste, para lhe perguntar a opinião sobre umas misturas para o novo álbum. Paul Simon acha a história engraçada, mas diz que não é verdade. Apenas receia uma coisa – a morte. “A ideia de vir a morrer”, diz, “não é mitigada pelo facto de uma orquestra poder tocar na televisão ‘Bridge over troubled water’ nessa mesma noite.” Resta-lhe a santidade. E a música dos outros.

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Vários – “Encontros Musicais Da Tradição Europeia – Perlinpinpin, E Fez-se Luz” (festivais / etno / céltica / tradicional / folk)

Secção Cultura Segunda-Feira, 15.07.1991

Encontros Musicais Da Tradição Europeia
Perlinpinpin, E Fez-se Luz

Em Oeiras, os Encontros Musicais da Tradição Europeia terminaram como começaram – em beleza. Reunidos público, músicos e vontades, o sonho cumpriu-se. A Europa esquecida fez soar a sua voz.

Este fim-de-semana, em Oeiras, acabaram os Encontros. Fruto do esforço e do amor à causa mais uma vez demonstrados pela organização, a cargo da Cooperativa Cultural Etnia. Encontro dos “maluquinhos” da “folk” com a música menina dos seus olhos. Dos curiosos com um novo mundo, que sempre foi o seu, embora nunca tivessem dado por isso. Encontros que, pela segunda vez, souberam escolher programa a preceito, marcando presença com alguns dos nomes mais significativos da “folk” actual. O público correspondeu, em número e entusiasmo, tornando o Auditório do Complexo das Forças Armadas num local de festa. Os militares puseram flores no cabelo, tangeram liras e flautas. Abriram portas. O serviço obrigatório deveria ser assim.
Na sexta-feira actuaram os ingleses Whippersnapper e os portugueses Vai de Roda, estes já com assinatura neste tipo de certames. O trio inglês trouxe a Oeiras lembranças antigas, glórias passadas, revivendo o espírito e a música dos lendários Fairport Convention. Dave Swarbrick partiu mas os que ficaram chegam para manter acesa a chama. Chris Leslie, agora o único violinista, é um fora-de-série, fazendo o que quer do seu violino azul electrificado. Martin Jenkins e Kevin Dempsey, respectivamente no “mandocello” e guitarra acústica amplificados, não lhe ficam atrás e também deram lições de virtuosismo. Entre cada tema contaram as histórias de cerveja do costume. Conseguiram a proeza de pôr a assistência inteira a cacarejar, num tema sobre galinhas, enquanto o violinista dava a volta à sala, e toda a gente se divertia numa sala transformada em manicómio. Longe de quaisquer purismos os Whippersnapper foram uma lufada de loucura, tecnicismo e boa disposição. Requisitos que se exigem a este tipo de música.

Bruxas E Mãos De Fada

Tentúgal e os Vai de Roda fizeram o habitual: a encenação rigorosa de um Portugal imaginário, enraizado na matriz renascentista e prosseguido nos “bailes mandados” e cadências eléctricas dos dias de hoje a preto e branco. A sanfona, a ponteira, o violino, as guitarras e tambores, as vozes e as palavras de um naturalismo (ainda não) perdido, contam e cantam a sobrevivência da arte de ser português, assombrada por boas e más bruxas que persistem em conspirar na escuridão. Os Vai de Roda seguem à procura do futuro.
Sábado começou por ser um negócio de harpas. O duo feminino escocês Sileas, que actuou em vez do bardo Robin Williamson, inicialmente programado, deu todo o sentido à expressão “mãos de fada”. Patsy e Mary, loura e morena de calças e blusas estampadas, têm dedos de ouro. Dedos sábios e delicados, fizeram vibrar cordas de luz. Doce Escócia, fluindo suave nas danças ao longe, no sorriso das raparigas, no anelo gaélico do canto, distante na gramática mas íntimo na oculta geografia. Tentaram que o público cantasse um refrão, em gaélico, tão simples como uma partitura de Stockhausen. O resultado soou efectivamente a Stockhausen.
Interpretaram temas de “Beating harps”, como corações. E de “Delighted with harps”, todos nós, dessedentados da grande sede interior e da secura tórrida da tarde. Tanta, que o alarme antifogo estridente, tocou, interrompendo como um despertador indesejado o fluido cristalino das harpas. As Sileas pararam de tocar, sorriram e saíram debaixo de uma trovoada de aplausos.
Para o final estava guardado o momento mais alto, com os accitanos Perlinpinpin Folc, que já haviam actuado nos Encontros do ano passado. A música destes quatro senhores, calmos na postura mas completamente loucos no resto, desafia todas as definições e apreciações. A Occitânia é o mar profundo onde pescam uma ancestralidade simultaneamente pagã e luminosa, com sabor a verde, pedra e prata, encimado pelo azul escuro riscado pelos monstros e anjos psicadélicos do céu medieval. Para além da panóplia instrumental que inclui a gaita-de-foles, o violino e instrumentos de sopro bizarros como o gemshorn, os sons surgem de tubos de vassoura, tambores de água, conchas, paus, arcos, soando a grutas, estrelas, rios e sonhos.
Os Perlinpinpin Folc desceram à terra, falaram com pronúncia cerrada de gascões, das virtudes do bom vinho português, das vindimas e colheitas, de gaivotas que morreram, de lendas estranhas, do cinzento chuvosos dos vizinhos bascos. Cantaram complexas polifonias vocais, na língua antiga de Oc. Foram tudo o que um grupo de música tradicional deve ser: excitante, versátil, verdadeiro. Oeiras não os esquecerá tão cedo. O sonho tornou-se realidade com as sílabas mágicas de Perlinpinpin.

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