Arquivo mensal: Setembro 2019

Catherine-Ann MacPhee – “Chi Mi’n Geamhradh”

Quarta-Feira, Pop-Rock 12.06.1991
Críticas: World / Folk


CATHERINE-ANN MACPHEE
Chi Mi’n Geamhradh
CD, Greentrax, distri. VGM



Catherine é uma mulher de peso. Mais de cem quilos, com certeza. Mas, como acontece com inúmeras divas, do maciço corporal desprende-se e eleva-se uma voz imponderável, de pássaro. A de Catherine tem a consistência e transparência de um lago. De um dos lagos que, um pouco por todo o lado, se espelham na sua Escócia natal. Catherine, tal como no seu álbum anterior, “Cànan nan Gàidheal”, canta em gaélico escocês, língua de ressonâncias mágicas, nascida das profundezas do mundo celta, hoje sobrevivente por amor ao fogo que mantém viva a identidade de um povo. Acompanhada pelos outros instrumentos, a solo ou em dueto com a harpa radiante de Savourna Stevenson (cujo álbum “Tickled Pink” é imprescindível em qualquer selecção criteriosa de obras dedicadas a este instrumento), Catherine vai desvelando o novelo da história, da terra ancestral e das gentes que a habitam, em canções que ecoam na memória, evocando outros tempos e outros mitos. Como a própria diz: “Siomadh oidch a ‘bhithinn a’smuaintinn, gum bitheadh tu comhla rium gu brath.” Nem mais.
****

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

La Bottine Souriante – “Chic & Swell”

Quarta-Feira, Pop-Rock 12.06.1991
Críticas: World / Folk


LA BOTTINE SOURIANTE
Chic & Swell
CD, Green Linnet, distri. Megamúsica



Acredite-se ou não, o Canadá também tem folclore. Evidentemente, é uma mistura, mas uma mistura fascinante. A música tem “cajun”, as jogas, “reels” e demais danças irlandesas, juntamente com as suas congéneres francesas, combinaram-se de modo a dar origem a um novo estilo que, dos ingredientes, soube retirar a quintessência. Os La Bottine Souriante, prosseguindo uma tradição que remonta à “explosão” dos “fous du folk” dos anos 70 e à existência, no Canadá, de grupos como os Harmonium, Séguin ou La Chiffonie, retomam as experiências antão realizadas no seio da editora francófona Hexagone (que em breve terá representação nacional), burilando as arestas mais ásperas das sonoridades rurais para lhes sublimar a elegância e o requinte, num trabalho formal que só a distanciação e a pesquisa permitem. Fabulosas, em “Chic & swell”, as harmonias vocais (partilhadas pelos cinco elementos da banda) e o violino de Martin Racine, ao longo de uma imparável sequência de danças e canções (sublime, “Le Rossignol Sauvage”) capazes de juntar, num golpe, a Irlanda, Escócia e França ao caldeirão do Quebeque.
****

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

Richard Thompson – “Rumor And Sigh”

Quarta-Feira, Pop-Rock 12.06.1991
Críticas: World / Folk

Sonhos E Suspiros
RICHARD THOMPSON
Rumor And Sigh
LP e CD, Capitol, distri. EMI – Valentim de Carvalho




Primeiro, a história: guitarrista inpirado, por vezes genial, Richard Thompson integrou a banda pioneira do folk rock britânico, Fairport Convention, durante o período áureo que culminou nas obras-primas “Liege & Lief” (ainda com Sandy Denny) e “Full House”. A carreira a solo que posteriormente encetou serviu para acentuar as oscilações da sua veia criativa, próprias de uma personalidade dada a extremos, ao mesmo tempo que revelou um guitarrista de primeira linha. Mas foi de parceria com a sua então mulher, Linda Thompson, que gravou aqueles que, até à data, permanecem os seus melhores trabalhos: “I Want to See the Bright Lights Tonight”, “Shoot Out the Lights” e “Hokey Pokey”, demonstrações brilhantes de como servir-se da raiz folk para enriquecer e revigorar o discurso rock. Sozinho, gravou discos regulares, com excepção do fabuloso compêndio da guitarra em estado de graça que é “Strict Tempo”. Da folk passou À pura excentricidade, por caminhos sinuosos que o levariam a figura insubstituível em discos dos “outsiders” David Thomas (vocalista dos Pere Ubu) e Golden Palominos. Quando está bem disposto, alinha em quarteto com Fred Frith, Henry Kaiser e John French. “Daring Adventures” e “Amnesia” sofriam da síndrome “nada de especialmente genial ou inovador”. Passados três anos sobre a edição deste último, “Rumor and Sigh” não vem alterar substancialmente a situação. À partida, pareciam estar reunidas condições para despoletar aquele pequeno “it” que faz a diferença entre a claridade agradável e a luz do Sol, através de uma escolha diversificada e criteriosa dos músicos convidados. Infelizmente, a música volta a não estar à altura das expectativas. Os esforços conjugados de Alex Acuna, percussão, Simon Nicol (antigo companheiro nos Fairport Convention), guitarra, John Kirkpatrick (expoente da folk de tendência mais ruralista, autor de discos magistrais a solo ou com Sue Harris), acordeão e concertina, Phillip Pickett (membro ocasional dos Albion Band, especialista em música antiga), bombarda, fagote da Rensacença e cromorna, Aly Bain (Boys of the Lough), violino, e a dupla Clive Gregson / Christine Collister, harmonias vocais, não chageam para elevar Thompson aos picos da transcendência. Se a lista de músicos referida (e a própria instrumentação utilizada) apontavam para um aprofundamento da vertente rural, na prática isso não aconteceu, optando, em vez disso, o guitarrista por um rock ligeiramente matizado que raramente consegue descolar. Richard Thompson é incapaz de escrever más canções, mas isso não serve de pretexto para o desculpar de uma certa atitude de indulgência, frequentemente presente nos seus trabalhos. “Rumor and Sigh” (inspirado num poema de Archibald MacLeish) diz respeito aos rumores e suspiros de “mares inimaginados” e era intenção do seu compositor criar uma música diferente de tudo aquilo que os outros pudessem fazer. Se a intenção era essa, na prática não o conseguiu, limitando-se a cumprir o que dele se espera, ou seja, baladas adequadamente sombrias, que lidam com as suas obsessões habituais (bêbedos que tomabm nas vielas, solidões irremediáveis, marginais à solta, a decadência moral do império britânico), aproximações à música “cajun” (“Don’t sito n my Jimmy Shands”) ou antiga (a introdução de “Backlash love affair”), impecáveis prestações guitarrísticas (refira-se que o músico utiliza pela primeira vez uma sanfona). Acima da média sobem os três temas finais, respectivamente o tratado muito “French, Frith, etc” de “Mother knows best”, a balada fantasmagórica “God loves a drunk” (mesmo assim fazendo suspirar pela voz de Linda Thompson) e o surrealismo de “Psycho street”, cruzamento bizarro entre os Incredible String Band e os Pere Ubu num baile de província. Enfim… (suspiro).
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Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único