Arquivo mensal: Janeiro 2019

Billie Holiday – “The Billie Holiday Collection”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 31 Maio 2003

O melhor do melhor de Billie Holiday numa antologia em quatro volumes. Viagem ao coração da noite e da solidão que Lady day cantou e viveu na pele até ao fim.


Lady sings the blues


Billie Holiday
The Billie Holiday Collection
4XCD Legacy, Columbia Jazz


Eleanora Fagan, Billie Holiday, “Lady day”. Nasceu em 1915 para deixar este mundo 44 anos mais tarde. Subiu ao céu, apesar de em vida ter descido ao inferno, onde brilha como a lua do jazz vocal feminino. De noite, portanto. No quadrante oposto do céu, lá está o sol, com a cara de Ella Fitzgerald iluminada por um enorme sorriso.
De Billie Holiday fora há pouco tempo editada a antologia em 10 volumes “Lady Day: The Complete Billie Holiday on Columbia, 1933-1944”, vencedora de um Grammy. Em formato condensado de quatro volumes, vendidos separadamente a “mid price”, surge agora “The Billie Holiday Collection”, com uma seleção dos melhores temas (embora se possa perguntar: onde está “Strange fruit”?) da antologia, em remasterizações de 24-bits.
No primeiro volume, a voz de Bille tem a suportá-la a sua própria orquestra e a do pianista Teddy Wilson, em diferentes formações, com Roy Eldrige (trompete), Benny Goodman (clarinete), Ben Webster (saxofone tenor), Johnny Hodges (saxofone alto), Harry Carney (Clarinete e saxofone barítono) e Gene Krupa (bateria). Tempos de “swing”, de tentativa de segurar uma inocência perdida desde muito cedo. Mas era notório que o “swing” estouvado da orquestra era de natureza diferente do “swing” interior da cantora. Mas era deste contraste entre a luz exterior e as sombras que se adensavam e balouçavam como folhas agitadas pelo vento, na alma de “Lady Day”, que surgiram as grandes interpretações. “Miss Brown to you”, “You let me down” (de chorar… e implorar por mais…), “It’s like reaching for the moon”, “These foolish things”, “Summertime”, “Easy to love”, “The way you look tonight”…
No segundo volume (gravações entre Janeiro e Setembro e 1937), um grande encontro. De “Lady Day”, como então passou a ser conhecida (no seu caso, e em relação ao grande público, algo muito relativo…) com Lester Young, “The President”, que em 1937 entrara para a orquestra de Teddy Wilson, o mesmo acontecendo com o trompetista Cootie Williams. “I can’t give you anything but love”, assim se chama uma das canções. Lester Young oferece este amor sob a forma de uma formidável interpretação no saxofone tenor. Eram almas gémeas. Ou não. A solidão acompanhou Billie Holiday até ao fim.
Ao terceiro volume, composto por gravações efetuadas entre Setembro de 1937 e Dezembro de 1939) sente-se já uma fragilidade crescente da voz, que não da técnica nem do sentimento, mas uma espécie de impotência ou raiva sublimada. Billie cantava como uma criança trémula, ainda com Lester Young a acompanhá-la nesta fase da viagem. Entravam então na orquestra, Buck Clayton (trompete), Freddie Green (guitarra), entre outros, a ilustrar um “songbook” de clássicos ilustres como “When a Woman loves a man”, “You go to my head”, “the very thought of you”, “I can’t get started” e “Night and day”. “I can’t believe that you’re in love with me” era o que ela queria dizer e Louis Armstrong já dissera em 1930. “Lady day” disse-o mais fundo. Acreditasse ou não.
Com o quarto e último volume da coletânea a estender-se de Dezembro de 1939 a Janeiro de 1944, encerrava-se um capítulo no qual Lester Young desempenhava ainda uma função primordial, como demonstra no solo que rubrica, como um abraço ou um beijo, em “The man I love” e, no último ano, ao lado do mago do piano Art Tatum e de Oscar Pettiford, no contrabaixo. “Body and soul”, “Georgia on my mind” são “standards” conhecidos. Mas… e “Am I blue?”, “Solitude” e “Gloomy Sunday” (também conhecida por “The hungarian suicide song” a qual, dizia-se, hipnotizava e induzia os amantes desesperados a porem termo à vida)? É neles que se sente melhor a dor. A voz arrasta-se, nestes temas, mais lenta e ardente do que nunca. Assombrosa, em “Gloomy Sunday”. Uma voz que arrepia e nos faz sentir o que a paixão provoca a quem ela se entrega sem defesas. Mas há defesas contra a paixão? Não as há, decerto, que permitam resistir ao canto de “Lady Day”.

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Sexteto de Paulo Perfeito + Omar Sosa Septet Flora Purim, Airto Moreira, Miguel Braga + Orquestra de Jazz de Matosinhos – “Omar, Que ‘Son’ Tem!” (concertos / festivais / Matosinhos Em Jazz

(público >> cultura >> jazz >> concertos / festivais)
segunda-feira, 26 Maio 2003


Omar, que “son” tem!

Matosinhos em Jazz
Sexteto de Paulo Perfeito + Omar Sosa Septet
Flora Purim, Airto Moreira, Miguel Braga + Orquestra de Jazz de Matosinhos
Matosinhos, Exponor
Dias 23 e 24, 21h30
Sala quase cheia nos dois dias



Qual ual “son”, qual jazz, qual cha-cha-cha, a música que Omar Sosa levou ao segundo dia do festival Matosinhos em Jazz é a música que as crianças e os poetas ouvem nos sonhos. Deslumbramento. O pianista cubano, que, na ocasião, tocou o repertório do seu mais recente álbum, “Sentir”, mais uma série de inéditos a incluir no próximo disco, é um daqueles músicos que, faça o que fizer, é como se estivesse a participar na criação do mundo através do som.
Omar cria a partir de cada nota, de cada ritmo, de cada pedaço do piano, mas a sua música é mais do que um simples alinhamento de formas. Habita nela uma energia primordial, um espírito quase infantil, em que o prazer da descoberta e a fruição do que se descobriu são as únicas regras de conduta a seguir. Em Matosinhos, o ritual incluiu cascatas rítmicas avassaladoras, “riffing” tribal e “trip’al”, jogos de refrações e ecos com as notas do piano tratadas eletronicamente. Diálogos com o silêncio e danças dervíshicas. Tradições de Cuba e romantismo, fúria e delicadeza, “clusters” infernais e o voo pacífico de pombas. A música subiu, subiu, sem parar.
Lá no alto, o piano suspendeu-se numa conversa com melodias de vento geradas por um tubo de plástico posto a girar em diferentes velocidades pelo percussionista venezuelano Gustavo Ovalles. O mesmo piano inventou sinfonias instantâneas em contraponto com as matracas agitadas pelo argelino El Houssaine Kili que, noutros temas, acrescentou à música os rendilhados vocais da música árabe.
Martha Galarraga, a cantora do grupo, cantou com o coração e fez música com gargalhadas. A seu lado, o “rapper” Breis conduziu parte da viagem. Termos como “paz”, “liberdade”, “felicidade” e “amor” libertaram-se do lastro do lugar-comum, para se oferecerem como evidências.
Breis auto-hipnotizou-se em melopeias circulares, rendeu homenagem a várias figuras do jazz, ampliou “slogans” até os fazer emergir como evangelhos. E pôs o público a dançar, a estalar os dedos, a cantar. Luis Depestre, o saxofonista, swingou como um puto entusiasmado. E Omar a tocar as cordas e as teclas, a dedilhar o ar, a criar música a partir do simples movimento do corpo. Sabendo, como só os sábios (os sábios-criança) sabem, que a música, em última instância, é puro movimento.
Comparada com esta música sem margens, a do sexteto de Paulo Perfeito, que abriu a noite de sexta-feira, pareceu vulgar. Há ali trabalho de composição, falta-lhe por enquanto o sopro vital.
Domingo abriu com os brasileiros Airto Moreira e Flora Purim e o pianista português Miguel Braga. Em regime de improviso, nenhum brilhou. Braga acumulou lugares-comuns no piano e no sintetizador, sem espaço de manobra para mais. Flora mostrou pertencer àquele grupo de vozes com chama, mas para as quais a afinação constitui um problema recorrente a resolver. Já para não falar da “gaffe” de se dirigir à assistência em francês e da qual passou depois todo o tempo a justificar-se, com lérias do tipo: “Não sou portuguesa nem brasileira, mas uma cidadã do planeta à espera que um disco-voador me venha buscar.” Airto confirmou, por seu lado, não ser um baterista mas um percussionista de exceção. A ele se ficaram a dever dois momentos-chave: a reprodução de ambientes da selva amazónica e um solo de pandeireta e “scat” que fez sobressair o tipo de lógica intuitiva (passe o paradoxo…) que assoma aos músicos que detêm o poder de estabelecer ligação direta com a fontes.
O jazz “jazz” regressou com a Orquestra de Jazz de Matosinhos, dirigida pelos pianistas Carlos Azevedo e Pedro Guedes. Excelente na arquitetura coletiva com base num repertório original por vezes edificado sobre a planta de Gil Evans, a orquestra ofereceu largo espaço de destaque aos solistas, bem aproveitado por Andrés Tarabbia (“Pancho”), num imaginativo jogo de percussão, e Paulo Pinto, que disparou uma rajada certeira de guitarra elétrica bem rockeira.
Mas o melhor solista da noite foi o trompetista convidado Eric Vloeimans, o que se viria a confirmar, madrugada dentro, na “jam” que decorreu no bar B-Flat com a presença de uma quantidade de instrumentistas portugueses e do tocador de harmónica espanhol Antonio Serrano. A Orquestra de Jazz de Matosinhos terá a dirigi-la a pianista, compositora e arranjadora Carla Bley, a 20 de Junho, no Festival em Obra Aberta, que se realizará na Casa da Música, no Porto, ainda antes da sua abertura oficial.

EM RESUMO
Omar Sosa O ritual celebrado pelo pianista cubano ultrapassou tudo o resto que se ouviu nas duas últimas noites do Matosinhos em Jazz.

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Benny Wallace – “Benny Wallace, O Tradicionalista Moderno” (concerto / festivais / Matosinhos Jazz)

(público >> cultura >> jazz >> concertos / festivais)
sábado, 24 Maio 2003


Benny Walalce, o tradicionalista moderno

Benny Wallace e o trio de Mulgrew Miller
Auditório da Exponor, Matosinhos





Começou com jazz ao pé-coxinho mas acabou com grande jazz o dia de abertura do festival Matosinhos em Jazz que termina hoje no auditório da Exponor. Bennie Wallace e o trio de Mulgrew Miller puseram em sentido uma assistência que não chegou para esgotar os 1000 lugares do auditório depois de uma primeira parte preenchida por espanhóis esforçados mas para quem o jazz, mais do que forma de vida, é uma prova de boa educação.
O que fascina em Bennie Wallace é a forma como este saxofonista tenor arranca a tradição do seu porto de abrigo para a revestir de uma energia e uma imaginação inesgotáveis feita de sínteses e releituras de mestres como Coleman Hawkins ou Ben Webster, lançados na arena de um discurso livre. Apresentado como um executante “sui generis”, o saxofonista fez jus a este estatuto. Bennie é um aglutinador, uma máquina transmutadora da história. Tem em si tudo: o bop, os blues, a transgressão do “free”, mas o que espanta é que este concentrado de jazz do passado é manipulado por ele através de uma sensibilidade e sentido improvisacional únicos. O timbre é seco, conciso, como o de Ben Webster, jazz tradicional, construído sobre alicerces sólidos, mas a partir daí o terreno está desimpedido.
Bennie funciona por impulsos, descobrindo pormenores e vórtices de força no âmago de cada tema, surpreendentemente ágil a fintar os clichés. Força e imaginação conjugam-se num fraseado extremamente original que a cada momento integra as mais insuspeitas conivências e uma liberdade de escolha que tanto traz à memória a dinâmica de respiração de um Louis Sclavis como mima as investidas “downtown” de um John Zorn. Bennie Wallace é um “true original” que em Matosinhos contou com o suporte de um trio de luxo para quem o jazz não tem segredos. Com o piano de Mulgrew Miller (“o melhor pianista da atualidade”, disse o saxofonista) a revelar-se dono e senhor de um “swing” impermeável aos ataques e delírios historicamente posteriores ao “hard bop”. Mulgrew Miller foi a segurança absoluta, uma mão direita escorreita e “aquática” que só na sequência final do “set”, mais “staccato” e profunda, deu alguma razão às vozes que pretendem compará-lo a McCoy Tyner. Um “My funny Valentine”, ainda sem o colorido adicional do saxofonista, não fez mais do que chamar a atenção para o território onde Mulgrew Miller se revelou imperial: os “blues”. E foi com eles que Bennie Wallace fez o que quis.
Comparada com a nobreza desta música, a do trio espanhol que abriu o Matosinhos em Jazz fez pálida figura. Carles Benavent, no baixo, ensaiou o funk, Tino Di Geraldo solou na bateria tirando partido dos timbres mais metálicos do “kit” mas sem conseguir ultrapassar o caderno das jogadas estudadas, Jorge Pardo lutou contra os saxofones e a flauta, em ornamentações sem músculo em redor do flamenco e da música árabe. Rebuçados que o “duende” não chupou. Já madrugada dentro, no bar B-Flat, o festival deu a conhecer um jovem executante portentoso, o espanhol António Serrano, exímio solista na harmónica.

O Matosinhos em Jazz termina hoje com as atuações do trio Flora Purim/Airto Moreira/Miguel Braga e a Orquestra de Jazz de Matosinhos.

EM RESUMO
Bennie Wallace, um verdadeiro original, coloriu a tradição com os impulsos da modernidade.

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