Arquivo mensal: Novembro 2017

Messer Für Frau Müller – “Allo, Superman!”

2 de Junho 2000
POP ROCK – DISCOS


Messer Für Frau Müller
Allo, Superman! (8/10)
What’s so Funny about, distri. Ananana



Para além das cenas de Canterbury, Chicago, Detroit, Viena, Berlim, Setúbal ou Düsseldorf, registe-se a existência da menos badalada mas não menos agitada cena de São Petersburgo que, desde os anos 70 e com sede privilegiada no Tam Tam Club, assistiu e promoveu a eclosão dos movimentos “hippie”, punk, new wave, gótico, etc, na Rússia. Brian Eno circulou por lá durante algum tempo (chegando a produzir o grupo Zeni Geva). Pioneiros do tecno soviético como os Novi Kompositori, DJ K-Fear, Good Dead Davidoff, Alexandroid (“house”), Deadushki (apelidados os Chemical Brothers russos), Mo Fun (“jungle-jazz”) ou Christmas bubbles passaram pelo Tam Tam Club que, entretanto, encerrou as portas por ordem judicial (a droga vendia-se lá livremente…). Oleg Kostrow (ou Kostrov), de quem já se conhecia o magnífico “Great Flashing Tracks from Iowna” é um veterano da cena de S. Petersburgo (hoje povoada por gente com os Jah Division…) e, juntamente com Oleg Gitarkin, um dos elementos dos Messer Für Frau Müller. O que encontramos em “Allo, Superman!” é um delírio ainda mais requintado que o de “Flashing Tracks”, um caldeirão borbulhante de colagens e eletrónica “funny”, “easy listening”, música de variedades russa, “lounge jazz”, “drum ‘n’ bass”, spots publicitários, rumbas, pop de garagem dos anos 60, samples de música clássica e tudo o mais que vem à rede, num redemoinho incessant que chama por Felix Kubin e Holger Hiller mas, sobretudo, se revela como um parente próximo e plastificado de “The Sylvie and Babs Hi-Fi Companion” dos Nurse With Wound.



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John Fahey – “Hitomi”

28 de Julho 2000
POP ROCK – DISCOS


John Fahey
Hitomi (7/10)
LivHouse, distri. Sabotage



Figura lendária do “underground”, herói para Jim O’Rourke, que o projetou como padrinho do pós-rockm influência assumida por Thurston Moore, dos Sonic Youth, John Fahey prossegue infatigável uma carreira desde há três décadas paralela aos grandes centros de decisão da indústria discográfica. A sua música fantasmática faz-se da devoção aos blues e à country, colados nas cordas da sua guitarra pela técnica do “fingerpicking” e por uma noção do tempo que ronda os princípios da hipnose. “Hitomi” apresenta uma sucessão de monólogos onde a introspeção e o silêncio se entrelaçam em longos mantras sulcados por efeitos de eco, reverberação e delay. Os “blues” alongam-se na dispersão das frases da guitarra, abrindo no seu interior espaços e síncopes. O tempo, repetimos, não é o mesmo para John Fahey e para um “bluesman” tradicional. Fahey estilhaça-o a seu bel-prazer numa música que tem tanto da serenidade zen (um “Delta flight” planante) como da inquietação súbita que um redemoinho de vento traz a uma cálida tarde de Verão. Quando, por fim, a guitarra se depara com o seu primeiro grande obstáculo, em “A history of Tokyo rail traction”, o embate com a eletrónica de Tim Knight e Rob Scrivener repõe com violência esta música do “outro mundo” na realidade das coisas sólidas que colidem e fazem ruído e causam dor. Como se o pós-rock reivindicasse à força os seus direitos, exigindo de John Fahey a atenção que este invariavelmente tem concentrada nas regiões mais estratosféricas da imaginação. São sonhos que se desvelam em “Hitomi”. Mas sonhos que causam desequilíbrio e exigem a reavaliação das normas que regem os passado. O que torna a música de John Fahey intemporal.



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Fátima Miranda – “ArteSonado”

15 de Setembro 2000
POP ROCK – DISCOS


Fátima Miranda
ArteSonado (9/10)
Led, distri. Ananana



Mal fará quem se propuser escutar o mais recente álbum da cantora espanhola Fátima Miranda recostado no sofá com a concentração regulada a meio gás. “ArteSonado” exige que o mundo se apague à sua volta de modo a deixara voz inundar o mais ínfimo recanto da alma. Mantendo embora o mesmo elevadíssimo grau de virtuosismo e experimentação vocais que caracterizavam o anterior e magnífico “Concierto en Canto”, o novo trabalho da cantora que esta semana atuou em Lisboa e no Porto opera porventura a um nível mais subliminar, evidenciando sinais de um ritualismo que, recorrendo, como seria de esperar, a técnicas vocais tradicionais como o drhupad indiano, o flamenco ou o canto polifónico de Tuva, se revestem de uma inconfundível modernidade. Fátima Miranda invoca aqui forças ancestrais e coloca a voz ao seu serviço numa sequência de oito movimentos que percorrem toda a gama de registos vocais e estados de espírito que vão da serenidade contemplativa à histeria, da regressão à infância ao lançamento de maldições, da recriação étnica ao risco absoluto, entre o humor e a psicose, o amor e a morte. “Ornado de artesões” ou a “arte que soa”, dois dos significados semânticos do título, “ArteSonado” é a arquitetura vocal e anímica de êxtases formatados pela inteligência analítica e por uma imensa vontade de ir sempre mais além. Acondicionado num livro que é, também ele, um intenso convite ao jogo e ao prazer, “ArteSonado” não terá o impacte de “Concierto en Canto” mas deixa a certeza de que ficará igualmente inscrito no grupo das grandes obras vocais deste século.


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