Arquivo mensal: Fevereiro 2017

Hedningarna – “Hippjokk” + Garmarna – “Guds Spelemän”

POP ROCK

12 Março 1997
world

Companheiros de escola

HEDNINGARNA
Hippjokk (8)
Silence, distri. MC – Mundo da Canção

GARMARNA
Guds Spelemän (8)
Xxource, distri. MC – Mundo da Canção


hed


gar

Olhem lá para a pinta de malucos dos meninos. São os suecos Hedningarna, a coqueluche da música, hã…, tradicional escandinava, no seu muito aguardado regresso discográfico, agora reduzidos a um trio. Quer dizer que neste seu novo álbum os três meninos – Anders Stake, Hällbus Totte Mattsson e Bjӧrn Tollin – ficaram sem as meninas, Sanna e Tellu, as bruxinhas boas dos anteriores e fabulosos “Kaksi” e “Trä”. Foi-se também embora a sanfona assassina (se calhar explodiu mesmo…). A loucura instrumental, essa, permanece, se bem que, agora, num registo mais normalizado e, por isso, menos escandaloso. Além disso – surpresa –, as vozes de Stake e Mattsson cumprem satisfatoriamente o registo de arrebatamento xamânico característico dos Hedningarna, tarefa que antes pertencia à falange feminina.
Fazendo o ponto da situação, temos que o grupo sedimentou um estilo que tem vindo a fazer escola, não só no seu país de origem: um tribalismo exacerbado – nalguns casos de ressonâncias quase africanas – que, paradoxalmente, levando em conta a evolução sofrida pelo grupo de “Kaksi” para “Trä”, dispensa nesta sua nova fase, quase por completo, a componente electrónica. Nesta medida, “Hippjokk” pode ser encarado como um retorno discreto às proximidades da tradição, como acontecia no álbum de estreia, “Hedningarna”. Algo que se pode verificar com nitidez em temas como “Dufwa” ou “Skåne”, o que poderá significar uma tomada de consciência quanto ao esgotamento de uma fórmula de ruptura que terá atingido em “Trä” os seus limites.
Poderoso, como seria de esperar, mais do que nunca apoiado no frenesim das percussões (estonteantes, faixas como “Bierdna” ou “Kina”), “Hippjokk” deixa de fazer da estratégia de choque uma questão de honra, ao mesmo tempo que mostra que os Hedningarna estão bem se saúda, provavelmente até libertos do peso de uma responsabilidade que os obrigava a transportar, sozinhos, o fardo da revolução.
Libertos de qualquer pressão, os Garmarna prosseguem, por seu lado, o seu caminho de renovação da música de raiz tradicional sueca, neste caso ainda com a voz de Emma Hårdelin a conferir uma força adicional às polifonias colectivas, “drones” de sanfona, samplagens e percussões etno-rock que tornam único o som dos Garmarna, inovadores dentro da tradição sueca, sem contudo a atirarem pela borda fora, como, apesar de tudo, ainda fazem os Hedningarna. Todavia, a aproximação entre estes dois grupos faz-se sentir em temas como “Min man”, “Varulven” ou “Herr Holger”, fenómeno de simbiose, não de todo desejável, provocado pelo atrás mencionado “efeito de escola” dos autores de “Kaksi”, o que não acontecia no anterior álbum dos Garmarna, “Vittrad”. Apetece dizer que os Garmarna, num altura em que os Hedningarna parecem ter chegado a uma encruzilhada, foram buscar influências a “Kaksi” e “Trä”, assumindo-se como os continuadores de um trabalho ainda com novas potencialidades por explorar.
“Hallings” da Noruega, um poema do povo “saami”, baladas medievais, histórias de lobisomens e tragédias de família desdobram-se nos tons de vermelho que se tornou a cor fundamental, tanto da embalagem como dos sons, de “Gude Spelemän”. Os Garmarna decidiram trocar a poesia pela energia.





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Storvan – “An Deiziou Kaer”

POP ROCK

5 Março 1997
world

Storvan
An Deiziou Kaer
KELTIA, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


st

Os Storvan são uma das três formações que ocupam a vanguarda actual do movimento de recriação da música tradicional bretã, ao lado dos Skolvan de Strobinell, por coincidência todos com nome começado por S. “An Deiziou Kaer” (“os belos dias”) sucede a “Digor ‘n Abadenn” na discografia do grupo, revelando um progresso assinalável na maneira como este vem trabalhando a música de uma região onde a marca celta ficou para sempre impressa. Em termos de apreciação instrumental, não conseguimos recorrer a outra palavra, para definir a impressão que nos provocou a sua audição, senão: magia. Pura magia. O “laridé” em seis tempos da abertura e o “hanter dro” seguinte, para além de fazerem dançar um coxo, destilam aquela substância volátil e misteriosa que faz mexer as cordas mais secretas da alma. “Ar biniou” insere-se na vertente do sagrado, inseparável da tradição bretã, numa transposição para bombarda de uma história sobre o “biniou” (gaita-de-foles bretã) contada pelas míticas irmãs Goadec, ainda retomadas em “An tad moualh koz et porsac’h”. Na inevitável “Suite de danses fisel”, Christian Facheur volta a evidenciar os seus dotes de “virtuose” da bombarda, um dos instrumentos mais exigentes, mas também de sonoridade mais evocativa, da música da Bretanha. Em “Danse de Bitêklé”, os Storvan contam as 99 estalagens que, segundo a tradição, se erguem ao longo do caminho que vai da Terra ao Paraíso. Precisamente a meio caminho fica a de Bitêklé, aquela onde, todos os sábados, Deus vai buscar, para as levar para o paraíso, as almas do que ainda não estão demasiado bêbados. Para nós, dizem os Storvan, fica a tarefa de encontrar os passos certos para esta dança entre dois mundos. A nós cabe-nos ainda essa outra tarefa, talvez a mais nobre de todas, de moldar os nossos hábitos de escuta, abandonando a passividade que impede o discernimento, se quisermos aceder ao que a música tradicional tem de mais profundo para nos dizer: a correspondência de movimentos, entre a dança das notas e o devir anímico. A música dos Storvan leva-nos aonde quisermos ir. Um dos melhores álbuns do ano passado que transitaram para o ano novo, antecipando os “belos dias” da Primavera que está para nascer. (9)

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Márta Sebestyén – “The Best Of…”

POP ROCK

5 Março 1997
world

Márta Sebestyén
The Best of…
HANNIBAL, DISTRI. MVM


ms

O reconhecimento internacional da cantora húngara Márta Sebestyén tem aumentado na razão inversa ao seu afastamento das raízes tradicionais que caracterizava a sua música quando cantava ao lado dos Vujicsics e Muzsikás. É assim que, depois de uma participação inusitada no projecto Towering Inferno, Márta chega ao cinema e logo no filme mais nomeado para os Óscares da academia deste ano, “The English Patient”. Uma participação que se reduz ao minutinho do primeiro tema, uma canção de embalar tradicional, naquele que é o único original do álbum. Tudo o mais são canções retiradas da discografia anterior da cantora, com os Vujicsics, em “Vujicsiscs”, os Muzsikás, em “Márta Sebestyen and Muzsikás”, “The Prisoner’s Song”, “Blues for Transylvania” e “Máramaros”, e a solo, em “Apocrypha” e “Kismet”, estes dois últimos os álbuns que representaram um corte mais radical com a vertente étnica de todos os seus trabalhos anteriores. Quem nunca ouviu falar de Márta Sebestyen e vai ver “The English Patient” poderá querer saber mais sobre a cantora. É esta a principal virtude de uma colecção que revela apenas uma parte ínfima de uma das vozes mais belas do nosso tempo. (8)



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