Arquivo mensal: Outubro 2016

Carlos Nunez – “A Irmandade das Estrelas”

POP ROCK

9 de Outubro de 1996
world

Ovo estrelado

CARLOS NUÑEZ
A Irmandade das Estrelas (6)
BMG Ariola, distri. BMG e import. Disco 3


cn

Nos festivais internacionais para que é, com frequência crescente, convidado, Carlos Nuñez eclipsa geralmente toda a concorrência, rendida ao seu quase sobrenatural virtuosismo – como aconteceu, inclusive, em Portugal, quando da sua apresentação na última edição do Intercéltico do Porto. O músico galego é, de facto, um predestinado, atingindo níveis de desempenho, na “gaita” ou no “tin whistle”, verdadeiramente de excepção. Esta evidência não apaga, no entanto, o pouco acerto que tem presiddido ás suas opções musicais, das quais o folk(?)-rock-“reggae” dos Matto Congrio constitui no exemplo mais gritante pela negativa. É verdade que a dimensão e o estatuto internacionais entretanto alcançados pelo músico galego porventura o impedem de se dedicar a uma música eventualmente mais do agrado dos puristas mas cujo destino mais provável, em termos comerciais e no terreno do “mainstream”, onde hoje se movimenta, seria o fracasso.
“A Irmandade das Estrelas” não resolve a questão, embora procure ultrapassá-la através da fórmula, dispendiosa, do recrutamento do maior número possível de “estrelas”, conferindo, neste caso, ao título, um segundo sentido que apenas desvaloriza o seu conteúdo iniciático. Da lista de lustres da irmandade fazem parte os Chieftains (Paddy Moloney é o padrinho aceite por Carlos…), Ry Cooder, os Nightnoise (de Triona e Michéal Dhomhnaill), a Vieja Trova Santiaguera cubana, o grupo de vozes e pandereteiras Xirabela, Amancio Prada e o guitarrista de flamenco Rafael Riqueni. E os portugueses Dulce Pontes, Paulo Jorge e Yuri Daniel, em “Lela”, uma serenata de Santiago de Compostela que toca no fado de Coimbra. Um ovo estrelado com excesso de condimentos. Obra e pretensões universalistas, como se vê, na linha dos fundamentalismos célticos agora tão em voga, que procuram estender o círculo druídico a todas as épocas e lugares.
No meio de tantas manobras de conquista, quase se escondem num outro mundo – menos iluminado por “estrelas” mas enraizado numa genuína ligação da terra ao firmamento – as vozes solitárias, de Luz Casal, em “Negra sombra”, e colectivas, das Xirabela, em “Cantigueiras”. Carlos poderia fazer sozinho o foguetório, acendendo as velas nos lugares mais altos do tecnicismo e do bom-gosto. Assim, deite quem quiser os foguetes e apanhe as canas deste arraial de gente fina que, sem chegar aos calcanhares da obra de referência neste capítulo, a “Symphonie Celtique”, de Alan Stivell, deixa a milhas de distância a pastelada, não menos megalómana e com idênticos propósitos, de Dan Ar Bras, em “L’Heritage des Celtes”.



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Sheila Chandra – “ABoneCroneDrone”

Pop Rock

18 de Setembro de 1996
world

SHEILA CHANDRA
ABoneCroneDrone (8)
Real World, distri. EMI – VC


sc

Era previsível a forma que tomou este terceiro tomo de uma trilogia que se iniciou com “Weaving my Ancestor’s Voices”, prosseguiu no anterior “The Zen Kiss” e finalmente desembocou no oceano, literalmente sem margens, da “drone” pura e simples. Um passo lógico mas que não deixa de ser radical da parte desta cantora de ascendência indiana, para quem a experiência do canto se liga intimamente à da audição e do contacto místico com níveis superiores do ser, como é o da música, enquanto realidade ideal, no sentido que Platão lhe conferiu – entidade pré-existente à qual, por ascese, o homem pode aceder (contemplar) ou, no caso do músico, “roubar” de modo a transformá-la em frequências sonoras audíveis. Um sentido assumido até às últimas consequências por Sheila Chandra, que aqui se refere à sua música como “performance”, na medida em que se afirma como relação que exige a participação activa do auditor – sendo este último, em última análise, quem confere à matéria sonora os seus atributos semânticos e a sua organização final. Premissas que colocam “ABoneCroneDrone” e os seus seis segmentos-temas, todos com este título, na mesma linha ideológica e estética dos minimalistas e, em particular, de LaMonte Young e do seu conceito de música eterna, os quais, por sua vez, derivam das noções de “drone” e de ciclicidade da música indiana, afinal a matriz formal, filosófica e religiosa do movimento minimalista. Em “ABoneCroneDrone”, Sheila navega no interior do som, fazendo nascer, de maneira mágica, as melodias, do centro da harmonia, lugar de origem de todos os ordenamentos e sequenciações melódicas. Lugar, pois, de navegação mas também de pesca, onde uma simples sílaba se estende até ao infinito e a noção de polifonia se dilui na imensidão oceânica das microtonalidades e do jogo de combinações dos harmónicos, por sua vez multiplicados em micro-sinfonias subliminares. É difícil acreditar que esta Sheila Chandra seja a mesma que, nos anos 80, levou “Ever so lonely”, com os Monsoon, aos tops de vendas. Em “ABoneCroneDrone”, a cantora alinha-se na vanguarda do experimentalismo vocal, embora – e bastaria esta diferença para a distinguir de algumas das suas companheiras representantes de correntes e técnicas de canto ocidentais – sem cortar os elos de ligação aos princípios da música indiana tradicional. No fundo, “tecendo”, de maneira inovadora, as tais “vozes dos seus antepassados”.



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The Whistlebinkies – “Inner Sound”

Pop Rock

3 de Julho de 1996
world

The Whistlebinkies
Inner Sound (8)
A Wanton Fling (9)
GREENTRAX, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


wh

Respeitinho, gentes! Os Whistlebinkies vão soprar as velas do seu 20º aniversário, podendo ser considerados os equivalentes escoceses dos Chieftains. À semelhança dos seus vizinhos da Irlanda, desprende-se da sua música uma profunda sensação de classicismo, em parte devida à influência de um dos seus elementos, ligado aos meios eruditos, o flautista e harpista Eddie McGuire, mas sobretudo pela atenção posta no detalhe e na sofisticação dos arranjos. O grupo já tocou, aliás, com o violinista Yehudi Menhuin, a Royal Scottish Chamber Orchestra, até com um dos mestres da música contemporânea, o já desaparecido John Cage.
O tema de abertura de “Inner Sound” não destoaria num qualquer álbum da banda de Paddy Moloney, cujas “uillean pipes” se equiparam às “Lowland” e “Small pipes” de Rob Wallace. Na mesma linha dos Chieftains, insere-se ainda a construção formal desse tema, com as harmonias desenhadas, num traço contrastante, pelas “clarsách” (harpa céltica escocesa) de McGuire e Judith Peacock e o lirismo exacerbado que caracteriza uma obra-prima como “The Chieftains 5”. Ainda outra coincidência: os Whistlebinkies foram a primeira formação “folk” escocesa a tocar na República da China, da mesma maneira que os irlandeses foram os primeiros do seu país a actuar ali.
Em “Inner Sound”, a música dos Whistlebinkies espraia-se pela paisagem da Escócia, pelos lagos e montanhas ao pôr do sol da capa, numa amplitude cinematográfica que, de novo, evoca a postura estética dos Chieftains. Escuta-se este som que vem de dentro á sombra de um sonho, percebe-se através das filigranas com que é construído que nunca a música tradicional de raiz possuiu na origem esta sofisticação, mas por isso mesmo sobressai dele uma mais-valia de onirismo e a compreensão de que uma parcela importante da música “folk” contemporânea, muito mais do que tentar reproduzir, segundo técnicas mais ou menos arcaizantes, formas ou estilos “tradicionais”, se dedica à exploração sonora e conceptual das suas matrizes simbólicas. Faz então hoje mais sentido do que nunca falar de uma música folclórica imaginária sem que tal signifique um afastamento irredutível das estruturas musicais originais (ou o que delas resta), e é esta ideia que atravessa, de fio a pavio, e com máximo fulgor, tanto este como, ainda com maior intensidade, o mais recente “A Wanton Fling”, monumento esculpido sobre as tradições do gaélico escocês e da música das Terras Baixas.
Ao contrário de “Inner Sound”, cujos academismos e semelhanças com os Chieftains são impossíveis de ignorar, é um álbum iluminado por uma vocação épica que o faz transcender qualquer comparação. Por aqui passam composições do “pipe major” Donald McLeod, do poeta Robert Burns, da cantora Christine Primrose, bem como de dois elementos do grupo, Eddie McGuire, com uma canção extraída de “The Spirit of Flight”, da partitura para bailado para instrumentos tradicionais e orquestra que escreveu em 1991, e Rob Wallace, cuja prestação nas “pipes”, ao longo de todo o álbum e, em particular, na assinatura “The Whistlebinkies jig”, é simplesmente divinal. Judy Peacock revela-se, por seu lado, uma delicada intérprete do canto gaélico. Já houve quem se referisse, meio a brincar, aos Whistlebinkies como a única “gothic folk band” da Escócia. Faz algum sentido. No âmago da sua música enovelam-se as visões de um rei antiquíssimo a imaginar o Tempo através do vitral de uma catedral gótica.



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