Arquivo mensal: Abril 2016

Von Magnet – “Von Magnet Meets the Data Gypsies: Cosmogonia”

Pop Rock

11 de Outubro de 1995
Álbuns poprock

Von Magnet
Von Magnet Meets the Data Gypsies: Cosmogonia

HYPNO BEAT, DISTRI. SYMBIOSE


vm

Onze arcanos do baralho esotérico “tarot” são aqui transformados em signos sónicos por um naipe variado de intérpretes, denominados Data Gypsies, através de remistura e montagem de música originalmente composta pelos Magnet, praticantes de tecno industrial, adeptos da new rage (por oposição à new age) e membros da MACOS (“Musicians against Copyright of Samples”). Monótono em alguns casos, aqueles onde a vertente tecno e industrial se sobrepõe, ocasionalmente sublimada numa voz de características étnicas ou rituais, “Cosmogonia” surpreende pelo lado mais ambiental e experimentalista. Estão neste caso os temas a cargo de Victor Sol (um espanhol que com os Xjacks, na Fax, de Pete Namlook, subverte algumas regras básicas da editora), “El carro d’Hermes”, onde máquinas monstruosas se emancipam do controlo humano; de Ken Thomas, no ritualismo obscuro de “El anciano”; e de Lassigue Bendthaus, com “El maestro”, exercício extenso de industrialismo cibernético que deriva para a colagem naturalista ao estilo dos PJR, antes de se organizar na mecanicidade pura de um Asmus Tietchens. Relativamente “conhecidos” desta área, os Bourbonese Qualk ficam-se por uma base rítmica sequenciada e bastante dançável, enquanto os estranhos Calva & Nada optam pelo discurso hermético sobre a figura de “El diablo aker” e Ian Briton com Boyd recorrem sem grande originalidade às vozes filtradas por um “vocoder” saídas da auto-estrada dos Kraftwerk. As principais referências estéticas da maioria da legião tecno giram contudo em torno dos Einsturzende Neubauten, Test Dept ou la Fura dels Baus, este últimos mimados num manifesto contra o poder por Gus Ferguson com os ICU, no derradeiro arcano, “El Ciclo”. A embalagem contém reproduções miniatura das respectivas cartas. Satisfação garantida para os apreciadores deste género de barulhos. (6)



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Brian Eno & Jah Wobble – “Spinner”

Pop Rock

4 de Outubro de 1995
Álbuns poprock

AMBIENTES COM BARRIGA

BRIAN ENO & JAH WOBBLE
Spinner (7)

All Saints, distri. MVM


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Para evitar que lhe chamem molengão, Brian Eno lançou-se nos últimos tempos no empreendimento de afastar a imagem estafada do “papa do ambientalismo” que sobre ele se criou desde que em 1977 inventou e gravou o conceito da “discreet music”. Discos como “Nerve Net” ou a renovada colaboração com David Bowie, em “Outside”, apontam para esta reciclagem, sem, contudo, conseguirem fazer esquecer que é precisamente no território, ambíguo, da música ambiental que as suas características enquanto criador encontram melhor forma de expressão. Discos como “Music for Airports”, “On Land”, “Apollo Atmospheres”, “Thursday Afternoon” ou mesmo o radical “Neroli”, por muito que isto custe a engolir aos mais nervosos e impacientes, são obras importantes que vieram revolucionar alguns dogmas e ideias feitas sobre a composição e métodos de interpretação da música ocidental, ao mesmo tempo que diluíram por completo a separação entre as chamadas músicas “popular” e “erudita”. Isto para não falar na alteração dos processos auditivos, eles próprios forçados pela música de Eno a orientarem-se segundo novas coordenadas. “Spinner” vem alterar um pouco tais considerandos, na medida em que o papel de Eno, tantas vezes assumido, de catalisador e organizador de sons alheios (é inestimável a sua contribuição como produtor nas últimas duas décadas) dá aqui uma volta de 180 graus. Constituindo na origem material para a banda sonora do derradeiro e inacabado filme de Derek Jarman, “Glitterbug”, as fitas, gravadas “a sós, à noite e em casa” por Eno, acabaram, segundo este, por perder a sua relevância, uma vez separadas das imagens. Cortado o cordão umbilical, Eno optou então por se “entregar nas mãos de Jah”, como ele próprio diz. Opção bizarra que juntou o mestre da imponderabilidade ao musicalmente barrigudo e peso-pesado do baixo eléctrico Jah Wobble, um dos responsáveis pela invenção da “etno seca”. Em “Spinner” há faixas trabalhadas por Jah Wobble, outras por ele totalmente alteradas e massacradas e outras ainda em que a música original de Eno permaneceu intocável. Estas últimas são as mais interessantes do disco, pequenas pinturas ambientais/impressionistas ao bom estilo do ex-Roxy Music, com Wobble a tentar conter-se nas restantes, refreando a sua tendência para o pastelão, o que resulta engraçado em temas como “Like organza” e “Steam” (verdadeiramente energético e com um Justin Adams “frippiano” na guitarra); mas roça a “etno seca” em “Left where it fell” e “Unusual balance”, título apropriado para uma ligação contranatura; e descamba literalmente em “muzak” musculado de duvidosa utilidade em “Spinner”, pese embora a contribuição do baterista dos Can, Jaki Liebezeit. Foi o melhor que se conseguiu arranjar, dentro do conceito muito pessoal que Eno tem sobre o rock & roll.



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Rickie Lee Jones – “Naked Songs”

Pop Rock

20 de Setembro de 1995
Álbuns poprock

Rickie Lee Jones
Naked Songs

Reprise, distri. Warner Music


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Desta feita em regime inteiramente acústico, ao vivo, guitarra à tiracolo e um lote antigas canções que falam dos mistérios da vida que lhe agitam a alma, Rickie Lee Jones regressa em passinhos de veludo com o coração nas mãos e a voz no nariz mais do que nunca. Um “unplugged” não oficial em que as canções se desnudam para revelar os seus mais íntimos segredos e a cantora expõe todas as fragilidades da interpretação. “Naked Songs” tem como principal virtude aproximar ainda mais o seu discurso, já de si intimista, do ouvinte, esforço talvez desnecessário para alguém que, como ela, conseguiu estabelecer essa mesma proximidade e um grau máximo de comunicabilidade – presente na sensação de acompanharmos e sentirmos passo a passo as histórias que nos são contadas – num álbum como “Pop Pop”. A questão está então na distância certa a manter em relação à artista, que aqui fez a ampliação do plano americano para o “close up” emocionalmente sobrecarregado. Doloroso, em mais do que um aspecto, o contacto íntimo com canções de “The Magazine” ou “Flying Cowboys” revela-se deste modo indicado, sobretudo para os que apenas se contentam com sentir no rosto a respiração da cantora, encostar o ouvido às suas confissões e roçar-se contra a sua pele. Há, contudo, limites para a nudez, ainda que não seja castigada. No caso de Rickie Lee Jones, uns trapos em cima, digamos não mais do que “lingerie”, ficam-lhe melhor. (5)



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