Arquivo mensal: Março 2016

P. J. Harvey – “To Bring You My Love”

Pop Rock

1 de Março de 1995
álbuns poprock

O amor como forma de suplício

P. J. HARVEY
To Bring You My Love

Island, distri. Polygram


pj

Polly Jean Harvey é querida da crítica. “Dry” fez parte da lista dos melhores álbuns do ano para o “New York Times”, “Village Voice” e “Rolling Stone”, e ela própria foi eleita por esta última publicação a “melhor compositora” e “melhor nova cantora”. “Rid of me”, e a posterior experiência de rarefacção que é “4-Track Demos”, foram igualmente recebidos com um coro de elogios. Polly Jean tem vários trunfos na mão, a começar pelos seus talentos vocais.
Ao ouvir-se a sua voz torturada no tema de abertura, precisamente “To bring you my love”, é impossível não pensar em Janis Joplin. É o mesmo “cocktail” explosivo de dor, raiva e ironia, com amarras naquela corrente subterrânea que se iniciou nos anos 60 com Janis e os Doors e derivou na actualidade para o niilismo conceptual dos Einstuerzende Neubauten, a autocrucificação tornada espectáculo de variedades de Nick Cave e Jim Thirwell, o humanismo “sado-maso” dos Suicide ou a perversidade viral de Diamanda Galas. O mesmo é dizer que P. J. Harvey tem raízes, bem fundas, no passado mais negro do rock.
“To Bring You My Love” é um álbum de emoções e sonoridades saturadas. Das guitarras torturadas às inflexões histriónicas da voz, o excesso é uma constante. Como se Polly Jean, que aqui assegura o desempenho nos teclados, vibrafone e outras percussões, tentasse tatuar em nós cada palavra e cada melodia ensopada em sangue, sem deixar espaço para a fuga ou para a indiferença. Os ritmos alternam entre o fragor de edifícios em derrocada, martelos pneumáticos descontrolados e metais em processos de corrosão acelerada. A primeira vaga de violência explícita vai no entanto dando progressivamente lugar a um outro tipo de crueldade, mais contida mas não menos perturbante.
“Teclo” é uma balada caleidoscópica dooriana e “I think I’m a mother” uma ameaça sussurrada no fundo de um poço. Jesus e o diabo cruzam-se constantemente com P. J. Harvey, sobretudo quando o tema é o amor, ou o seu duplo, como é o caso em “To bring you my love” e “Send his love to me”, neste último com a cantora a descer ao lugar, no céu ou no inferno, onde se agitava Jim Morrison, ao fundo do corredor de “The end”. Polly acaba a dançar desamparada no tema final, “The dancer”. Transportada por um órgão gospel, numa glória a negro e ouro com o cheiro da morte. (9)



Jon Hassell – “Sulla Strada”

Pop Rock

1 de Março de 1995
álbuns poprock

Jon Hassell
Sulla Strada

MATERIALI SONORI, IMPORT. ÁUDEO

jh

Na lógica do percurso mais recente de Jon Hassell, que culminou na releitura abrupta das estratégias para a música de um utópico quarto mundo, operada em “Dressing for Pleasure”, o novo álbum faz um retrocesso até à música de álbuns como “Dream Theory in Malaya” e “Aka Darbari Java – Magic Realism”, aqueles mais visivelmente marcados pelo minimalismo étnico, entre as miniaturizações digitais e as orquestras de gamelão. Composto como banda sonora para um espectáculo “multimedia”, com direcção de Federico Tiezzi e “performance” dos Magazzini, “Sulla Strada” toma como ponto de partida a obra, “On the road”, de Jack Kerouac, um dos papas da “beat generation” da América dos anos 60. Transposição curiosa esta, em que os conceitos de estrada, ponte e ligação – entre culturas e entre lugares, no livro a viagem para sul, até ao México -, permitem anular a distância que separa as conotações “exóticas” desde sempre associadas à música de Hassell e o imaginário poético (e cinematográfico) que a nossa subjectividade construiu em redor da obra do escritor. Funcionam ainda como elos de ligação (e, em simultâneo, como factores de estranheza), as introduções narradas em italiano que normalmente antecedem cada tema, musicalmente outros tantos tratados de hipnose, culminando nos 22 minutos ritualísticos de “Tramonto, caldo umido”, onde a tribo eléctrica dos anos 90 encontra o psicadelismo de que Kerouac foi um dos seus primeiros profetas. (8)



Tanita Tikaram – “Lovers in the City”

Pop Rock

22 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Tanita Tikaram
Lovers in the City

EAST WEST, DISTRI. WARNER MUSIC


tt

Com influências centradas em musicais como “West Side Story” ou na escrita de “songwriters” como Joni Mitchell e John Lennon, Tanita Tikaram tem desbaratado, ou mantido em segredo, o seu talento, por álbuns de vocação pop demasiado voltados para o consumo imediato. “Lovers in the City”, quinto longa-duração da cantora, dá um surpreendente salto qualitativo, ao qual não é alheio um tempo de maturação superior ao habitual, de alguém que, aos 25 anos, já vai com cinco álbuns gravados, bem como o trabalho de produção, assegurado por Thomas Newman (Tom Newman, produtor de Mike Oldfield, e pioneiro da “new age”?). A voz grave e acetinada de Tanita encontrou-se em canções em que predominam as baladas em tempos médios, ora envoltas numa aura percussiva que foi beber a Peter Gabriel, ora espraiando-se em lânguidas orquestrações para cordas, num registo confessional que segue de perto as pesadas de K. D. Lang, nas suas mais recentes operações de “coração aberto”, empreendidas no fabuloso “Ingénue”. Entre curiosidades como uma “Yodelling song” singular ou as horas perdidas entre o álcool e o fumo do tema final, “Leaving the party”, em que Tanita desnuda o seu lado trágico, numa versão feminina de Bryan Ferry, pérolas como “Bloodlines”, “Women who cheat the world” ou as entoações “langianas” de “My love tonight” garantem a subida de Tanita Tikaram à primeira divisão das vozes femininas actuais. Não faz mais sentido falar da menina-prodígio com boa voz, mas de uma cantora amadurecida em volta da qual nasceram as primeiras sombras. Um regresso que se saúda. (7)